A trajetória da professora Célia Maria Cassiano, de 67 anos, ganhou contornos de profunda reflexão sobre dignidade, autonomia e limites da medicina. A educadora, que morava em Campinas, morreu na quarta-feira (15), na Suíça, após optar por um procedimento de morte assistida, prática permitida no país europeu, mas proibida no Brasil.
- Clique aqui para fazer parte da comunidade da Sampi Campinas no WhatsApp e receber notícias em primeira mão.
Em uma postagem de despedida nas redes sociais, Célia agradeceu a vida e explicou a decisão. “Tive uma vida digna e lutei pelo meu direito à morte digna”, afirmou.
Mestre em Multimeios pela Unicamp e formada em Ciências Sociais, Célia construiu uma carreira ligada à educação e às artes. Nos últimos anos, no entanto, sua rotina foi atravessada por um diagnóstico que alterou completamente seu cotidiano: uma doença neurodegenerativa incurável, responsável por comprometer progressivamente os movimentos do corpo, sem afetar a consciência.
A deterioração física, associada à preservação da lucidez, tornou-se o ponto central de sua decisão. “Eu não aguentaria ficar nem um dia a mais, porque eu estou sofrendo. Hoje eu preciso de três pessoas para me levarem no banheiro. Uma me levanta, uma tira minha roupa, outra me ajuda a sentar. Então, eu estou no meu limite da minha dignidade. Eu vivi uma vida deliciosa”, disse Célia em vídeo.
A perda de autonomia e a decisão
Com a evolução da doença, a professora passou a conviver com limitações cada vez mais severas, que impactaram diretamente sua independência. Em relatos públicos, descreveu o avanço do quadro e o impacto nas atividades mais simples do dia a dia, que passaram a exigir apoio constante.
Nos meses que antecederam a viagem, Célia organizou documentos, avaliações médicas e exigências legais para viabilizar o procedimento fora do país. O processo, complexo e rigoroso, envolveu análises clínicas e psiquiátricas independentes, além da comprovação de consentimento livre e consciente.
O procedimento e a legalidade
Na Suíça, onde o modelo de morte assistida permite a autoadministração da substância, a professora seguiu todos os protocolos exigidos. O procedimento ocorreu de forma controlada, com acompanhamento institucional e posterior verificação das autoridades locais, que confirmaram a regularidade do caso.
O país europeu é um dos poucos que autorizam esse tipo de prática, inclusive para estrangeiros, desde que cumpridos critérios médicos e legais rigorosos.
A decisão de Célia reacende um debate sensível no Brasil, onde não há autorização legal para morte assistida ou eutanásia. No país, a legislação permite apenas a ortotanásia — quando se evita o prolongamento artificial da vida em situações irreversíveis.
“Lutem por esse direito no Brasil. Quem nunca passou pelo que eu estou passando, não imagina o que é você precisar e se sentir totalmente incapaz. Eu gritava, pedia por ajuda e ninguém me ouvia”, afirmou.
Uma trajetória marcada pela educação
Além da carreira acadêmica, Célia manteve presença ativa nas redes sociais após o diagnóstico, onde compartilhou reflexões sobre a doença, o corpo e a autonomia. Seus relatos trouxeram visibilidade a uma condição pouco discutida e ampliaram o debate sobre qualidade de vida em situações extremas.