IDEIAS

Tempestade Solar e o tal apocalipse da internet

Antes mesmo da primeira corrida espacial na década de 60, o clima espacial tem sido objeto de estudo

Por Cláudia Medeiros e Deborah Ciriaco | 13/12/2023 | Tempo de leitura: 5 min

NASA's Scientific Visualization Studio

No final do mês de novembro de 2023 circulou no Brasil, uma matéria com tom alarmista, sobre o risco de ficarmos sem internet por meses, devido às atividades solares, o que foi chamado de “apocalipse da internet”. Essa matéria teve como referência uma entrevista com um pesquisador Peter Becker, da Universidade George Mason que, durante sua entrevista, explicava os motivos pelos quais o governo deveria investir no estudo do clima espacial como estratégia para prevenção de problemas, como por exemplo, na comunicação via satélite.

Antes mesmo da primeira corrida espacial na década de 60, o clima espacial tem sido objeto de estudo. Diversas observações do Sol, suas manchas solares, as alterações nas medidas de campo geomagnético em solo, além das auroras foram relatadas desde a invenção do telescópio e compõem uma série de registros históricos que nos permitiram entender como o Sol pode, não apenas influenciar no aquecimento do nosso planeta, mas também nos sistemas eletrônicos e magnéticos que temos em solo.

Graças a esses registros, foi possível correlacionar, por exemplo, o número de manchas solares com a atividade Solar e o ciclo Solar, visto que eventos com essa periodicidade levam anos para mostrar seus padrões. Desde que esses registros começaram a ser catalogados, 24 ciclos Solares completos já foram identificados, sendo que atualmente estamos no ciclo que seria o ciclo 25. De acordo com modelos numéricos e projeções, é previsto que este ciclo 25, no qual nos encontramos, tenha o seu pico no ano de 2025. Mas o que seria o pico do ciclo Solar?

O ciclo Solar é contabilizado de acordo com o número de manchas solares observadas no disco Solar. Todos os dias, um grupo de pesquisadores registra o número de manchas solares, sua evolução, e sua posição no disco solar. Esses registros demonstram que as manchas solares no início do ciclo estão mais afastadas do equador do Sol e ao longo do tempo, vão aumentando em frequência e se aproximando da região do equador solar até que desaparecem reiniciando o ciclo novamente em regiões afastadas do equador. Quanto maior for a quantidade de manchas solares existentes e quanto mais próximas do equador Solar, maior é a probabilidade de ocorrer eventos de tempestade Solar nessas regiões. Por consequência, o aumento da atividade Solar influencia a capacidade destas atividades atingirem o ambiente próximo à Terra.

As observações recentes mostram que estamos na crescente desse ciclo solar (ciclo 25), pois o número de manchas tem aumentado e consequentemente, o número de tempestades solares observadas. Mas por que isso nos preocupa tanto, se estes eventos já vêm acontecendo há centenas de anos? Porque desde que utilizamos equipamentos eletrônicos, nos comunicamos por ondas de radio e colocamos objetos no espaço, conseguimos observar que essas tempestades que atingem a Terra sofrem efeitos da interação Sol-Terra.

O evento mais antigo e mais bem documentado na história que mostra esse efeito foi o evento Carrington, em 1859. Ele recebeu esse nome em homenagem a Richard Carrington, que observou um flare solar ao mesmo tempo que outro observatório em Londres, o Key Observatory, também registrou a perturbação do campo magnético medido em solo. Após cerca de 18 horas, auroras foram registradas na região de Porto Rico, algo que nunca tinha sido visto antes. Nessa época ainda não tínhamos satélites e nem internet. Nossas comunicações a longa distância eram feitas por telégrafos que usavam cabos metálicos interligados a longas distâncias que transportavam a mensagem de um ponto a outro. Como nosso planeta está imerso no campo geomagnético, os telégrafos também estão expostos a esse campo magnético. Esse evento observado no Sol afetou o campo magnético na Terra e consequentemente induziu corrente nesses cabos de longa distância, e que causou danos nessas linhas de transmissão.

Se naquele tempo em que nossa comunicação era tão rústica com relação as de hoje em dia, houve danos significativos, então o “apocalipse da internet” é algo real? Não é bem assim e vou te explicar o porquê.

A tecnologia evoluiu assim como as pesquisas no setor. Hoje temos uma dependência cada vez maior de satélites em órbita e de tecnologias dependentes de energia com linhas de transmissão de longa distância, internet via satélite e a cabo, controles de navegação, comunicação de radio frequências, além de dutos de óleo entre outros que são sistemas que, a priori, poderiam sofrer impactos em caso de tempestades solares dessa magnitude. Esse é o motivo pelo qual pesquisas como essa precisam existir, tanto pelos motivos científicos quanto pelos motivos sociais de seus impactos. No entanto, não existe necessidade de alarme, ao menos não da forma como isso acabou gerando na sociedade.

O fato de termos adquirido esse conhecimento ao longo dos anos tem conduzido a forma como construímos nossos sistemas. Um satélite, ao ser colocado em órbita, leva consigo blindagens e sistemas de redundância para mitigar efeitos das tempestades solares. Sistemas de navegação funcionam em constelações onde um satélite tem capacidade de substituir outro em caso de mal funcionamento. Redes de transmissão elétrica não costumam ter dependência de apenas um ponto, podendo ser comutados para outros pontos de distribuição, entre outras medidas que fazem parte das proteções no caso de ocorrência desses fenômenos solares.

Isso tudo é o suficiente? Precisamos continuar pesquisando e estudando. Por isso é preciso o investimento nesse setor. O clima espacial tem investido em previsão pois identificando com antecedência a ocorrência da tempestade, quando ela se origina no Sol, pode nos dar uma vantagem de prevenir os efeitos negativos causados por ela. Além disso, tecnologias podem e devem continuar evoluindo para que cada vez mais possamos avançar dentro do ambiente ao qual estamos inseridos que inclui o Sol e seus processos naturais. O nosso objetivo, além das pesquisas nas quais contribuímos para melhorar o entendimento da relação entre o Sol e a Terra, é comunicar isso ao público em geral.

Espero que tenha ajudado na compreensão desse tema e pretendo continuar trazendo mais conteúdo sobre o assunto, visto que neste texto não me aprofundei nos assuntos específicos da tempestade solar. Convido você a visitar os outros textos desse editorial para conhecer mais sobre o ambiente espacial e sua exploração. Continue nos acompanhando para mais informação.

Quer saber mais sobre o assunto acima? Visite o canal Mais Que Raios no Youtube e Spotify e @maisqueraios no Instagram. Um agradecimento especial ao jornal O Vale por nos apoiar para que esse conteúdo chegue a mais pessoas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do SAMPI

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