Aparecida, cidade conhecida nacionalmente pela Basílica Nacional, deu uma vitória expressiva a Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno da eleição presidencial. O candidato recebeu 12.371 votos, o equivalente a 58,30% dos votos válidos, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) somou 6.815 votos (32,12%).
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A diferença entre os dois foi de 5.556 votos, ou 26,18 pontos percentuais. Os números consideram a apuração das 86 seções da Zona Eleitoral 0190, totalizadas em 100%.
Ao todo, Aparecida registrou 21.218 votos válidos para presidente, correspondentes a 96,32% dos votos apurados. Foram contabilizados ainda 393 votos em branco (1,78%) e 417 nulos (1,89%).
Tarcísio supera Flávio em Aparecida
Na disputa pelo governo de São Paulo, a vantagem do grupo político de direita foi ainda maior. Tarcísio de Freitas (Republicanos) recebeu 14.365 votos, ou 71,61% dos válidos, contra 5.563 (27,73%) de Fernando Haddad (PT).
O governador teve uma vantagem de 8.802 votos e abriu 43,88 pontos percentuais sobre o adversário. Em números absolutos, Tarcísio também superou Flávio Bolsonaro na cidade.
A eleição estadual teve 20.059 votos válidos (91,06%). Foram 946 votos em branco (4,29%) e 1.023 nulos (4,64%).
O resultado foi comemorado pelo prefeito de Aparecida, Zé Louquinho (PL), em vídeo publicado nas redes sociais. O prefeito destacou a necessidade de eleger representantes alinhados à administração municipal para buscar recursos e investimentos para a cidade.
“Vamos votar para essas pessoas que ajudam a nossa cidade, que estão sempre e que tenham compromisso com a nossa cidade”, afirmou. Segundo ele, Aparecida precisa de investimentos e de representantes no Congresso e nos governos estadual e federal.
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Aparecida no centro da disputa
O resultado eleitoral ganha peso político pelo contexto vivido por Aparecida durante a campanha. A cidade, considerada a capital da fé católica no Brasil, passou a ocupar espaço no debate presidencial justamente em um momento de forte disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro.
A devoção a Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, tornou-se um dos temas mais sensíveis da reta final da campanha depois de declarações de Flávio Bolsonaro, da circulação de informações falsas e de decisões judiciais envolvendo conteúdos publicados nas redes sociais.
Em vídeo divulgado em 24 de agosto, Flávio afirmou que, se eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Em outra declaração, ao justificar a ausência em um debate, disse que queria “debater com quem não acredita em Deus”.
As falas ganharam novos contornos em meio à disputa religiosa e política. Na tradição católica, Nossa Senhora ocupa papel central na devoção dos fiéis e é reconhecida como Padroeira do Brasil.
Posteriormente, começou a circular nas redes sociais uma informação de que Flávio pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. O candidato negou a intenção e classificou o conteúdo como “fake news do PT”.
Projeto não era de Flávio
A origem de parte da informação está em um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado federal Victório Galli (MT). O Projeto de Lei 2.623/2007 propunha substituir na legislação a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.
A proposta não era de Flávio Bolsonaro. O projeto foi rejeitado pela Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados e arquivado em agosto de 2008. Portanto, não está em tramitação.
A própria Câmara já havia esclarecido, em 2018, que informações que atribuíam a proposta a Jair Bolsonaro ou a seus filhos eram falsas.
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Judiciário e CNBB
A controvérsia chegou ao Judiciário a partir de 25 de setembro, com decisões contrárias de ministros como André Mendonça, do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), e Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal).
A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) também entrou no debate depois de Flávio afirmar, sem apresentar provas, que integrantes da entidade teriam ajudado o PT a disseminar a informação sobre a suposta retirada do título de Nossa Senhora Aparecida.
Em nota, a CNBB negou participação na produção, autorização ou divulgação de desinformação eleitoral e afirmou não integrar estruturas político-partidárias nem apoiar partidos ou candidaturas.
“A mentira não se combate com outra mentira”, afirmou a entidade.
Tensão eleitoral
A relação entre política e religião em Aparecida não é nova. Em outubro de 2022, durante a Festa de Nossa Senhora Aparecida, apoiadores do então presidente Jair Bolsonaro protagonizaram episódios de hostilidade no entorno do Santuário Nacional.
Na ocasião, jornalistas foram agredidos e xingados, enquanto apoiadores vestidos de vermelho foram cercados dentro do templo. O então arcebispo de Aparecida, dom Orlando Brandes, também foi alvo de ofensas.
Quatro anos depois, a cidade voltou ao centro da disputa nacional. Desta vez, porém, o nome de Aparecida e a imagem de sua padroeira foram diretamente incorporados ao debate eleitoral entre Lula e Flávio Bolsonaro.
E o resultado das urnas mostrou que, na cidade que se tornou símbolo da fé católica brasileira, o candidato do PL saiu na frente com ampla vantagem no primeiro turno.