Entidades negam epidemia de micropênis e alertam sobre hormônios
Quatro das principais sociedades médicas do Brasil divulgaram nesta quarta-feira (25) uma nota conjunta de alerta à população sobre a disseminação de informações falsas nas redes sociais sobre a existência de uma "epidemia de micropênis" que incentivam pais a medirem o pênis de seus filhos em casa e, a partir disso, administrarem hormônios nas crianças sem acompanhamento médico.
O documento é assinado pela SBU (Sociedade Brasileira de Urologia), SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria), Sbem (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) e Cipe (Sociedade Brasileira de Cirurgia Pediátrica). Segundo as entidades, conteúdos enganosos têm circulado nas redes sociais induzindo famílias a um diagnóstico incorreto, frequentemente acompanhados de anúncios de terapias hormonais vendidas diretamente ao público.
"A gente não está passando por uma epidemia de micropênis, os casos não estão aumentando na população", afirma a urologista Veridiana Andrioli, coordenadora do departamento de urologia pediátrica da SBU. "Toda a literatura recente mostra que o tamanho da medida peniana ao longo das três últimas décadas tem sido muito estável."
Para Andrioli, a narrativa de aumento nos diagnósticos está associada à falta de conhecimento sobre a anatomia masculina, a erros na forma de medir o órgão e ao interesse comercial na promoção de terapias hormonais.
Além disso, quanto maior o peso, a idade e a circunferência abdominal da criança, maior a tendência de os pais avaliarem o pênis como menor do que realmente é.
A nota alerta que a medição fora de ambiente clínico não é recomendada por apresentar alta margem de erro, podendo gerar ansiedade nos pais e resultar em tratamentos indevidos. As entidades recomendam que qualquer avaliação do desenvolvimento genital masculino seja realizada exclusivamente por médicos especialistas.
O uso indiscriminado de hormônios na infância também pode provocar danos irreversíveis, como infertilidade futura, alterações no crescimento e desequilíbrios hormonais permanentes.
O crescimento do pênis segue um padrão bem definido, em que há aumento mais perceptível nos primeiros três a seis meses de vida, a chamada "minipuberdade", seguido de uma fase praticamente estável até o início da adolescência.
O desenvolvimento peniano depende da testosterona, que não é produzida em níveis significativos antes da puberdade. O primeiro sinal de que o corpo entrou nessa fase é o aumento dos testículos.
Como é feito o diagnóstico
O micropênis é uma condição clínica rara e complexa. A definição é de um pênis com formato habitual, mas com medida inferior a 2,5 desvios-padrão abaixo da média para a idade. Em um bebê de um ano, por exemplo, a média do comprimento peniano esticado é de cerca de 3,5 cm; um pênis de entre 2 cm e 2,5 cm nessa idade já levantaria suspeita clínica.
O diagnóstico correto envolve avaliação multidisciplinar, exame físico detalhado, análise do histórico de saúde e, quando indicado, exames laboratoriais e genéticos.
Muitos casos que geram preocupação nas famílias não são micropênis, mas sim o chamado "pênis embutido", em que o órgão fica escondido sob a gordura da região suprapúbica. Por isso, a recomendação é não comparar a anatomia da criança com a de outras e, caso haja discrepância evidente, buscar um especialista, sem tentar medir ou diagnosticar em casa.
O micropênis pode ter origem em alterações genéticas, cromossômicas e hormonais que, na maioria das vezes, se manifestam ainda na vida intrauterina, ou seja, o bebê já nasce com o desenvolvimento peniano comprometido. Entre as causas mais comuns estão síndromes genéticas como a de Klinefelter, disgenesia gonadal, defeitos na produção de enzimas e doenças como a hipoplasia de células de Leydig.
"Essas doenças genéticas, em geral, levam a alterações hormonais que resultam no micropênis", explica Ricardo Barroso, endocrinologista e diretor da Sbem em São Paulo. Ele reforça que dificilmente a própria família percebe a condição.
O micropênis pode ser funcional, com sensibilidade, ereção e relações sexuais na vida adulta. Quando há impacto, ele costuma ser mais psicológico, mas há tratamentos disponíveis, incluindo terapia hormonal ou, em casos específicos, procedimentos cirúrgicos. Barroso diz que quando o diagnóstico é feito por um especialista até os 2 anos de idade, é possível obter melhoras significativas.
As sociedades anunciaram que vão acionar o Ministério da Saúde, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e o Ministério Público para investigar condutas que contrariam a ética médica e colocam em risco o bem-estar de crianças e adolescentes.