Neste domingo, o Brasil tomará algumas das decisões políticas mais importantes dos próximos anos. Diante da urna, cada eleitor fará seis escolhas: deputado federal, deputado estadual, dois senadores, governador e presidente da República. É uma eleição que definirá os ocupantes do Palácio do Planalto e do Palácio dos Bandeirantes, renovará dois terços do Senado e formará as novas composições da Câmara dos Deputados e das assembleias legislativas.
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É justamente sobre essas duas últimas escolhas que gostaria de fazer uma reflexão. Não sobre nomes. Muito menos sobre partidos, direita, esquerda ou qualquer preferência ideológica. Existe um aspecto que talvez receba menos atenção do que deveria numa eleição proporcional: a representação territorial.
Campinas chega a esta eleição com 870.672 pessoas aptas a votar. É o terceiro maior colégio eleitoral do Estado de São Paulo, atrás apenas da capital e de Guarulhos. Nenhuma outra cidade do interior paulista possui tantos eleitores. Não estamos falando, portanto, de um município qualquer tentando conquistar espaço político. Estamos falando de uma metrópole com peso econômico, populacional, científico e regional que precisa ter suas demandas presentes também onde são tomadas decisões estaduais e federais.
Isso não significa que o endereço do candidato deva ser o único critério para o voto. Um candidato ser de Campinas não o torna automaticamente preparado, competente ou merecedor de uma cadeira. Da mesma maneira, alguém de outra cidade pode perfeitamente apresentar propostas com as quais o eleitor campineiro se identifique. O voto é pessoal, secreto e pertence exclusivamente a quem está diante da urna.
Mas conhecer a relação do candidato com a região é um critério legítimo nessa escolha.
Deputados federais representam a população de seus estados, assim como deputados estaduais exercem mandato de abrangência estadual. Formalmente, não existem deputados de Campinas, Ribeirão Preto, Santos ou Sorocaba. Politicamente, porém, a origem e as bases eleitorais importam. São elas que frequentemente aproximam um parlamentar dos problemas concretos de determinada região e ajudam a colocar determinadas demandas na agenda institucional.
Campinas sabe bem quantas dessas demandas dependem de decisões tomadas longe do Paço Municipal.
Mobilidade regional, saúde, segurança, habitação, infraestrutura, rodovias, universidades, hospitais, recursos para entidades e municípios, projetos metropolitanos e investimentos estaduais e federais passam, em diferentes níveis, por São Paulo e Brasília. Deputados não executam diretamente boa parte dessas políticas, mas legislam, fiscalizam, articulam, apresentam emendas e participam das discussões orçamentárias que influenciam onde o dinheiro público será aplicado.
É aí que a representação regional ganha importância.
O eleitor muitas vezes chega à disputa proporcional depois de acompanhar durante meses as campanhas para presidente e governador. Na hora de escolher deputado, aparece a tentação de recorrer simplesmente ao nome famoso visto na televisão, nas redes sociais ou numa campanha de alcance estadual. Não há nada ilegítimo nisso. Mas vale uma pergunta antes de confirmar: qual é a relação desse candidato com a realidade que eu conheço?
Ele conhece os problemas de Campinas e da Região Metropolitana? Possui atuação por aqui? Tem histórico relacionado às demandas locais? Apresentou propostas para a região? Mantém vínculos políticos, profissionais ou comunitários capazes de aproximá-lo desses assuntos?
São perguntas que podem entrar na avaliação ao lado de tantas outras: trajetória, propostas, comportamento público, partido, experiência e coerência.
Porque representatividade regional não deve substituir o voto consciente. Pode fazer parte dele.
E Campinas possui tamanho suficiente para discutir seriamente essa questão.
São mais de 870 mil eleitores. Um contingente superior ao de inúmeras cidades importantes do país e suficiente para colocar Campinas como terceiro maior colégio eleitoral paulista. Ainda assim, tamanho eleitoral não se transforma automaticamente em influência política. Os votos são distribuídos entre dezenas de candidaturas, partidos e regiões, dentro de um sistema proporcional em que também pesam os resultados das legendas e federações.
Por isso, depois da apuração, haverá uma pergunta importante para Campinas: qual será o tamanho da representação política efetivamente ligada à cidade na Assembleia Legislativa e no Congresso Nacional?
Não se trata de bairrismo.
Campinas integra uma região metropolitana cujos problemas ultrapassam fronteiras municipais. Transporte, saneamento, saúde, segurança, desenvolvimento econômico e infraestrutura frequentemente exigem soluções regionais. Quanto maior a presença de parlamentares familiarizados com essa realidade, maior tende a ser a capacidade da região de colocar essas questões no debate político estadual e federal.
Ter representantes próximos não garante solução. Seria ingenuidade afirmar isso. Uma bancada regional numerosa pode produzir pouco, assim como um parlamentar de outra região pode trabalhar por Campinas. Representação territorial é apenas uma parte da qualidade da representação política.
Mas ausência de interlocução também cobra seu preço.
Por isso, entre tantas informações que o eleitor avaliará antes de digitar quatro números para deputado federal e cinco para deputado estadual, vale conhecer também de onde vêm esses candidatos, quais regiões representam politicamente e que relação construíram com elas.
Neste domingo, cada campineiro fará suas escolhas de acordo com suas próprias convicções. Assim deve ser.
Depois, quando os votos forem contados, Campinas descobrirá não apenas quem venceu ou perdeu as eleições.
Descobrirá também qual será a voz que uma cidade de 870 mil eleitores terá em São Paulo e Brasília pelos próximos quatro anos.
Para o maior colégio eleitoral do interior paulista, essa não é uma questão pequena.
É também uma questão de representação.
Uma eleição triste chega ao dia decisivo

Agência Brasil
Chegamos ao fim do primeiro turno de uma das campanhas presidenciais mais tristes que acompanhei. Falou-se demais durante esta eleição e discutiu-se de menos aquilo que realmente deveria importar: o Brasil dos próximos quatro anos.
Novamente chegamos polarizados. Lula e Flávio Bolsonaro concentraram a maior parte das atenções, reproduzindo uma divisão política que o país conhece muito bem. E os dois carregam trajetórias, controvérsias e rejeições capazes de alimentar uma campanha muito mais baseada na resistência ao adversário do que no entusiasmo genuíno por um projeto. Fora das militâncias mais apaixonadas, é razoável perceber uma parcela do eleitorado diante de uma escolha feita também por exclusão, medo ou rejeição ao outro campo — embora, naturalmente, milhões de brasileiros apoiem convictamente cada candidatura.
O mais frustrante foi aquilo que praticamente desapareceu da campanha: propostas consistentes. Houve promessas, anúncios e programas, claro. Mas o debate público foi dominado por acusações, episódios laterais, provocações e guerras nas redes sociais. Questões fundamentais — economia, contas públicas, saúde, educação, segurança, infraestrutura e produtividade — frequentemente perderam espaço para a próxima polêmica do dia. Uma eleição para decidir o futuro do país terminou discutindo muito mais os personagens do que os projetos que eles pretendem executar.
E chegamos às últimas horas com um ingrediente institucional ainda mais preocupante. O debate da TV Globo, tradicionalmente o último grande confronto entre presidenciáveis antes da votação, acabou cancelado depois de uma sequência extraordinária de decisões judiciais tomadas poucas horas antes do programa. O TSE proibiu a emissora de mostrar o púlpito vazio de Lula, que decidira não comparecer, e também impediu perguntas direcionadas ao candidato ausente. Pouco depois, Gilmar Mendes, do STF, determinou a participação de Renan Santos, apesar de pedidos anteriores pela presença do candidato terem sido rejeitados. Flávio Bolsonaro então anunciou que também não compareceria e a Globo cancelou o programa, afirmando que as decisões produziram insegurança jurídica e interferiram nas regras previamente estabelecidas.
Pode-se concordar juridicamente com uma decisão e discordar de outra. Pode-se discutir se a regra estabelecida pela Globo era adequada, mas havia sido aceita, assinada e registrada por todas as partes, inclusiva a Justiça Eleitoral. O problema institucional está na imagem produzida por decisões individuais, sucessivas e de última hora alterando regras de um debate presidencial quando os candidatos praticamente já estavam a caminho dos estúdios. Democracia depende de regras previsíveis. Quando elas parecem mudar no decorrer da partida, é natural que cresçam a desconfiança e a percepção de que o jogo institucional não funciona da mesma maneira para todos em busca de favorecimento. O que para muito analista ficou mais do que claro.
Talvez seja justamente isso que mais tenha faltado nesta campanha: serenidade. Dos candidatos, das militâncias e, em vários momentos, das próprias instituições. A chamada “defesa da democracia” não pode pertencer a um campo político nem funcionar como argumento que encerra qualquer discussão. Democracia é também aceitar crítica, garantir pluralidade, respeitar regras previamente conhecidas e reconhecer que nenhuma instituição — Executivo, Legislativo ou Judiciário — está acima do escrutínio público. Quando alguém pretende estabelecer sozinho qual é a democracia que os demais são obrigados a aceitar, começa a se afastar do próprio conceito que diz proteger.
Neste domingo, a palavra finalmente sairá das campanhas, das redes sociais, dos tribunais e dos institutos de pesquisa para voltar as mãos do eleitor. Que cada brasileiro faça sua escolha livremente e que, depois de uma campanha tão pobre em proposições e tão rica em conflitos, as urnas sejam respeitadas por todos — vencedores e derrotados.
Talvez esse seja o mínimo necessário para começarmos a recuperar aquilo que esta eleição desgastou tanto: a confiança no próprio jogo democrático.
- Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br