Durante alguns meses, as chamas que consumiam o transporte coletivo de Campinas eram figuras de linguagem. O incêndio estava nos bastidores da licitação, nas investigações que atingiram vereadores, nas suspeitas envolvendo um ex-diretor da Emdec e na sucessão de episódios que transformaram a tentativa de renovar o sistema em um processo cada vez mais confuso. Nesta quarta-feira, porém, o fogo voltou a ser literal. Um ônibus da linha 362 foi tomado pelas chamas na Avenida Doutor David Vicente, obrigando a retirada dos passageiros e a atuação do Corpo de Bombeiros. Felizmente, ninguém ficou ferido, mas a cena foi suficiente para trazer de volta aquele velho fantasma que Campinas que ficou apenas temporariamente fora das manchetes.
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O episódio não pode ser tratado como simples ocorrência mecânica. A informação inicial aponta para uma pane elétrica, e a Emdec afirma que o veículo passava por vistorias trimestrais em razão do tempo de uso, com inspeção válida até o fim de agosto. Ainda assim, um coletivo completamente incendiado, em plena operação, relembra que o problema está muito além de uma falha pontual. Há um sistema envelhecido, desgastado e incapaz de oferecer ao usuário a sensação mínima de segurança e previsibilidade. O passageiro de Campinas já convive com ônibus quebrados, superlotação, atrasos e veículos em condições precárias. Agora, volta a conviver também com a imagem mais extrema dessa decadência: um ônibus ardendo no meio da rua.
Nos últimos meses, o debate sobre o transporte foi dominado por outro tipo de combustão. Os escândalos que envolveram os vereadores Vini Oliveira, Higor Diego e um ex-dirigente da Emdec incendiaram politicamente a Câmara e colocaram a licitação sob enorme suspeição. Aquilo que deveria representar o começo de uma nova etapa para a mobilidade urbana passou a ser associado a vídeos, denúncias, investigações, processos políticos e disputas judiciais. As chamas eram metafóricas, mas não menos destrutivas. Elas queimaram parte da confiança de que a nova concessão seja capaz de corrigir os erros acumulados durante tantos anos.
Agora, o incêndio real de um ônibus ajuda a resumir de maneira quase cruel a situação de Campinas. A cidade sabe que o sistema atual é ruim, mas também não tem segurança de que a solução prometida conseguirá sair do papel. A licitação deveria ser a porta para uma frota mais moderna, contratos mais rígidos e um serviço melhor. No entanto, o processo está emperrado, cercado de questionamentos e sem um horizonte claro. O velho sistema continua “funcionando” no limite, enquanto o novo permanece preso a incertezas administrativas, políticas e jurídicas.
É justamente aí que mora a maior angústia. O usuário está espremido entre um presente precário e um futuro indefinido. Ele paga uma tarifa cara, espera no ponto, entra em veículos antigos e torce para chegar ao destino sem nova quebra, atraso ou risco. Quando um ônibus pega fogo, a Prefeitura cobra esclarecimentos da empresa, o operador promete apurar e a rotina segue. Mas o problema estrutural permanece.
Campinas é uma das maiores cidades do país, tem força econômica, centros de tecnologia, universidades e ambição metropolitana. Ainda assim, não consegue oferecer um transporte coletivo à altura de sua importância. Esse talvez seja um dos símbolos mais incômodos da cidade: uma metrópole que avança em tantos setores, mas continua incapaz de resolver uma necessidade básica de milhares de pessoas.
O incêndio desta quarta-feira será investigado, a causa será apontada e o veículo já está, forçosamente, fora de circulação para sempre. Mas o sistema que permitiu que Campinas chegasse a esse ponto continuará ali. Mais estas chamas foram apagadas. O problema, não.
Caíque França e sua grandeza

Reprodução/Instagram
Há histórias que ajudam a recolocar o futebol em sua dimensão mais humana. Nesta semana, Campinas conheceu o drama vivido pelo goleiro Caíque França, que teve a casa destruída por um incêndio na semana passada. O fogo, segundo o próprio jogador, começou acidentalmente em um imóvel vizinho e se espalhou até sua residência. Felizmente, ninguém ficou ferido. Ainda assim, o alívio pela preservação das vidas convive com uma perda difícil de mensurar: além da moradia e dos bens materiais, desapareceram fotografias, medalhas, troféus, DVDs e tantos objetos que carregavam capítulos de sua trajetória pessoal e profissional. Uma casa pode ser reconstruída, mas há lembranças que o fogo leva sem permitir reposição.
O impacto emocional de uma tragédia assim seria suficiente para afastar qualquer pessoa de suas atividades por algum tempo. Caíque, no entanto, apresentou uma demonstração impressionante de força. Dias depois do incêndio, entrou em campo pelo Guarani e realizou uma atuação impecável. Em determinado momento, fez uma defesa extraordinária que manteve o time vivo na partida e abriu caminho para a vitória alviverde. Enquanto os torcedores acompanhavam apenas o goleiro concentrado, seguro e decisivo, ele carregava silenciosamente o choque de ter perdido sua casa e boa parte da própria história no fim de semana. A imprensa, os torcedores e grande parte das pessoas que estavam ao redor do clube só descobriram o que havia acontecido no dia seguinte, quando o próprio atleta decidiu relatar a situação nas redes sociais.
Esse detalhe talvez seja o que mais impressione. Caíque não utilizou a tragédia para justificar uma eventual ausência, uma falha ou um rendimento abaixo do esperado. Tampouco transformou sua dor em espetáculo. Guardou o sofrimento, entrou em campo, cumpriu seu papel e ajudou o Guarani em um momento importante. Não se trata de romantizar a obrigação de alguém trabalhar depois de sofrer um trauma tão profundo. Trata-se de reconhecer a capacidade humana de permanecer de pé quando tudo ao redor parece ter desmoronado. Como definiu o jornalista Júlio Nascimento, Caíque demonstrou ser um “cara diferente”. E foi mesmo.
A revelação da tragédia provocou uma reação igualmente significativa. Torcedores do Guarani rapidamente se mobilizaram em manifestações de apoio, mas a solidariedade também atravessou a histórica rivalidade de Campinas. Pontepretanos, que guardam enorme respeito pelo goleiro em razão de sua passagem marcante pela Ponte Preta, juntaram-se aos bugrinos nas mensagens de carinho. Em uma cidade acostumada a tratar Guarani e Ponte como lados opostos de praticamente tudo, o drama de Caíque lembrou que existem momentos em que as cores das camisas perdem importância. Diante da dor real de uma pessoa, a rivalidade deve permanecer onde pertence: nas arquibancadas e dentro de campo.
O incêndio destruiu paredes, objetos e recordações, mas também revelou algo que nenhuma chama pode consumir. Revelou o caráter de um profissional capaz de honrar seu compromisso mesmo quando enfrentava um dos piores momentos de sua vida. Revelou o respeito construído em dois clubes rivais. E revelou que, em meio a tanta intolerância e divisão, a solidariedade ainda é capaz de unir Campinas. Caíque França terá pela frente o difícil processo de reconstrução material e emocional. Pela força demonstrada, pelo respeito conquistado e pelo apoio que recebeu, não estará sozinho. Que encontre serenidade para recomeçar e consiga construir novas lembranças, porque a atuação daquela segunda-feira já se transformou em uma delas: não apenas como uma grande noite de um goleiro, mas como a demonstração silenciosa da grandeza de um ser humano.
- Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br