DIA DOS PAIS

Heróis sem capa: Pais mostram que o amor é o maior superpoder

Por Giulianna Mazzali |
| Tempo de leitura: 5 min
Arquivo pessoal
José Carlos assumiu a criação da filha e transformou presença diária no maior gesto de amor
José Carlos assumiu a criação da filha e transformou presença diária no maior gesto de amor

Durante a infância, é comum imaginar que os pais são capazes de resolver qualquer problema. Eles espantam monstros imaginários, seguram a bicicleta nas primeiras pedaladas e parecem encontrar respostas para todas as dúvidas. Mas, na vida real, os verdadeiros super-heróis não usam capas. Eles enfrentam o luto, vencem o medo, aprendem com os próprios erros e descobrem, todos os dias, que o maior ato de coragem é permanecer. Neste Dia dos Pais, histórias de homens que reinventaram a paternidade mostram que o amor continua sendo o maior dos superpoderes.

Quando o amor precisou preencher o vazio

Há quase 15 anos, a vida do advogado José Carlos Ferreira mudou completamente. Depois de acompanhar a luta da esposa contra uma doença agressiva, ele precisou lidar não apenas com a despedida da companheira, mas também com a missão de criar a filha caçula, Thamires, que tinha apenas 11 anos quando perdeu a mãe.

"Além da dor de perder minha companheira, precisei aprender a ser pai e mãe ao mesmo tempo, oferecendo à minha filha o apoio, o carinho e a segurança de que ela precisava", lembra. O luto, explica, começou antes mesmo da despedida definitiva, durante o tratamento da esposa. Ainda assim, foi preciso encontrar forças para continuar enquanto a filha atravessava uma fase delicada da infância rumo à adolescência.

José Carlos conta que não existia um manual para enfrentar aquele momento. Entre as responsabilidades da rotina estavam as conversas difíceis, o acompanhamento na escola, os cursos, as amizades e as inseguranças típicas da idade. "Procurei acompanhá-la em cada etapa da vida. As atenções estavam voltadas para ela, sempre com acompanhamento próximo."

O tempo passou, e a menina que um dia precisou do colo do pai tornou-se professora, seguindo o mesmo caminho da mãe. Para José Carlos, é impossível falar da trajetória da filha sem perceber que a presença da esposa continua viva na família. "O que mantém viva a memória dela é exatamente a profissão. Minha filha exerce o magistério com o mesmo amor, dedicação e compromisso que via na mãe."

Escolher ficar foi o maior gesto de amor

A história de Gautyelle Costa também é marcada pela decisão de permanecer. Aos 36 anos, o diarista e cuidador de idosos assumiu sozinho a criação da filha Ana Beatryce, hoje com 16 anos, após conquistar a guarda da adolescente quando ela ainda era criança.

Pai e filha construíram uma relação baseada na confiança, no diálogo e no cuidado

 

Ele conta que precisou aprender, na prática, funções que nunca imaginou desempenhar. "Confesso que uma das dificuldades foi aprender a fazer também o papel de mãe. Falar sobre a primeira menstruação, comprar absorventes... até hoje estou aprendendo. Mas foi preciso. Superei buscando entender minha filha e apoiando ela em tudo."

Sem uma grande rede de apoio por perto, pai e filha construíram uma parceria baseada na confiança. Mesmo com a rotina corrida — ela estudando em período integral e ele trabalhando durante o dia — existe um compromisso que nunca é deixado de lado: reservar tempo para conversar, brincar e rir juntos. "Ela me vê não só como pai, mas como amigo. Nunca precisei falar mais alto, porque nossa relação sempre foi baseada no respeito."

O verdadeiro superpoder é estar presente

Apesar das histórias diferentes, José Carlos e Gautyelle compartilham uma mesma certeza: ser pai vai muito além de prover ou proteger. "Ser pai hoje não é me sentir herói, longe disso. Significa estar presente, orientar, proteger e amar incondicionalmente", resume José Carlos. Ao olhar para a trajetória dos filhos, ele diz sentir orgulho de vê-los respeitosos, independentes e preparados para construir a própria história, resultado de um esforço compartilhado também pela mãe.

O tempo também ensinou a José Carlos que a paternidade é feita de pequenas conquistas. Uma das mais marcantes aconteceu quando viu a filha deixar a casa da família para ingressar na universidade, em São Paulo. "Foi nesse momento que percebi que aquela menina havia se tornado uma mulher independente, segura e preparada para construir a própria história. Foi uma mistura de orgulho, saudade e a certeza de que todo o esforço havia valido a pena."

Hoje professora de Matemática, Thamires carrega na profissão o mesmo amor pelo ensino que via na mãe. "Meu maior sonho é vê-la feliz. Que conclua o mestrado, realize o sonho de lecionar na Itália, forme sua própria família e tenha uma vida plena. Acima de qualquer conquista profissional, desejo que ela seja feliz", afirma o pai.

Gautyelle faz coro ao afirmar que a paternidade transformou completamente sua forma de enxergar a vida. "Aprendi que preciso ouvir tudo o que minha filha me fala. Pode parecer um assunto bobo para mim, mas para ela não é. Ser pai é uma missão de amor construída diariamente com presença, cuidado, proteção e dedicação."

Na casa dele, os momentos mais simples acabaram se tornando os mais especiais. Depois da escola e do trabalho, pai e filha fazem questão de conversar sobre o dia, dividir preocupações e dar espaço para as brincadeiras. Uma das lembranças mais marcantes dos dois aconteceu durante uma viagem à praia. "Ela vai ser sempre minha melhor companhia. A paternidade é um sonho cumprido para mim; nunca pensei que fosse mudar tanto a minha vida, e sem dúvida mudou para melhor.", resume, ao falar da cumplicidade construída ao longo dos anos.

Ao refletir sobre a própria caminhada, Gautyelle também deixa uma mensagem para outros homens que enfrentam a missão de criar os filhos sozinhos. "Aos pais que criam seus filhos sozinhos: vocês são exemplos de amor e coragem. Talvez o mundo não veja todo o seu esforço, mas Deus conhece cada lágrima e cada renúncia. Permaneçam firmes, porque essa missão transforma vidas." Para ele, quando um pai escolhe permanecer presente, toda uma geração cresce mais forte.

Neste Dia dos Pais, as duas histórias lembram que os filhos dificilmente se recordarão dos presentes recebidos ou das datas comemoradas. O que permanece são os gestos cotidianos: a mão estendida nos momentos difíceis, a conversa no fim do dia, a coragem de aprender o que nunca se imaginou fazer e a decisão de nunca abandonar quem mais precisa. Talvez seja justamente isso que transforme tantos pais em super-heróis — não porque sejam invencíveis, mas porque escolhem amar, mesmo quando a vida exige forças que eles nem sabiam possuir. 

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