Final coloca frente a frente países mal resolvidos com racismo
Quando a bola rolar para a final da Copa do Mundo, o duelo entre Espanha e Argentina não marcará apenas o encontro de Lionel Messi, o gênio desta geração, com Lamine Yamal, o craque do futuro. O confronto deste domingo (19) coloca frente a frente duas nações mal resolvidas com seu passado.
Dentro de campo, durante o Mundial, os espanhóis protagonizaram uma campanha sólida, sem derrotas e com apenas um gol sofrido. Já os argentinos marcaram sua trajetória com as vitórias agonizantes no fim das partidas do mata-mata.
Fora das quatro linhas, casos de racismo de torcedores e figuras públicas dos dois países foram a infeliz mancha que acompanhará o caminho de ambos em uma Copa que já nasceu histórica: do lado do Rio da Prata, torcedores e Hebe Casado, vice-governadora da província de Mendoza. Do lado ibérico, o ex-premiê Mariano Rajoy.
Os episódios registrados nos Estados Unidos não ocorrem ao acaso: há décadas se repetem os casos de ofensas raciais nos campeonatos dos dois países, e, até o momento, o enfrentamento - se ocorreu - não barrou o problema.
De Eto'o a Vini Júnior, racismo persiste no futebol espanhol
Na Espanha, há registros de casos de racismo no futebol ao menos desde a década de 1980, quando o camaronês Thomas Nkono, do Espanyol, sofreu ofensas durante clássico contra o Barcelona em 1982. Uma década depois, Guus Hiddink, treinador do Valencia, se indignou com uma bandeira nazista entre os torcedores do Albacete.
"Não se pode dizer que um país é racista [por inteiro], mas há racismo no futebol espanhol e na Espanha. É um problema que não desapareceu", diz Salvador Moya, doutor em humanidades pela Universidade de Almería e pesquisador sobre racismo.
Os episódios tornaram-se constantes quando aumentou a presença de atletas negros na liga, relata Moya, e ainda mais frequentes na passagem de Samuel Eto'o pelo Barcelona.
"Era uma 'moda' perigosa, em todos os estádios se fazia o canto de 'mono', principalmente em 2005 e 2006. E sofria especialmente o Eto'o. O que hoje ocorre com Vinicius em menor frequência era toda rodada com ele. A Espanha criou uma lei em 2007 contra a intolerância e o racismo. Desde então se castigam gestos racistas no futebol espanhol. Antes não havia uma lei, por isso é uma data-chave", afirma Moya.
Segundo o pesquisador, os casos diminuíram devido às punições e se tornaram mais isolados nos anos seguintes, o que gerou uma falsa impressão de que o problema havia desaparecido. Casos como o da banana arremessada a Daniel Alves eram o lembrete de que o racismo seguia. E a chegada de Vinícius Júnior desestruturou as impressões do país em relação ao combate ao racismo.
A Espanha após chegada de Vini
À medida que os episódios se repetiam com o craque do Real Madrid e ele respondia pedindo respeito, o problema se tornava mais nítido. Havia uma justificativa no país de que isso só ocorria porque Vini tinha um perfil provocador. Era falsa, avalia Salvador Moya: "Essa teoria da provocação se desbarata quando buscamos outros exemplos. Os irmãos Williams sofreram racismo também, e são espanhóis. E ninguém pode dizer que provocam, assim como Tchouaméni e Mbappé, que também já sofreram."
O que ocorre, avalia o pesquisador, é que Vini se rebelou de forma mais contundente, como fez Eto'o em seu tempo. Para Moya, foi justamente a atuação dos dois que fez o combate ao racismo avançar. "Graças a um jogador como Vinicius, que é a vítima, as leis que já existiam -por causa de Eto'o- se aplicam com mais contundência. Agora os juízes consideram os atos como delito de ódio. E isso pode levar à prisão", pontua.
Para além da lei federal 19/2007, contra o racismo e a intolerância no esporte, Moya comenta que há, na Espanha, iniciativas educativas organizadas por La Liga, das quais faz parte. Mas faz uma ressalva: "Temos um Mundial em quatro anos, com Espanha, Portugal e Marrocos, e só nisso já pode estar o racismo. Seria importante uma rede nacional com um modelo que após a Copa poderiam exportar a outros países. Fazem ações, mas individuais. Há que se unir a todos, ter mais gente na mesa."
Se os espanhóis estão hoje mais conscientes que 20 anos atrás ou passaram a ter cuidado por medo da punição, é difícil avaliar, diz Moya.
"Há menos racismo que 20 anos atrás? Depende. Há menos gestos também porque antes passava impune. Era grátis insultar. Primeiro, há que reconhecer o problema, a Espanha reconheceu. E tem que saber o nível do problema, estamos nessa fase. E terceiro: aportar soluções para acabar com o racismo. Demos passos importantes, mas não definitivos. Não podemos baixar a guarda. O racismo é um vulcão adormecido, e de repente entra em erupção quando uma estrela como Vinícius sofre. Temos que ter controle para que não se repita", afirma Moya.
Argentina nega seu racismo
Não é preciso estar muito atento para se deparar com episódios de racismo envolvendo o futebol argentino. Os casos se replicam há pelo menos um século e, nos anos recentes, se percebem sempre na Libertadores e na Sul-Americana. Da charge de 1920 do jornal "La Crítica", que retratava jogadores do Brasil como macacos, às ofensas de "macaquitos de Brasil" de torcedores do Boca ao Santos de Pelé, na final da Libertadores de 1963, e os incontáveis registros na última década, as ofensas são contínuas no futebol argentino.
Há, inclusive, o caso de jogadores da seleção argentina cantando músicas racistas após um título em 2024.
Se de alguma forma a Espanha reconheceu o problema e mudou sua legislação, na Argentina não há lei específica a respeito. Isso passa pela incompreensão dos argentinos. "A sociedade argentina não entende que é um dos seus principais problemas. Há uma negação do racismo. Não é só a persistência dele, senão a dificuldade para reconhecê-lo", afirma Nicolas Cabrera, doutor em antropologia e sociólogo argentino que estuda conflitos entre torcidas.
É preciso considerar o mito da branquitude existente no país vizinho para entender a dimensão do racismo por lá, segundo Cabrera: um projeto nacional baseado na ideia de uma Argentina branca e europeia, a partir da imigração de 6 milhões de imigrantes europeus e o apagamento das populações indígenas e afrodescendentes.
Nos censos dos séculos 18 e 19, havia populações negras em números significativos no país. Mas, a partir do século 19, desaparecem as categorias raciais, o que alimenta o apagamento das populações indígenas, negras e mestiças. Segundo o Censo de 2010, negros são 5% da população de 44 milhões de argentinos.
Apesar da persistência do racismo, Cabrera destaca que não se pode apontar o país como um bloco único sobre este tema: "Há pessoas que não são orgulhosas desse racismo, tem pessoas que lutam contra o racismo e a maioria da população nega o racismo ou minimiza o racismo."
Diferentemente de alguns de seus países vizinhos, como o Brasil, não existe uma lei que criminalize o racismo na Argentina. "O Estado não faz nada contra o racismo e grande parte da sociedade não tem atitudes antirracistas. Isso não resolveria o racismo argentino, como não resolveu o brasileiro. Mas, sem dúvida, mudaria muito a situação", completa Cabrera.
O sociólogo cita ainda o Inadi (Instituto Nacional Argentino contra a Discriminação), que registrava os casos de racismo, de discriminação. Segundo ele, embora não tivesse grande efeito no combate ao preconceito racial, o órgão tinha a função de registrar os casos de discriminação racial. No entanto, o instituto foi fechado pelo governo Javier Milei em 2024: "Tudo que tinha minimamente articulado para combater o racismo foi desarticulado."
Racismo não é exclusividade de argentinos e espanhóis
Entre os pesquisadores ouvidos pela reportagem, predomina uma ressalva tão nítida quanto relevante: o racismo não é um fenômeno exclusivo de Argentina e Espanha.
Como ponto de partida, é correto e necessário criticar, denunciar, punir e combater todos os casos de racismo, afirma Nicolás Cabrera. Para ele, porém, não cabe dedicar esforços para discutir qual país é mais ou menos racista. O sociólogo pondera que em outros países, como os Estados Unidos e o Brasil, o racismo continua deixando mortos até hoje. E também avalia o tema nos outros semifinalistas da Copa:
"A França tem 13 colônias hoje, muitas com populações negras. Na Espanha, vemos um monte de casos de racismo, como o que sofre Vinicius Júnior. A Inglaterra é o maior império colonial do século 19, que lucrou por décadas com o tráfico de ilegal de escravizados."
Roberta Pereira, doutora em estudos de futebol, lembra que há racismo também no Brasil: "A Argentina passou por processo de embranquecimento que deu certo. O Brasil passou por uma tentativa de embranquecimento que não deu certo."
O argentino chama todos os brasileiros de macaquitos, lembra Pereira, e não apenas os brasileiros negros. "Incomoda os brasileiros porque eles são comparados aos negros. Como o Brasil é um país extremamente racista, ser chamado de macaco é ofensivo, no sentido de que 'eu não sou negro e estou sendo chamado de macaco'", completa ela.