'QUEM AMA CUIDA'

Vingança, como de Adriana, pode causar mais dor do que satisfação

Por Luiza Souto | da Folhapress
| Tempo de leitura: 5 min
Reprodução/TV Globo
Adriana, vivida por Letícia Colin
Adriana, vivida por Letícia Colin

Na novela "Quem Ama Cuida", da Globo, Adriana, vivida por Letícia Colin, ficou seis anos presa por um crime que não cometeu. Foi tempo suficiente para planejar uma vingança que vem colocando em prática desde que conseguiu a liberdade condicional.

Enquanto a ficção promete a redenção e a catarse com a queda dos vilões, a ciência, a filosofia e a psicanálise alertam que, na vida real, a dedicação obsessiva a um plano de revanche mantém a ferida emocional aberta, bloqueia a superação do trauma e atinge até quem não tinha relação com a injustiça.

O filósofo e professor Renato Noguera diz que sentir raiva diante de uma injustiça grave é uma reação humana natural e compreensível. Mas quando isso toma proporções que paralisam a própria vida passa a causar mais dor do que satisfação.

Autor do recém-lançado "Medo e raiva: O que os mitos e as filosofias revelam sobre nossos afetos sombrios" (HarperCollins), Noguera afirma que buscar justiça é reconhecer o que aconteceu, responsabilizar quem causou o dano e trabalhar por alguma forma de reparação.

O problema, aponta, é quando a resposta à injustiça passa a organizar toda a vida de alguém, fazendo com que todas suas ações fiquem reféns do desejo de causar dano ao agressor. "Uma espécie de obsessão", ele diz.

Para a psicanalista e escritora Maria Homem, a vingança opera, na prática, como um mecanismo de fuga da própria dor.

Em vez de elaborar as perdas reais, como o amor, o casamento, a estabilidade ou a própria vida desestruturada, a pessoa foca o outro. A rotina, os horários, as fraquezas e os passos do algoz passam a estruturar o cotidiano do vingador, conferindo-lhe uma falsa sensação de propósito e tarefa. Abandonar esse plano significaria deparar-se com o vazio e com o sofrimento genuíno da perda.

"O que a novela está mostrando é que eu permaneço com a minha dor, o meu sentimento, com a minha angústia. Eu não me livro dela. Eu vou ficar nos próximos, dias, meses, anos, décadas, só fazendo o quê?".

Amparado na filosofia dos afetos de Baruch Espinoza (1632-1677), Noguera alerta ainda que o prazer momentâneo com a execução do plano de vingança não restitui o que foi perdido com a injustiça. "A dor do outro não pode ser fiadora permanente da nossa alegria. A fonte da alegria faz parte de outro registro existencial."

*Ativação no cérebro e o mito do prato que se come frio*

A ciência revela que a busca por vingança se comporta de maneira análoga a um vício. Pesquisa da Escola de Medicina de Yale, de 2025, demonstra que a percepção de ter sofrido uma humilhação ou injustiça ativa a rede primária de dor no cérebro, especialmente o córtex insular anterior, fazendo com que o indivíduo literalmente "sinta na pele" o sofrimento social.

Para restaurar o equilíbrio, o cérebro recorre a um mecanismo evolutivo: a simples imaginação de infligir dor de volta ao agressor aciona os circuitos de prazer, recompensa e dopamina.

James Kimmel, professor de psiquiatria, fundador do Centro de Estudos de Controle de Motivação de Yale e autor do livro "The Science of Revenge" (A Ciência da Vingança, em português), explica que a ativação do desejo de revanche estimula uma neurocircuitaria de prazer e fissura idêntica à observada na dependência química de substâncias.

Quando a pessoa fica no ressentimento, essa compulsão paralisa a capacidade de focar o presente e seguir em frente. Para quebrar esse ciclo, a neurociência aponta ser necessária a reativação do córtex pré-frontal executivo, região responsável pelo autocontrole, pela tomada de decisão e pela avaliação das consequências de longo prazo.

Do ponto de vista do comportamento social, embora o imaginário popular associe a vingança a um prato que se come frio, um estudo da Virginia Commonwealth University, de 2021, realizado com 1.500 voluntários, revelou que 58% das pessoas preferem a retaliação imediata por impulso, movidas pelo desejo urgente de dar uma lição rápida ao oponente. Para o professor David Chester, o cálculo frio, lento e metódico da revanche costuma surgir apenas diante de provocações e ofensas graves que geram rancor acumulado.

*O luto necessário para seguir em frente*

Historicamente, o Estado e a Justiça mediada foram criados para que se pudesse delegar a punição e acabar com a violência pessoal. Mas quando há uma crise de confiança nessas instituições, atenta Maria Homem, as pessoas tendem a retornar a uma lógica de vingança individual e a códigos primitivos de reparação, como a lei do "olho por olho".

Para romper com essa dinâmica e seguir em frente, indica a especialista, é preciso passar por duas camadas distintas de luto: desapegar-se do que foi perdido, aceitando a realidade da perda de algo positivo ou idealizado, e também do agressor, abandonando a posição de vítima.

"Às vezes, o ódio contra o mal e a vontade de vingança vêm como uma estratégia porque eu não estou conseguindo fazer nenhum desses dois lutos", reflete.

Ela fala ainda em empatia, mas questiona se a cultura atual, marcada por um narcisismo estrutural e uma "perversão generalizada", ainda é capaz de olhar o outro ou se prioriza o ego em detrimento do coletivo.

"Isso ultrapassa a novela e mostra também a crise sobre as nossas relações pessoais. Todas as esferas relacionais estão em crise, com a gente mesmo, o amor, o erotismo, a sexualidade, as relações de amizade, de trabalho, as comunidades", ela enumera.

"Me pergunto qual será a instância de transformação das novas formas de sociabilidade para o século 21 e além, pós-inteligência artificial. Como eu escrevi no 'Procura-se' (Record), há de se inventar um novo paradigma que seja minimamente, que construa a possibilidade da gente estar num mundo respirável, porque está difícil".

Na mesma direção, Noguera propõe dar nome à dor e à raiva, sem vergonha e sem transformá-las em ordens de comando, e indica acolher esses afetos como hóspedes que trazem mensagens urgentes. "Escutá-los é perguntar: 'o que foi violado? Do que preciso para me proteger? Que reparação posso buscar? Que vida ainda quero viver?'", ensina.

"A ferida merece cuidado, e a injustiça exige resposta. Mas quem foi ferido também merece uma vida que não tenha a injustiça como sua única roteirista", diz Noguera.

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