Professor do Paraná cria 'escola' digital dentro do Minecraft
Durante o dia, Helton Álvares Gonçalves é professor de um colégio particular em Araucária, na região metropolitana de Curitiba. Durante a noite, o professor troca de profissão e vira o diretor de sua própria escola, a CraftSapiens -que só existe dentro do jogo Minecraft.
O projeto, criado em 2020, após Helton perder a mãe, começou como uma maneira dele se aproximar de seus alunos durante a pandemia, fazendo as aulas dentro do game. Com o sucesso inicial, ele aumentou o escopo e passou a utilizar o jogo para dar aulas gratuitas e interativas para jovens de diversas idades.
O objetivo da ação é aumentar o engajamento dos estudantes com o conteúdo escolar fora da sala de aula tradicional. A iniciativa acumula mais de 30 mil membros em seu Discord (plataforma utilizada como suporte para as aulas) e chegou a atender, no ano passado, em média, de 40 a 60 alunos por aula.
No Minecraft, o jogador tem a liberdade de criar qualquer coisa que desejar com o uso de cubos, um estilo de game conhecido como "sandbox". A ideia é usar a mecânica do jogo para auxiliar o professor a passar o conteúdo para os alunos.
A ferramenta permite que um professor de biologia, por exemplo, faça uma representação completa tridimensional do genoma do RNA do vírus SARS-CoV-2 (o coronavírus) para mostrar aos alunos.
De forma semelhante, Kelvin Santos, professor de português do projeto, costuma criar minijogos dentro do Minecraft. Um exemplo é o game do labirinto, no qual os jogadores devem procurar por letras para formar os termos aprendidos em aula. Veja abaixo uma aula em que os alunos formam as diferentes classes gramaticais.
Para João Pedro Pasqualetto, professor de química, o jogo facilita a representação de conceitos abstratos: "Dentro do jogo, a parte de química permite trabalhar bastante com elementos visuais. Por exemplo, podemos montar modelos atômicos utilizando blocos e representar estruturas para explicar conceitos como geometria molecular."
As aulas ocorrem por meio do servidor do Minecraft e do Discord, utilizado para permitir uma interação por voz entre o professor e os alunos. Além das atividades interativas, os docentes também preparam slides e os inserem dentro do jogo, para explicarem a matéria, de maneira similar ao que acontece nas aulas presenciais.
Para Claudia Maria de Lima, professora da Unesp especialista em métodos e técnicas de Ensino, a interação entre o jogo e o conteúdo ensinado é o principal triunfo de projetos como o CraftSapiens.
"Quando ele [o professor] leva para a especificidade do jogo, então, o jogo permite ensinar ondas e a gravidade, as relações de força que estão colocadas ali, ele faz com que esses estudantes se aproximem e queiram aprender, porque ele está falando na mesma linguagem", diz.
Isso permite que a sala de aula virtual crie um vínculo mais forte com o aluno do que o ensino tradicional, afirma Beatriz Fernandez, que dá aula de inglês e espanhol no projeto. "Eu percebo o encanto dos alunos, [...] por ter um professor que também utiliza esses materiais e conhece os termos de jogos e de coisas que fazem parte do mundo deles."
Os alunos do projeto entrevistados pela reportagem também relataram que os métodos interativos de aula ajudaram na absorção de conteúdo de uma forma que o ensino tradicional não conseguiu.
O projeto tem inclusive alunos de outros países, como é o caso do português David Guerreiro, 18. Ele entrou inicialmente no para participar do modo de jogo "geopolítico" (onde os jogadores simulam diferentes nações), mas acabou se interessando pelas aulas e hoje é parte do time que gere a iniciativa.
Enquanto a inclusão de modos de jogo recreativos no servidor pode se tornar um atrativo para alunos, ela também pode ser perigosa, diz Lima. Ela aponta que é importante acompanhar os jovens. "[Se não] algo que parece tão positivo, pode contribuir, por exemplo, para uma dependência de jogo."
Por isso, a equipe do projeto desincentiva que o jogador fique ativo por longos períodos. Certas modalidades, por exemplo, pausam depois das 22h e só podem ser retomadas no dia seguinte.
Além disso, há uma curadoria para garantir que todas as mecânicas usadas tenham um valor didático, diz o desenvolvedor Bryan Munaretto Zauza: "O desafio é criar mecânicas onde o aprendizado é o jogo, não um anexo dele. Quando o aluno constrói algo no Minecraft para demonstrar que entendeu um conceito, ele não está 'respondendo uma prova disfarçada', ele está jogando e aprendendo."