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Chefe dos escoteiros abre 'caixa-preta' do caso Marco Aurélio

Por Guilhermo Codazzi | Piquete
| Tempo de leitura: 6 min
Editor-chefe de OVALE
Reprodução
Marco Aurélio (à esq.) e o chefe Juan (no meio)
Marco Aurélio (à esq.) e o chefe Juan (no meio)

Dia 8 de junho de 1985.

Há exatamente 14.971 dias, o jornalista Ivo Simon vive preso à data em que o filho Marco Aurélio, de 15 anos, desapareceu no Pico dos Marins, em Piquete, durante expedição do Grupo de Escoteiros Olivetano.

"Eu vivo todos os dias a mesma história", contou o pai, hoje com 87 anos de idade, mais de 40 deles dedicados à busca incansável e inabalável pelo menino.

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Mantendo a fé, mesmo quando não encontra razões para acreditar, seu Ivo segue vivendo na mesma casa, na rua Bocaiúva, em São Paulo, e espera que Marco Aurélio, algum dia, ainda bata à sua porta.

"Olha, eu já acompanhei tantas histórias de desaparecimentos, 30, 40 anos, 50 anos, pessoa desaparecida e de repente a pessoa apareceu. Por isso que eu continuo acreditando que um dia pode chegar lá na rua Bocaiuva, em São Paulo. Bater na porta. Eu direi: “Eu te amo. Entra, meu filho. A casa é sua”. É a minha vida. É a minha missão", contou o pai em entrevista a OVALE.

Não há um só dia em que, ao acordar ou ir dormir, seu Ivo não sinta martelar no peito a mesma pergunta: onde está Marco Aurélio?

A resposta a essa questão, que corta a alma e há mais de 40 anos forma uma estalactite de dor, passa por um dos personagens centrais e mais controversos deste que é considerado um dos maiores mistérios do mundo.

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Chefe Juan Bernabéu, o outro mistério

Trata-se de Juan Bernabéu Céspedes, chefe do 'Grupo Escoteiro Olivetano 240 SP', responsável pela incursão ao Pico dos Marins. À época dos fatos, Juan foi investigado pela polícia. Quatro décadas depois, ainda há dúvidas não dirimidas, perguntas sem resposta.

“[Juan] Ele cometeu erros primários. Tem um delegado de São Paulo que acha que foi tudo intencional. Esses erros não aconteceram assim. Eles foram premeditados. O que eu posso dizer? Eu não sei. É a polícia que está dizendo hoje isso", afirmou o pai de Marco Aurélio, em entrevista a OVALE. "Esses erros foram premeditados”, reforçou.

Atualmente, Juan vive em Manaus (AM), recluso. Ele se nega a conceder entrevistas sobre o desaparecimento de jovem escoteiro. Em contato com OVALE, porém, o chefe do Grupo Olivetano compartilhou o original do livro 'Pico dos Marins e o escoteiro desaparecido', escrito por ele e jamais publicado.

A caixa-preta da subida ao Pico dos Marins

Trata-se de um material inédito e exclusivo obtido por OVALE.

Ao longo de 107 páginas, Juan detalha os dias que antecederam o desaparecimento, a subida ao Pico dos Marins, o desaparecimento de Marco Aurélio e as buscas pelo escoteiro. Por que Juan permitiu que Marco Aurélio voltasse sozinho? Qual foi a última vez em que o garoto foi visto? Na avaliação do chefe, o que aconteceu com aquele jovem escoteiro?

O material exclusivo obtido por OVALE abre uma das caixas-pretas do caso.

Faltando quatro dias para que o desaparecimento complete 41 anos, OVALE dá início a uma série sobre o relato inédito de Juan, que contará a sua versão do que aconteceu no Pico dos Marins em 8 de junho de 1985. Juan, por meio de seu livro inédito, narrará a história em suas próprias palavras.

O relato de Juan - o início da expedição

Dia 6 de junho de 1985.

Às 5h30, a tropa se reúne e ruma para a estação Tatuapé do metrô, em São Paulo, seguindo para o Terminal Rodoviário do Tietê, chegando pouco antes das 7h. "O relacionamento da tropa era muito bom, animado e alegre", conta Juan.

A expedição ao Pico dos Marins nasce do desafio do chefe Toninho, de Lorena, em encontro da União dos Escoteiros entre 1984 e 1985. Integram a missão, além de Juan e Marco Aurélio, os escoteiros Ricardo Ferraz Salvioni, Oswaldo Lobeiro Machado e Ramathis Rhom, que fazia a sua primeira atividade externa.

Após 'problemas internos', expedição colocaria a 'casa em ordem'

O Olivetano, nas palavras do chefe do grupo, passava por "problemas internos". "A nossa Tropa Sênior tinha passado ultimamente por alguns problemas internos e um dos objetivos da excursão (...) era justamente pôr a casa em dia", afirma Juan em seu relato. Durante a viagem, por meio de votação secreta, Salvioni é escolhido como monitor, com 2 votos. Marco Aurélio, que votou em si mesmo, ficou "um pouco ressentido" com o resultado.

No ônibus, a caminho de Lorena, Juan diz que o clima era animado. "Marco Aurélio estava verdadeiramente animado e usou a seguinte expressão: 'meu pai não me deixa brincar na rua de bicicleta, não sei se me permitiria participar da excursão [de bicicleta que planejavam fazer]'", narra Juan.

Tropa passa pelo Santuário e chega a Lorena

Às 9h15, o ônibus chega a Lorena. Um companheiro de escotismo os recepciona e mostra a cidade.

"Como não vimos os demais escoteiros do Grupo [de escoteiros de Lorena], perguntamos por eles. Obtendo como resposta que teriam ido participar de um acampamento distrital em outra cidade, e ninguém acompanharia o Olivetano", diz Juan e acrescenta: "Essa resposta foi um verdadeiro choque, pois a participação de nossos seniores ocorreu unicamente por terem sido desafiados".

Às 11h, a tropa segue para Piquete em uma kombi, chegando uma hora e meia depois. É definido o local do acampamento: o quintal do Senhor Afonso, um guia da região.  Marco Aurélio, Ramathis e Oswaldo montam a barraca e Salvioni prepara o fogão.

Marco Aurélio é escolhido monitor da Patrulha Pico dos Marins

Ao final daquele dia, o grupo se reuniu ao redor do fogo. "Discutiram-se também os problemas da Tropa, decidindo-se formar a Patrulha Pico dos Marins, cujo monitor seria Marco Aurélio, com as cores azul e cinza, cabendo a Osvaldo fazer o desenho da bandeirola. Devido à intensidade do frio, resolvemos nos deitar, deixando as panelas para lavar no dia seguinte", conta Juan.

"O espaço para o acampamento era pequeno. Eu [Juan] sempre acampei em barraca individual, no entanto, dessa vez, por causa do espaço e ouvindo o parecer dos seniores, decidimos armar apenas uma barraca", afirma o chefe.

Mistério na madrugada: ataque à barraca

"Antes de deitar, Salvioni tomou o cuidado de deixar a lata de óleo já aberta, encostada no barranco, e as panelas e os pratos sujos devidamente protegidos contra o vento", conta Juan. O clima era de descontração. "Deitamos cada um enrolado no seu cobertor ou saco de dormir. Começaram a contar piadas. Marco Aurélio,  como os demais, estava rindo e contando histórias", descreve ele.

"Eu adormeci, acordando posteriormente, quando a maioria estava começando a dormir. Marco Aurélio saiu da barraca, retornado algum tempo depois. Todos adormeceram. Eu acordei durante a noite, ao ouvir latidos de cachorros. Ouvia como se algum animal estivesse mexendo nas panelas. Enxotei-o e voltei a dormir", conta.

Quem atacou a barraca durante a noite?

Acordei mais tarde ao ouvir fortes golpes do lado esquerdo da barraca. Na crença de que tivesse se soltado um lado, sai, constatando que estava apenas frouxo. Apertei as amarras novamente, e tornei a dormir", diz o chefe.

"Mais tarde", conclui Juan, "soubemos que o filho do Sr. Afonso (...), que sofria de problemas mentais, não gostou de nossa presença e foi quem golpeou a barraca".

No próximo capítulo: OVALE traz os detalhes do sábado, 7 de junho de 1985.

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