A longa e acidentada novela da licitação do transporte público de Campinas encerrou oficialmente mais um capítulo nesta sexta-feira (18). A Prefeitura formalizou a anulação dos atos da concorrência praticados a partir da publicação do edital e colocou definitivamente uma pedra sobre o leilão realizado em 5 de março na B3. Sancetur e Consórcio Grande Campinas não são mais vencedores de coisa alguma. O placar voltou a zero. Agora começa outra corrida, e desta vez o adversário mais imediato da administração municipal é o calendário.
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A Prefeitura trabalha com duas datas. Pretende republicar o edital na primeira quinzena de outubro e voltar à B3 em dezembro. É importante destacar que não estamos diante de uma reconstrução completa da concessão. A decisão do Tribunal de Contas preservou conteúdo, planilhas e elementos técnicos da modelagem que continuarem válidos, permitindo seu reaproveitamento. A administração também informa que suas equipes já trabalham desde a decisão do TCE nas providências necessárias para a republicação. Portanto, dezembro não é uma data retirada da cartola.
Ainda assim, acho um cronograma bastante apertado. Basta fazer uma conta simples. Se o novo edital sair efetivamente na primeira metade de outubro, começa a correr um prazo que desta vez não poderá ser atropelado: os 35 dias úteis para apresentação das propostas. Foi justamente a redução desse intervalo na disputa anterior que ajudou a colocar Campinas na situação atual. A Prefeitura havia deslocado a entrega das propostas e concedido um intervalo menor; o TCE entendeu que deveria ter sido restabelecido integralmente o prazo de 35 dias úteis.
Depois de tudo o que aconteceu, seria inconcebível cometer novamente um erro elementar de prazo.
Mas o relógio não corre apenas por causa desses 35 dias. Estamos falando de uma concessão bilionária, por 15 anos, envolvendo dois grandes lotes de operação, ônibus convencionais, PAI, terminais, estações do BRT, bilhetagem, gerenciamento e monitoramento operacional. O edital precisará retornar ao mercado com números atualizados, e a própria Prefeitura reconhece que está recalculando valores de diesel, mão de obra, peças, tecnologias e manutenção dos terminais, já que os preços utilizados na modelagem possuem validade limitada.
Tudo isso acontece no quarto trimestre. E quem acompanha minimamente o funcionamento da administração pública sabe que outubro, novembro e dezembro não formam exatamente o período mais confortável do calendário para conduzir um processo dessa complexidade. Há encerramento de exercício, feriados, recessos, compromissos administrativos acumulados e, neste 2026, ainda o componente eleitoral atravessando outubro. Nada disso impede juridicamente a realização do leilão. Mas tudo comprime o espaço disponível para reagir a qualquer imprevisto.
E imprevistos não têm sido exatamente raros nesta licitação. A concessão do transporte de Campinas possui uma história suficientemente longa para recomendar prudência com qualquer calendário otimista. Já houve tentativa sem interessados, reformulações, questionamentos, impugnações, intervenções do Tribunal de Contas e finalmente um leilão realizado com pompa na B3 que, seis meses depois, precisou ser formalmente apagado. Se existe uma lição que esse processo deveria nos ensinar é que data estimada não pode ser confundida com data garantida.
Por isso, minha impressão hoje é que o começo de 2027 parece uma janela mais realista para uma nova disputa. É uma avaliação, evidentemente, e não uma informação. A Prefeitura oficialmente trabalha com dezembro e pode conseguir cumprir esse cronograma. Aliás, espero que consiga. O transporte coletivo de Campinas não precisa de mais meses de espera, principalmente quando o sistema atual acumula problemas e a cidade discute sua renovação há tantos anos. Se o município conseguir republicar um edital juridicamente sólido em outubro, cumprir integralmente os prazos, superar eventuais questionamentos e chegar à B3 ainda em dezembro, melhor para todos.
Meu otimismo, porém, vem acompanhado de uma dose considerável de ceticismo. Existe também uma razão para não transformar dezembro numa obsessão. Depois do constrangimento provocado pela anulação do primeiro leilão, cumprir uma promessa de calendário é muito menos importante do que entregar um processo juridicamente seguro. Se houver necessidade de algumas semanas adicionais para corrigir um documento, responder adequadamente a uma impugnação ou eliminar qualquer risco relevante, que o leilão fique para janeiro ou fevereiro.
Seria infinitamente melhor explicar um adiamento técnico do que voltar à B3 às pressas e descobrir meses depois que será necessário apertar novamente o botão de reset.
Esse é talvez o maior perigo do calendário anunciado. A administração naturalmente quer demonstrar capacidade de reação. O leilão de março foi tratado como um marco para solucionar uma das maiores dívidas administrativas de Campinas. Sua anulação pelo TCE representou um desgaste enorme para o governo Dário Saadi. Mostrar que o processo consegue retornar à B3 ainda em 2026 teria evidente valor administrativo e político.
Mas uma licitação de bilhões de reais e 15 anos de duração não pode ser organizada para salvar um calendário político. Precisa ser organizada para sobreviver aos controles administrativos, jurídicos e técnicos que inevitavelmente virão.
A formalização desta sexta-feira ao menos produz uma mudança importante. Até agora, Campinas ainda precisava concluir juridicamente a desmontagem do leilão anterior. Isso aconteceu. O passado está oficialmente cancelado e o caminho para a republicação foi aberto. A Prefeitura pode reaproveitar a fase preparatória compatível com as determinações do Tribunal e agora precisa colocar no mercado uma versão corrigida e atualizada da concorrência.
Começa, portanto, mais uma tentativa. Que o edital saia em outubro. Que o leilão aconteça em dezembro. Que finalmente dê certo.
Mas, depois de tudo o que já vimos nessa licitação, talvez seja prudente deixar janeiro e fevereiro livres na agenda. E, acima de qualquer discussão sobre datas, uma recomendação deveria estar escrita em letras garrafais na primeira página do novo processo: pelo amor de Deus, desta vez sem falhas.
Não basta preservar, é preciso proteger

Reprodução
Existem lugares que deixam de ser apenas estabelecimentos comerciais para se transformar em pedaços da cidade. A Banca do Alemão é um desses lugares. Há cerca de 75 anos no Centro de Campinas, ela viu gerações passarem pelo Largo do Rosário, acompanhou mudanças nos hábitos de consumo, o fechamento de lojas tradicionais, o esvaziamento de partes da região central e a degradação que foi tomando conta de seu entorno. Sobreviveu a tudo isso. Nesta semana, porém, essa resistência sofreu um golpe: pela primeira vez em mais de sete décadas, a banca foi invadida.
Três homens arrombaram uma das portas por volta das 3h30 e levaram dinheiro, cigarros, chaves e outros objetos. O prejuízo foi estimado em cerca de R$ 7 mil. Uma testemunha perseguiu os suspeitos, um deles acabou preso e outros dois conseguiram fugir. A polícia investiga o caso. Há ainda a informação do proprietário de que outra banca próxima havia sido furtada no dia anterior, circunstância que também precisa ser apurada para saber se existe relação entre as ocorrências. Tudo isso pertence à crônica policial. O que me chama atenção, porém, é aquilo que o episódio representa para a crônica urbana de Campinas.
Porque não estamos falando de qualquer endereço.
A Banca do Alemão já havia ocupado o centro de outra discussão neste ano. Entre março e abril, a polêmica envolvendo a possível retirada de dezenas de bancas da região central colocou em debate justamente a permanência dessas estruturas históricas na paisagem da cidade. A controvérsia provocou reação, a retirada acabou suspensa e, naquele contexto, surgiu o instrumento denominado “Lugares de Memória”, concebido para reconhecer estabelecimentos e espaços ligados à história afetiva de Campinas. A própria Banca do Alemão foi escolhida como primeiro caso para análise.
Naquela ocasião, o problema era outro. Discutia-se burocracia, patrimônio, ocupação do espaço público e a necessidade de conciliar regras urbanísticas com estabelecimentos que já fazem parte da identidade do Centro. Meses atrás, portanto, a discussão era como reconhecer e preservar a história da Banca do Alemão. Agora, o desafio é muito mais imediato: garantir condições para que ela continue funcionando.
Há uma ironia amarga nessa sequência. Podemos colocar uma placa contando que aquele endereço faz parte da memória campineira. Podemos registrar sua história nos documentos do patrimônio cultural. Podemos celebrar seus 75 anos e lembrar quantas gerações compraram jornais, revistas e tantas outras coisas naquele balcão. Tudo isso tem valor. Mas memória urbana não se preserva apenas homenageando aquilo que sobreviveu. Preserva-se também permitindo que continue sobrevivendo.
E aí chegamos ao problema muito maior chamado Centro de Campinas. Empreender no Centro tornou-se quase um ato de resistência. Quem ainda mantém as portas abertas precisa enfrentar mudanças profundas no fluxo de consumidores, imóveis vazios, deterioração de determinados trechos, problemas sociais complexos e uma insegurança que interfere diretamente na decisão de quem pensa em circular, morar, investir ou simplesmente permanecer na região. Não existe solução simples para uma área dessa dimensão, e seria ingenuidade imaginar que um processo construído ao longo de anos possa ser revertido rapidamente ou apenas com policiamento.
Mas segurança é parte indispensável dessa equação. O Centro pode receber programas de revitalização, melhorias de calçadas, recuperação de fachadas, incentivos à habitação, atividades culturais e novos investimentos. Tudo isso importa. Só que política de revitalização só produz resultado quando o cidadão percebe seus efeitos no cotidiano. Uma região não se recupera verdadeiramente se o comerciante tem receio de abrir, o consumidor evita circular, o empresário prefere investir em outro bairro e o morador pensa duas vezes antes de permanecer ali.
Existe uma engrenagem perversa nesse processo. A insegurança ajuda a afastar consumidores e comerciantes; a perda de comércio reduz movimento; ruas menos movimentadas aumentam a percepção de insegurança; e essa percepção afasta ainda mais pessoas e investimentos. Recuperar o Centro significa romper esse círculo.
E isso exige atuação muito mais ampla: segurança, zeladoria, iluminação, limpeza, assistência social, habitação, fiscalização, recuperação dos espaços públicos e incentivo permanente à ocupação. Não basta uma ação isolada. Muito menos uma política que exista apenas nos anúncios oficiais. Revitalização urbana não acontece no PowerPoint. Acontece quando as pessoas voltam a querer estar naquele lugar.
Por isso a história recente da Banca do Alemão é tão representativa. No primeiro semestre, seus responsáveis precisaram acompanhar uma discussão burocrática sobre a permanência das bancas em locais tradicionais. O poder público discutia regras, remoções e preservação. A solução encontrada foi criar um mecanismo de reconhecimento da memória urbana. Agora, alguns meses depois, o comerciante precisa se preocupar com porta arrombada, fechaduras, chaves levadas e prejuízo causado por criminosos.
O Estado costuma ser extremamente presente quando chega a hora de estabelecer regras e cobrar impostos. Precisa demonstrar a mesma capacidade quando chega a hora de garantir condições para que quem cumpre essas regras consiga continuar trabalhando.
Isso não significa responsabilizar exclusivamente a Prefeitura por um furto específico. Segurança pública envolve diferentes instituições e nenhuma administração consegue garantir que um crime jamais ocorrerá. Tampouco uma ocorrência isolada permite concluir, por si só, que toda política adotada para o Centro fracassou. O problema é o contexto no qual essa ocorrência acontece — uma região que há anos luta contra perda de vitalidade, degradação de espaços e uma sensação de insegurança que aparece repetidamente entre as preocupações de quem vive, trabalha ou frequenta o Centro.
A criação dos “Lugares de Memória”, concebida durante a polêmica do primeiro semestre, pode ser um instrumento interessante para reconhecer a importância desses endereços para a identidade campineira. O furto ocorrido agora acrescenta uma ironia amarga à discussão iniciada meses atrás: não basta reconhecer a memória de um estabelecimento histórico; é preciso criar condições para que ele continue vivo.
A Banca do Alemão, um exemplo de tantos outros, precisa agora consertar a porta, trocar fechaduras, reorganizar sua segurança e absorver um prejuízo que não provocou. Seus proprietários provavelmente farão aquilo que comerciantes do Centro aprenderam a fazer há muito tempo: resolver o problema e abrir novamente. Que o prejuízo seja rapidamente superado e que os demais responsáveis pelo crime sejam identificados. Mas Campinas não deveria tratar o episódio simplesmente como mais um boletim de ocorrência.
Uma banca que atravessou aproximadamente 75 anos sem sofrer uma invasão desse tipo não deveria precisar incorporar o arrombamento à rotina de dificuldades de permanecer no Centro. E a cidade também não pode se conformar com a ideia de que manter um negócio aberto no coração de Campinas exija uma espécie de heroísmo empresarial.
O Centro precisa de gente. Precisa de moradores, consumidores, comerciantes, restaurantes, serviços, cultura, lazer e movimento. Precisa fazer com que empresários queiram investir e com que aqueles que ainda resistem tenham motivos para permanecer.
E, antes de qualquer grande conceito de revitalização, precisa oferecer algo bastante elementar: condições mínimas de segurança para quem ainda ousa acreditar naquela região.
Que a Banca do Alemão continue resistindo por muitas décadas. Mas que Campinas consiga mudar o significado dessa palavra.
Resistência é bonita quando serve para contar os 75 anos de história de um patrimônio. Não deveria ser requisito para manter um comércio aberto no coração da cidade.
- Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br