Aparecida virou protagonista da eleição presidencial em um momento de disputa acirrada entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). As pesquisas mais recentes mostram empate técnico entre os candidatos.
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Nesse cenário de indefinição, a devoção a Nossa Senhora Aparecida, que marca a região do Vale do Paraíba, passou a ocupar espaço no debate político e religioso.
Uma declaração de Flávio sobre Jesus Cristo, a circulação de uma informação falsa sobre a retirada do título de Padroeira do Brasil e decisões conflitantes no Judiciário transformaram a santa em personagem de uma das principais disputas da reta final da campanha.
Aparecida no centro da eleição
Capital da fé católica no Brasil, Aparecida está localizada em uma região que historicamente ocupa posição simbólica no debate nacional sobre religião e política. O Santuário Nacional, maior templo mariano do mundo, e a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) passaram a ser envolvidos na disputa eleitoral.
A controvérsia ganhou força depois de uma declaração de Flávio Bolsonaro sobre Jesus Cristo. Em vídeo publicado em 24 de agosto, o candidato afirmou que, caso fosse eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.
A fala ganhou novos contornos porque envolve diferentes interpretações dentro do próprio cristianismo. A devoção a Nossa Senhora e seu papel como intercessora fazem parte da tradição católica, enquanto outras denominações cristãs não reconhecem Maria da mesma maneira.
Declaração sobre Jesus
Ao justificar a ausência em um debate da Band, Flávio disse que não participaria porque Lula também não estaria presente. No mesmo vídeo, afirmou que queria “debater com quem não acredita em Deus”.
A declaração voltou ao centro da campanha quando começou a circular nas redes sociais uma informação segundo a qual Flávio pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida a condição de Padroeira do Brasil.
A informação, porém, não correspondia a uma declaração do candidato.
Flávio diz que é fake news
Diante da repercussão, Flávio publicou um vídeo em que negou qualquer intenção de retirar o título da santa e classificou o conteúdo como “fake news do PT”. Postagens haviam usado um trecho de um telejornal para associar o candidato à suposta medida.
“Não existe esse projeto”, afirmou Flávio, que também declarou respeitar todas as religiões e pessoas sem religião.
A campanha passou a avaliar medidas jurídicas contra os responsáveis pela disseminação do conteúdo e a possibilidade de acionar o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Projeto foi apresentado em 2007
A origem de parte da informação que voltou a circular nas redes está em um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado federal Victório Galli (MT).
O Projeto de Lei 2.623/2007 propunha alterar a legislação para substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. A proposta não era de Flávio Bolsonaro.
O projeto foi rejeitado pela Comissão de Educação e Cultura da Câmara e arquivado em agosto de 2008. Portanto, não está em tramitação. A Câmara já havia esclarecido, em 2018, que informações que atribuíam a proposta a Jair Bolsonaro ou a seus filhos eram falsas.
Galli posteriormente integrou o governo de Jair Bolsonaro como assessor especial da Presidência, em 2019, mas deixou o cargo naquele mesmo ano.
TSE manda retirar publicações
Na sexta-feira (25), o ministro André Mendonça, do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), determinou a retirada de publicações que relacionavam Flávio Bolsonaro ou integrantes de sua família à suposta intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
A decisão alcançou conteúdos no X, Facebook, Instagram, TikTok e YouTube, incluindo novas reproduções da informação. Mendonça classificou como “notoriamente inverídica” a afirmação de que Flávio ou sua família teriam proposto, apoiado ou planejado a retirada do título.
A decisão ainda seria submetida à análise do plenário virtual do TSE.
Dino derruba decisão de Mendonça
Dois dias depois, o ministro Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal), anulou a decisão de Mendonça e liberou publicações relacionadas à lei que reconheceu Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil.
A ordem de Dino foi dada em um pedido apresentado pelo humorista Antônio Tabet, que recorreu contra a decisão de Mendonça tomada no TSE.
Na publicação, Tabet não cita o nome de Flávio. A publicação dizia o seguinte: "A família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida".
Dino afirmou que os conteúdos analisados não apresentavam grau suficiente de certeza para justificar consequências consideradas duras contra a liberdade de expressão e, em última análise, contra a liberdade religiosa.
Segundo o ministro, candidatos e apoiadores podem se posicionar contra determinadas convicções religiosas, mas não podem impedir que essas posições sejam informadas e debatidas publicamente.
Dino entendeu que a medida de Mendonça violava a liberdade de expressão e a liberdade religiosa e cassou o despacho do colega dado no âmbito do TSE.
CNBB reage às acusações
A CNBB também entrou no debate depois de Flávio afirmar, sem apresentar provas, que integrantes da entidade teriam ajudado o PT a disseminar a informação sobre a suposta retirada do título de Nossa Senhora Aparecida.
Em nota, a entidade negou participação na produção, autorização ou divulgação de desinformação eleitoral e afirmou não integrar estruturas político-partidárias nem apoiar partidos ou candidaturas.
“A mentira não se combate com outra mentira”, afirmou a CNBB. A instituição disse ainda que suas manifestações no período eleitoral são orientadas por princípios como dignidade humana, bem comum, democracia e liberdade de consciência.
Lula reage à polêmica
Lula também se manifestou sobre o caso em entrevista à BandNews no domingo (27). O presidente afirmou que mexer com Nossa Senhora Aparecida “não é aceitável” e disse que a santa continuará sendo a Padroeira do Brasil.
Na entrevista, Lula também fez referência ao episódio conhecido como “chute na santa”, ocorrido em 1995, quando um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus chutou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante um programa de televisão.
A declaração ocorreu enquanto a polêmica sobre as publicações envolvendo Flávio e a santa ganhava força nas redes sociais.
Religião ganha peso na reta final
A disputa em torno de Nossa Senhora Aparecida ocorre às vésperas de 12 de outubro, data dedicada à Padroeira do Brasil, e em um momento em que religião e política ocupam espaço central na campanha presidencial.
A cidade de Aparecida concentra milhões de fiéis ao longo do ano e possui forte peso simbólico no cenário nacional. O Santuário Nacional também já foi palco de diferentes manifestações políticas e de conflitos entre grupos religiosos e políticos.
A proximidade do primeiro turno aumenta a importância eleitoral do tema. Enquanto Flávio mantém forte identificação com o eleitorado evangélico, Lula tenta dialogar com diferentes segmentos religiosos e tem evitado transformar uma eventual visita ao Santuário em ato de campanha.
Ataques em Aparecida
A relação entre política, religião e Aparecida não é nova. Em outubro de 2022, durante a Festa de Nossa Senhora Aparecida, grupos de apoiadores do então presidente Jair Bolsonaro protagonizaram episódios de hostilidade no entorno do Santuário Nacional.
Na ocasião, jornalistas foram agredidos e xingados, apoiadores vestidos de vermelho foram cercados dentro do templo e o então arcebispo de Aparecida, dom Orlando Brandes, também foi alvo de ofensas.
Os episódios ocorreram em uma campanha presidencial marcada pela forte polarização entre lulistas e bolsonaristas. Desde então, o Santuário e a CNBB permaneceram no radar de grupos políticos que disputam a interpretação sobre o papel da religião na vida pública.
Agora, quatro anos depois, Aparecida volta ao centro da disputa. A diferença é que, desta vez, a cidade e a imagem da Padroeira do Brasil passaram a ocupar diretamente o debate entre os dois principais candidatos em uma eleição ainda aberta, com pesquisas recentes apontando empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro.