PREÇO CAI TAMBÉM?

Patente do Ozempic e do Wegovy cai nesta sexta-feira (20)

Por Geovana Oliveira | da Folhapress
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A patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, vence nesta sexta-feira
A patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, vence nesta sexta-feira

A patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, vence nesta sexta-feira (20). A exclusividade na fabricação dos medicamentos era da farmacêutica Novo Nordisk. Agora, outras empresas poderão produzir e comercializar medicamentos com a mesma substância no Brasil, desde que autorizadas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). A expectativa é de queda nos preços de até 35%, segundo projeção da EMS, uma das empresas interessadas em produzir a versão nacional.

Mas o que muda, de fato, para o paciente? Segundo especialistas, por enquanto, não é muito.

Quando os simalres chegam às farmácias?

A mudança não acontece de imediato. A Anvisa recebeu 12 pedidos de registro de semaglutida e analisa atualmente as propostas de dois concorrentes da Novo Nordisk: EMS e Ávita Care. Há ainda um pedido de semaglutida em exigência técnica no momento, ou seja, aguardando dados para seguir para análise.

Neuton Ornelas, presidente da Sbem (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia), acredita que os primeiros lançamentos devem ocorrer ainda no primeiro semestre, mas podem demorar meses para chegar às farmácias. "Não vai ser no dia seguinte", afirma o presidente da Sbem.

O médico espera que a chegada de novos fabricantes resolva um problema vivido pelos pacientes: a falta do medicamento nas prateleiras. O Ozempic chegou a sumir das farmácias brasileiras em alguns períodos, e a maior oferta de produtores deve reduzir esse risco. "A gente espera que haja mais abastecimento", diz o presidente da Sbem.

O preço vai cair de verdade?

O histórico de outros medicamentos mostra que a queda de preço após o fim de uma patente não é garantida. Alexandre Hohl, diretor da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica), lembra dois casos opostos.

O primeiro é o da atorvastatina, vendida como Lipitor para controlar o colesterol. Quando a patente expirou, em 2011, os preços despencaram com a entrada de genéricos, tornando o tratamento acessível a muito mais pessoas. O diretor da Abeso diz que isso transformou a saúde pública.

O segundo caso é mais próximo e menos animador. A liraglutida, outra caneta emagrecedora vendida como Saxenda, teve redução pequena de preço após o fim da patente. Os similares custam quase o mesmo que o produto original: o Saxenda é vendido entre R$ 870 e R$ 1.150, enquanto o Olire, versão da EMS, fica em torno de R$ 760. Uma diferença de 15% a 20%, que se dilui ainda mais quando o Saxenda é encontrado com descontos acima de 30%.

No momento, a Anvisa tem oito pedidos de registro de liraglutida, além da versão da EMS. Um deles já está em análise.

Para Hohl, a aprovação regulatória é só o primeiro passo. Será na prática clínica, no acompanhamento real dos pacientes, que se saberá se o medicamento ficou genuinamente mais acessível e se manteve a mesma efetividade.

O diretor da Abeso espera que o caso da semaglutida e de outros remédios para obesidade se aproxime do que aconteceu com os medicamentos para colesterol. Segundo ele, seria muito benéfico à saúde pública tornar acessível um remédio que além de tratar diabetes e obesidade, também reduz o risco de infarto e AVC e pode beneficiar pacientes com esteatose hepática (acúmulo de gordura no fígado).

Os novos remédios funcionam igualmente?

A semaglutida é produzida por um processo biológico, não sintético. Por isso, os novos medicamentos biológicos são chamados de biossimilares, e não de genéricos. Produtos biológicos podem ter pequenas variações entre si, como acontece com as insulinas. Mas, se aprovados pela Anvisa, são considerados seguros e eficazes, explica Ornelas.

Entretanto, a maioria dos pedidos submetidos à Anvisa são de "análogos sintéticos" que são considerados medicamentos sintéticos novos, segundo a autarquia. Esses produtos podem ser registrados com um grande conjunto de ensaios comparativos ao produto biológico, mas não são genéricos nem similares.

Para quem já usa o Ozempic e pensa em migrar para outro remédio de semaglutida, Ornelas diz que a troca é possível, mas deve ser feita com acompanhamento médico. O presidente da Sbem reconhece que podem existir pequenas nuances na adaptação ao novo produto. "O tempo vai dizer", afirma, ressaltando que cada caso depende da avaliação do médico responsável.

Hohl lembra que alguns remédios deixam claro que a resposta varia em cada caso. Com diversas versões no mercado do sildenafil, princípio ativo do Viagra, diz, alguns pacientes relataram não notar diferença em relação ao original, enquanto outros disseram que o efeito foi menor.

E o SUS?

A obesidade é a única doença crônica sem nenhum medicamento disponível no SUS (Sistema Único de Saúde). A Abeso entrou com pedido à Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias) no ano passado para incorporar a liraglutida ou a semaglutida ao sistema público, mas o pedido foi negado pelo alto custo.

A chegada de concorrentes acende uma esperança. Com mais fabricantes e preços menores, tanto a Sbem quanto a Abeso acreditam que o governo pode ter mais condições de avaliar a inclusão da substância no SUS. "A concorrência deve contar para que o governo considere incluir essa medicação", diz Ornelas.

Não foi uma quebra de patente

É importante distinguir o que aconteceu. A patente da semaglutida não foi quebrada pelo governo. O prazo de proteção simplesmente se encerrou, o que é juridicamente diferente. Ornelas explica que, a partir desta sexta-feira, a Novo Nordisk não tem mais exclusividade sobre a substância. "Venceu o prazo. Não é quebra", diz.

A distinção importa porque, em paralelo, há uma movimentação no Congresso para quebrar a patente da tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro. Esse processo continua em curso e sem desfecho certo.

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