CLIMA

São Paulo começa a se preparar para El Niño severo

Por Claudinei Queiroz | Folhapress
| Tempo de leitura: 5 min
Divulgação/Governo de SP
El Niño causa temperaturas acima da média e favorece surgimento de incêndios
El Niño causa temperaturas acima da média e favorece surgimento de incêndios

Com as previsões dos institutos de meteorologia de que o El Niño deste ano deve ser um dos mais fortes da história, o Governo de São Paulo se antecipou e preparou novidades para enfrentar os impactos do período de estiagem deste ano, principalmente, as queimadas, que costumam proliferar nesta época de calor e tempo seco.

Uma das inovações é o Painel de Inteligência SP Sem Fogo, uma plataforma desenvolvida pela Defesa Civil para integrar dados meteorológicos, registros de ocorrências, mapas de risco e sistemas de monitoramento em tempo real. Com uso de inteligência artificial, a ferramenta permite priorizar focos mais críticos e agilizar o acionamento dos recursos necessários para resposta.

Outra novidade é o Muralha Paulista do Fogo, que permitirá ao CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências) utilizar câmeras públicas e privadas para acompanhar focos ativos de incêndio e ampliar a capacidade de tomada de decisão durante as ocorrências, como já é feito na segurança pública com o Muralha Paulista. No caso da Defesa Civil, serão integradas ao sistema as câmeras rodoviárias do DER-SP e de concessionárias da Artesp (Agência de Transporte do Estado de São Paulo).

Já o aplicativo Waze passará a disponibilizar um novo ícone na plataforma, no qual os motoristas poderão avisar quando passarem por um foco de incêndio ativo. A Defesa Civil receberá a informação e enviará equipes de combate.

Além disso, a SP Sem Fogo também terá monitoramento por satélite por meio do Sistema de Monitoramento e Alerta da Climatempo (Smac), capaz de identificar focos de incêndio ainda em estágio inicial.

Em outra frente de combate aos incêndios florestais, a Fundação Florestal ampliará o uso de inteligência artificial, sensoriamento remoto e ferramentas de ciência de dados para monitoramento de 24 unidades de conservação consideradas de alto risco para ocorrência de incêndios no estado.

As tecnologias incluem geração automatizada de mapas de severidade do fogo, dashboards operacionais, integração de plataformas de satélites nacionais e internacionais, uso de drones com câmeras termais e aplicativos móveis para registro georreferenciado de ocorrências em campo.

"O cenário climático exige preparação antecipada, integração entre os órgãos e uso intensivo de tecnologia. Estamos fortalecendo a operação SP Sem Fogo com inteligência, monitoramento em tempo real e ampliação da capacidade operacional dos municípios para reduzir riscos e responder de forma cada vez mais rápida aos incêndios", afirma o coordenador estadual de Proteção e Defesa Civil, coronel PM Rinaldo de Araujo Monteiro.

Essas novidades serão apresentadas nesta terça-feira (2) durante a reunião do comitê executivo da Operação SP Sem Fogo 2026, no Palácio dos Bandeirantes, na zona sul da capital. Participarão representantes das secretarias estaduais, órgãos integrantes do Sistema Estadual de Proteção e Defesa Civil e Defesas Civis municipais.

Segundo a NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional), órgão do governo dos EUA, o El Niño pode se tornar um dos eventos mais intensos das últimas três décadas. A previsão é que o planeta bata o recorde de 2024 de ano mais quente. Por isso, muitos estão chamando o fenômeno deste ano de Super El Niño, embora essa denominação não seja utilizada pelos meteorologistas.

Guilherme Borges, meteorologista da startup de monitoramento climático FieldPro, conta que os modelos meteorológicos na última atualização da NOAA, em maio, indicam a possibilidade de um evento muito forte entre novembro, dezembro e janeiro.

"Por volta do dia 10 de junho sai a nova atualização. Acredito que vai ser um dos mais importantes porque as águas na região do Pacífico equatorial, que indica a força do fenômeno, já começaram a aquecer. Acredito que em setembro vamos ter mais clareza sobre a intensidade de fato do fenômeno", diz Borges.

O meteorologista destaca que a NOAA mudou este ano a metodologia de classificação do El Niño, que agora é catalogado pelo Roni (Relative Oceanic Niño Index).

"A principal mudança é que agora eles não analisam apenas o aquecimento absoluto do Pacífico equatorial. Eles passaram a considerar também o aquecimento global dos oceanos tropicais. Em outras palavras, o Pacífico pode estar 2°C acima da média histórica, mas se o restante dos oceanos tropicais também estiver muito aquecido, o contraste atmosférico efetivo do El Niño pode ser menor", explica.

Borges conta que o órgão ajustou várias classificações históricas do fenômeno. O El Niño de 2023/2024, por exemplo, era considerado forte e agora foi rebaixado para moderado.

A NOAA mantém o registro do El Niño e da La Niña desde 1950. O evento mais forte já registrado foi entre 1982 e 1983, quando as águas do Pacífico ficaram 2,5°C acima da média histórica. Em 2023/2024, o maior registro foi de 1,5°C.

CLASSIFICAÇÃO DO EL NIÑO

Neutro: -0,4°C a +0,4°C

Fraco: +0,5°C a +0.9°C

Moderado: +1°C a +1,4°C

Forte: +1,5°C a +1,9°C

Muito forte: +2°C

Fonte: Roni/NOAA

Segundo Alexandre Nascimento, sócio-diretor e meteorologista da Nottus, o El Niño deve alcançar a categoria de muito forte entre o fim deste ano e o início do próximo.

"Entre seus principais impactos estão o aumento das chuvas na região Sul e a redução das precipitações no Nordeste e em parte da região Norte. Em São Paulo, os efeitos costumam estar mais relacionados ao aumento das temperaturas, que tendem a ficar acima da média, favorecendo a ocorrência de ondas de calor. As chuvas mal distribuídas, com possibilidade de temporais isolados, granizo e vendavais", afirma Nascimento.

Com essa perspectiva de cenário extremo, o Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) enviou um ofício à Casa Civil no dia 19 de maio mostrando preocupação com os efeitos do fenômeno nos biomas brasileiros, principalmente, amazônia e pantanal, onde ocorreram muitos incêndios em 2023 e 2024.

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