CASO MARCO AURÉLIO

Oração e ataque à barraca: as horas antes do sumiço do escoteiro

Por Guilhermo Codazzi | Piquete
| Tempo de leitura: 7 min
Editor-chefe de OVALE
Reprodução
Marco Aurélio ao centro, segurando a bandeira
Marco Aurélio ao centro, segurando a bandeira

Dia 7 de junho de 1985.

Sexta-feira. Falta um dia para o desaparecimento do escoteiro Marco Aurélio Simon, de 15 anos, no Pico dos Marins, em Piquete.

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Alheio ao trágico destino da expedição, que se converteria em um mistério que completa 41 anos, o Grupo Escoteiro Olivetano acordava após uma noite turbulenta. Horas antes, fortes golpes haviam atingido a barraca onde dormiam. O episódio é descrito como um "ataque", no livro inédito escrito e jamais publicado por Juan Bernabéu Céspedes, chefe dos escoteiros, um dos personagens centrais do caso -- chamado de "assassino" pelo pai de Marco Aurélio.

Obtido com exclusividade por OVALE, o manuscrito de 107 páginas funciona como uma espécie de "caixa-preta" da expedição. Pela primeira vez, Juan apresenta de forma sistemática sua versão dos acontecimentos que antecederam o desaparecimento de Marco Aurélio.

"Nunca eu, Juan Bernabéu Céspedes, como Chefe do Grupo, fui verdadeira e sinceramente consultado pelos diversos escritores sobre o ocorrido", escreve Juan na introdução do livro. "Creio que é hora de dar um fim às especulações e relatar fielmente o ocorrido naquela ocasião".

Neste segundo capítulo, o chefe dos escoteiros descreve, em primeira pessoa, o dia que antecedeu o desaparecimento de Marco Aurélio. O capítulo destaca o ataque à barraca dos escoteiros, atribuído por Juan ao filho do guia local e os últimos preparativos para a expedição. As frases são do chefe dos escoteiros.

Integraram a missão, além de Juan e Marco Aurélio, os escoteiros Ricardo Ferraz Salvioni, Oswaldo Lobeiro Machado e Ramathis Rhom, também adolescentes.

Leia o primeiro capítulo da série: Chefe dos escoteiros abre 'caixa-preta' do caso Marco Aurélio

Veja o relato do chefe do Grupo Olivetano

"Eu sempre tive o costume de acordar antes dos outros, higienizar-me, vistoriar o local e somente depois, no horário combinado, acordar o acampamento. Qual não foi minha surpresa ao encontrar as panelas fora de lugar, espalhadas. 

Acordei os rapazes para que ajudassem a procurar o material faltante. Encontraram a lata de óleo em um local totalmente diferente das panelas, em direção oposta, caída no chão e sem qualquer vestígio de óleo derramado. A lata de manteiga, que fora deixada dentro de uma panela com água, não foi encontrada. A panela estava jogada em um canto, juntamente com as demais. Os ovos não foram encontrados, nem vestígio. Salvioni encontrou uma parte da tampa da manteiga, mastigada e jogada próximo à lata de óleo. Todos ficamos revoltados com o fato. Algumas panelas não foram localizadas. Eu acendi o fogo para o café (...)".

"Salvioni sorteou com uns palitos o lavador de pratos, tendo sido sorteado o Marco Aurélio. Enquanto os lavava, os demais cuidavam da fogueira e da arrumação da barraca. Eu saí para dar uma olhada nos arredores e ao vislumbrar, desde uma pequena clareira próxima, o Vale do Paraíba, chamei a Tropa Sênior para testemunhar a beleza do local. Estava tudo coberto pela neblina. Parecia uma tela de cinema, com montanhas de algodão".

"Ao retornar, encontrei Marco Aurélio deitado com as mãos roxas de frio. Oswaldo lhe massageava as mãos. Chamei Marco Aurélio e o orientei sobre como combater o frio. Ensinei-o a fazer movimentos de aquecimento do corpo, para melhorar a circulação. A palidez do rosto aos poucos foi sumindo. Sentou-se depois à beira do fogo e agradeceu pelo novo conhecimento".

"O café da manhã foi de pão de caçador, com massa feita pelo Ramathis, enquanto Oswaldo providenciava os gravetos, juntamente com Marco Aurélio, que lhe ensinou como fazer. Nessa ocasião, Marco Aurélio recordou um acampamento quando outro escoteiro fez uma massa tão leve, que para engrossar adicionaram chocolate e linguiça. Esse fato divertiu a todos os presentes. Também lembrou com saudades do pão que eu  fazia quando ia ao sitio de sua família".

Marco Aurélio comenta sobre o ataque à barraca

"Alguém, possivelmente Marco Aurélio, comentou com a mulher do caseiro sobre o 'ataque' da noite. Ela relatou que seus cachorros passaram a noite toda presos e que era frequente virem cachorros de fora (apenas não explicou de que forma o cachorro tira a manteiga de dentro de uma panela e a coloca em um local distante)".

"Em certo momento, eu e Salvioni conversamos sobre Marco Aurélio. Este se comportava um pouco diferente, como descontente e desanimado. Interpretamos que estaria desmotivado por não ser o monitor. Eu conversei com Marco Aurélio. Tudo ficou esclarecido e Marco Aurélio voltou a participar com a animação costumeira".

"Às 11h tínhamos que tomar banho, mas havia um forte vento e a água estava fria. Decidimos então ir até um rio que estava a aproximadamente 1,5 km do acampamento. A água era fria, mas estava melhor que a da bica. Todos nos divertimos e nos banhamos". 

Juan relata encontro com o filho do Senhor Afonso

"Retornamos e almoçamos. Ao lavar as panelas nos reunimos quase todos na bica, ocasião em que vimos o filho do Sr. Afonso (doente mental) cortando lenha, auxiliado pela mãe, que também estava alimentando os porcos. Nesse momento, perguntei ao Sr. Afonso que caminho devia tomar para ir ao Pico.

Nesse momento, um senhor passou pelo local e perguntou a essa senhora se seu Afonso poderia acompanhá-lo como guia para subir o Pico. A senhora recusou, dizendo que ele tinha muito trabalho atrasado.

Após a saída daquele senhor, seguiu-se um breve diálogo com o Sr. Afonso:
- De que vocês vivem? – Perguntei por curiosidade, ao observar que não havia nenhuma lavoura nas proximidades.
- Fazemos trabalhos extraordinários.
- Que trabalhos seriam esses?
- Fazemos pilões, como este que está a nossa frente, além de outros trabalhos manuais.
- Que caminho devemos seguir para ir ao Pico? – Perguntei, voltando à questão de como chegar ao pico.
- Vocês devem tomar a estrada de terra próxima e seguir sempre pela direita, até uma bifurcação à direita.
- Desculpe a curiosidade, mas por que passam tantas pessoas por essa trilha, ao lado de sua casa?
- Elas vão até um lugar aqui pertinho. Há alguns dias, uns motoqueiros chegaram a se perder no Pico.

Eu relatei a conversa para os seniores e reiniciamos as atividades. Apareceu um senhor espanhol, juntamente com um chefe escoteiro e estivemos conversando. Marco Aurélio acompanhou toda a conversa sem fazer comentários, enquanto procurava lenha".

Conversa sobre pirâmidas e discos voadores

"Durante a tarde, Salvioni fez uma palestra sobre pirâmides, resultando daí comentários sobre discos voadores, com a participação ativa de Marco Aurélio, comentando-se inclusive que por estarmos sempre no campo, os escoteiros tem maior probabilidade de verem esses objetos. A seguir, conversou-se sobre Alex e outro Sênior que pretendia retornar ao Movimento, assunto sobre o qual Marco Aurélio deu seu parecer".

Ao final da tarde, os escoteiros recolheram lenha para o tradicional Fogo de Conselho, realizado após o jantar e conduzido por Salvioni. Segundo Juan, o encontro ajudou a encerrar desentendimentos entre integrantes da tropa e terminou sob um céu limpo e estrelado.

"O mal-estar entre Ramathis e Oswaldo foi solucionado no 'eu me acuso', retornando a amizade entre os dois. O céu totalmente límpido, sem nuvens, estrelado, foi boa ocasião para uma oração individual. A do Marco Aurélio foi muito bonita, pois naquele local, com a vista do Vale do Paraíba e das montanhas selvagens, estávamos realmente mais perto de Deus."

Às 21h, todos se recolheram.

"Deitamos e adormecemos rapidamente, pois todos sabíamos da necessidade de estarmos preparados, cheios de energia para o dia seguinte."

Aquela seria a última noite completa de Marco Aurélio ao lado dos companheiros escoteiros. Na manhã seguinte, a expedição iniciaria a subida ao Pico dos Marins.

Dia do desaparecimento no Pico dos Marins

Sábado, 8 de junho de 1985.

"Às 6h foi a alvorada. Eu chamei a atenção de Marco Aurélio, que dormiu sem cobertores, unicamente com um poncho, blusas e sapatos. Justificou não ter trazido uma coberta para diminuir o peso durante a jornada. Isso não me agradou. Oswaldo, escolhido para lavar os pratos, disse que não choraria como Marco Aurélio. Houve uma pequena troca de palavras entre ambos, sem maior importância".

"Tomamos café e preparamos as coisas para subir. Desta vez, comemos pão sovado (que leváramos previamente) para não nos atrasarmos. Várias pessoas passaram pelo local. Algumas paravam para visitar o acampamento. Uma delas, de outro grupo escoteiro, mas fora de atividade, chegou de caminhão e disse que nos aguardaria. Mas pouco tempo depois, informou que não poderia aguardar mais, pois devia retornar no mesmo dia para Piquete. Eu agradeci e pedi para deixar sinais de pista nos locais mais difíceis".

"Às 9h iniciamos a caminhada.".

No próximo capítulo: OVALE traz o relato do chefe dos escoteiros, em suas próprias palavras, sobre o 8 de junho de 1985, o desaparecimento de Marco Aurélio.

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