Nossa Senhora!
Nesta segunda-feira (12), Dia da Padroeira do Brasil, a cruzada pelo voto religioso dominou o debate político no Brasil.
Sete dos 30 assuntos mais comentados da rede X (antigo Twitter) no país tinham ligação com Aparecida, com a fé ou com os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), que se enfrentam em uma eleição ainda indefinida.
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O ranking, no início da tarde, tinha o tema “Lula com Aparecida” em 1º lugar e “Juliete” em 2º. O segundo se refere à cantora e influenciadora, que saiu em defesa de Nossa Senhora Aparecida e participou de uma campanha que denuncia ataques à padroeira do Brasil por lideranças religiosas.
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A manifestação foi divulgada nas redes sociais pelo projeto Revelando, que já havia postado um vídeo com o humorista Fábio Porchat, sobre relações entre o Banco Master e a Igreja da Lagoinha.
No X, também entraram na lista “Deus usa Lula” (11º), “Padroeira” (13º), “Flávio usa Deus” (14º), “Santa” (15º) e “12 de outubro” (30º).

Joédson Alves/Agência Brasil
Candidato à reeleição, Lula participou de missa em celebração ao Dia de Nossa Senhora Aparecida, na Capela do Palácio da Alvorada. Flávio, que é evangélico, esteve em missa na Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida, em Brasília.

Valter Campanato/Agência Brasil
Como a santa entrou na campanha
Aparecida virou protagonista da eleição presidencial. A devoção a Nossa Senhora Aparecida, que marca a região do Vale do Paraíba, passou a ocupar espaço no debate político e religioso.
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Uma declaração de Flávio sobre Jesus Cristo, a circulação de uma informação falsa sobre a retirada do título de Padroeira do Brasil e decisões conflitantes no Judiciário transformaram a santa em personagem de uma das principais disputas da reta final da campanha.
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Aparecida no centro da eleição
Capital da fé católica no Brasil, Aparecida está localizada em uma região que historicamente ocupa posição simbólica no debate nacional sobre religião e política. O Santuário Nacional, maior templo mariano do mundo, e a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) passaram a ser envolvidos na disputa eleitoral.
A controvérsia ganhou força depois de uma declaração de Flávio Bolsonaro sobre Jesus Cristo. Em vídeo publicado em 24 de agosto, o candidato afirmou que, caso fosse eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.
A fala ganhou novos contornos porque envolve diferentes interpretações dentro do próprio cristianismo. A devoção a Nossa Senhora e seu papel como intercessora fazem parte da tradição católica, enquanto outras denominações cristãs não reconhecem Maria da mesma maneira.
Declaração sobre Jesus
Ao justificar a ausência em um debate da Band, Flávio disse que não participaria porque Lula também não estaria presente. No mesmo vídeo, afirmou que queria “debater com quem não acredita em Deus”.
A declaração voltou ao centro da campanha quando começou a circular nas redes sociais uma informação segundo a qual Flávio pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida a condição de Padroeira do Brasil.
A informação, porém, não correspondia a uma declaração do candidato.
Flávio diz que é fake news
Diante da repercussão, Flávio publicou um vídeo em que negou qualquer intenção de retirar o título da santa e classificou o conteúdo como “fake news do PT”. Postagens haviam usado um trecho de um telejornal para associar o candidato à suposta medida.
“Não existe esse projeto”, afirmou Flávio, que também declarou respeitar todas as religiões e pessoas sem religião.
O TSE (Tribunal Superior Eleitoral), após desavenças entre magistrados, decidiu manter a remoção de postagens nas redes sociais que vinculam Flávio a propostas ou intenções de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
Projeto foi apresentado em 2007
A origem de parte da informação que voltou a circular nas redes está em um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado federal Victório Galli (MT).
O Projeto de Lei 2.623/2007 propunha alterar a legislação para substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. A proposta não era de Flávio Bolsonaro.
O projeto foi rejeitado pela Comissão de Educação e Cultura da Câmara e arquivado em agosto de 2008. Portanto, não está em tramitação. A Câmara já havia esclarecido, em 2018, que informações que atribuíam a proposta a Jair Bolsonaro ou a seus filhos eram falsas.
Galli posteriormente integrou o governo de Jair Bolsonaro como assessor especial da Presidência, em 2019, mas deixou o cargo naquele mesmo ano.
Ataques em Aparecida
A relação entre política, religião e Aparecida não é nova. Em outubro de 2022, durante a Festa de Nossa Senhora Aparecida, grupos de apoiadores do então presidente Jair Bolsonaro protagonizaram episódios de hostilidade no entorno do Santuário Nacional.
Na ocasião, jornalistas foram agredidos e xingados, apoiadores vestidos de vermelho foram cercados dentro do templo e o então arcebispo de Aparecida, dom Orlando Brandes, também foi alvo de ofensas.
Os episódios ocorreram em uma campanha presidencial marcada pela forte polarização entre lulistas e bolsonaristas. Desde então, o Santuário e a CNBB permaneceram no radar de grupos políticos que disputam a interpretação sobre o papel da religião na vida pública.
Agora, quatro anos depois, Aparecida volta ao centro da disputa.