EMENDAS

Sem deputado próprio, Jundiaí perde emendas

Por Diná de Mello |
| Tempo de leitura: 5 min
Divulgação
Sem representantes, chances de emendas parlamentares diminuem
Sem representantes, chances de emendas parlamentares diminuem

Jundiaí recebeu R$ 1,75 milhão em emendas parlamentares da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) pagas em 2024 e R$ 2,4 milhões em 2025, de acordo com informações do Painel de Emendas Parlamentares do Portal da Transparência do Estado de São Paulo. O crescimento entre os dois anos chama atenção, mas esconde um detalhe importante: nenhuma das 26 emendas identificadas partiu de deputado estadual eleito por Jundiaí ou por qualquer outra cidade da Região Metropolitana de Jundiaí (RMJ). A cidade não tem representante próprio na Alesp desde o mandato de Luiz Fernando Machado (PL), e na Câmara Federal, desde a última eleição de Miguel Haddad (PSDB), em 2014.

Em 2024, a Prefeitura Municipal foi quem mais recebeu (R$ 650 mil, em quatro emendas), seguida pelo Grendacc e pelo Hospital de Caridade São Vicente de Paulo, cada um com R$ 400 mil. Em 2025, a Prefeitura recebeu R$ 850 mil, e o Grendacc somou R$ 550 mil. Ao todo, treze deputados diferentes destinaram recursos a Jundiaí em 2025, contra nove em 2024 — nomes de partidos e regiões distintas do estado, sem vínculo eleitoral com a cidade. São indicações pontuais, a maioria entre R$ 100 mil e R$ 200 mil, quase sempre para custeio de saúde ou compra de equipamentos, e não para obras estruturantes.

Assunto recorrente nas entrevistas

A falta de representantes próprios é tema que volta com frequência nas entrevistas concedidas ao Jornal de Jundiaí (JJ) e à Rádio Difusora 810 AM, no programa Bastidores da Política. Nomes como Miguel Haddad (PSDB), Luiz Fernando Machado (PL), João Paulo de Souza (PL), Edicarlos Vieira (União Brasil), Ellen Martinelli (União Brasil), Juninho Adilson (União Brasil) e Danilo Joan (PSD) já falaram sobre o assunto — quase sempre repetindo o mesmo argumento: sem deputado eleito da região, a cidade fica de fora das emendas parlamentares.

O ex-prefeito e ex-deputado Miguel Haddad disse, em entrevista à Rádio Difusora, no dia 20 de fevereiro de 2026, que a falta de representantes locais faz Jundiaí perder "representatividade, convênios e emendas", e pediu que o eleitor preste atenção a isso nas eleições de outubro.

João Paulo de Souza, vice-prefeito de Várzea Paulista, que forma a chamada "Dupla da Região" ao lado do ex-prefeito de Jundiaí, Luiz Fernando Machado, afirmou a um veículo de comunicação da região, em reportagem publicada em 21 de maio de 2026, que a RMJ deixa de receber cerca de R$ 62 milhões por ano em emendas parlamentares por não ter representantes próprios. Já Luiz Fernando, em reportagem de junho de 2026, cita como exemplo prático o credenciamento pendente de 114 leitos do Novo Hospital de Várzea Paulista, que dependeria de articulação com o Ministério da Saúde e o governo estadual.

Em entrevista ao programa Bastidores da Política, da Rádio Difusora, nesta semana, o vereador Juninho Adilson, líder do governo na Câmara de Jundiaí, deu números ao tema: segundo ele, um deputado federal movimenta cerca de R$ 50 milhões por ano em emendas — R$ 200 milhões ao longo de um mandato —, valor que, somado à cota de um deputado estadual, poderia viabilizar "um novo hospital, um pronto atendimento de qualidade, um fomento ao esporte". Durante a mesma entrevista, o apresentador Itamar Gonçalves, citando reportagem do Jornal de Jundiaí, lembrou que, só nas eleições de 2022, mais de 40 mil votos de Jundiaí foram para candidatos de fora da região — caso de Carla Zambelli e Tabata Amaral —, sem que esses parlamentares tenham destinado emenda alguma à cidade. Em 2018, o total de votos "perdidos" para nomes sem vínculo com a região teria passado de 100 mil — dado que tem sido divulgado com frequência pelos veículos de comunicação locais.

Os pré-candidatos Edicarlos Vieira, presidente da Câmara de Jundiaí, e Ellen Martinelli, primeira-dama do município, repetiram o mesmo discurso ao lançar suas pré-candidaturas a deputado estadual e federal, em evento realizado em 25 de abril de 2026. Vieira disse que a região "tem força, tem potencial, mas ainda não tem o peso político que merece". Ellen afirmou querer "ser a voz que abre portas e traz os recursos que a cidade merece".

Fora da RMJ, um caso concreto reforça o argumento. O ex-prefeito de Cajamar, Danilo Joan (PSD), hoje pré-candidato a deputado estadual, também em entrevista ao programa Bastidores da Política, atribuiu ao deputado federal Maurício Neves (PP) a conquista de R$ 60 milhões em investimentos de mobilidade para o município. Joan contou que, como prefeito, buscava apoio de parlamentares em Brasília e ouvia recusas de quem não tinha votação expressiva na cidade — prova, segundo ele, de que a emenda segue o voto, e de que, sem deputado com raiz na região, o recurso não chega.

Teríamos mais emendas com representante próprio?

Os números de 2024 e 2025, isoladamente, não garantem que Jundiaí passaria a receber dezenas de milhões em emendas só por eleger um deputado da região — isso depende também do perfil do parlamentar, do partido e das prioridades de cada mandato. Mas o padrão dos dois anos é claro: os recursos que chegam hoje são pulverizados, vêm de gabinetes sem compromisso com a cidade, em valores padrão que não passam de R$ 300 mil por indicação, e nenhuma das 26 emendas levantadas financiou obra de mobilidade, saneamento ou infraestrutura de maior porte — o tipo de investimento que, segundo os relatos colhidos pelo JJ e pela Difusora, costuma aparecer quando existe um parlamentar com base eleitoral na própria região.

Nas próximas eleições, cabe aos cidadãos jundiaienses e das demais cidades da RMJ a responsabilidade de escolher bem — e de ter, depois do voto, de quem cobrar.

Comentários

Comentários