OPINIÃO

O peso de existir em público


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Caro leitor, sair de casa para tomar um sorvete, passear no fim de semana ou simplesmente caminhar em um shopping center deveria ser o mais banal dos atos urbanos. Mas, para quem vive a maternidade atípica, o espaço público é frequentemente um campo minado. O recente episódio de agressão verbal e física sofrido por uma mãe de dois meninos autistas em um centro de compras escancarou, sem pudores, a face mais perversa do nosso analfabetismo social sobre a neurodivergência.

O gatilho para a violência foi uma crise de autorregulação de uma das crianças. Para quem desconhece o Transtorno do Espectro Autista (TEA), a sobrecarga sensorial do ambiente — luzes, ruídos, multidão — pode ser avassaladora, resultando em comportamentos que o olhar destreinado confunde com "birra" ou "falta de educação". A resposta do entorno, em vez de empatia ou mínimo distanciamento, foi o julgamento moral instantâneo, culminando em violência explícita contra uma mulher que tentava acolher os próprios filhos.

 O capacitismo não é um conceito abstrato; ele ganha corpo e punhos quando a sociedade exige a padronização do comportamento alheio para tolerar sua presença. O que essa mãe viveu é o receio diário de milhares de famílias atípicas que, diante da hostilidade iminente, preferem o confinamento doméstico ao risco do constrangimento e da agressão.
 
Há também uma responsabilidade institucional indissociável desse debate. Ambientes privados de uso público, como os shopping centers, não podem se limitar a vender produtos; precisam garantir a segurança de quem circula por seus corredores. Isso passa, inevitavelmente, por segurança treinada, protocolos de acolhimento para crises sensoriais e uma postura firme de tolerância zero à discriminação.

A Lei Berenice Piana e o Estatuto da Pessoa com Deficiência já garantem direitos e tipificam o capacitismo como crime. Contudo, a lei é o teto, não o chão. A mudança real exige que a sociedade compreenda que a neurodiversidade é parte da condição humana, e não um incômodo a ser corrigido no grito ou na força. 

Caro leitor,nenhuma mãe deveria precisar de coragem física para simplesmente exercer o direito de existir em público com seus filhos.

Eu insisto em dizer que a empatia faz toda a diferença. Acompanho as dores emocionais que essas mães sentem, as lutas diárias contra um sistema que as culpa pelo fato de terem dado à luz, crianças que apresentam desafios que a sociedade não está preparada para cuidar, mas que colocam nas costas das mães a responsabilidade de entender, cuidar e aceitar o descaso que sofrem dos serviços médicos e educacionais.

Se a sociedade não sabe lidar com as crianças atípicas e seus desafios, como uma mãe, muitas vezes sozinha, pois, o pai a deixou ao saber da condição da criança, vai conseguir sem o apoio e o acolhimento da sociedade que, não a acolhe, mas a agride?  Repúdio aos envolvidos na agressão a essa mãe atípica. Pense nisso.

Micéia Izidoro é  psicopedagoga Clínica e Institucional, Neuropsicopedagoga Clínica e pós-graduada em ABA

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