O aumento dos casos de feminicídio em Campinas e na região foi o primeiro grande alerta feito pelo novo diretor do Deinter-2, delegado Oswaldo Diez Júnior, durante entrevista ao FPX Cast/PodConecta, podcast apresentado por Flávio Paradella, editor do Portal Sampi Campinas. Ao analisar esse tipo de crime, o delegado classificou o fenômeno como complexo e afirmou que o enfrentamento vai além da atuação policial.
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“O crime de feminicídio é multifatorial. Ele acontece na intimidade do lar, dentro de quatro paredes, muitas vezes”, afirmou. Segundo ele, o endurecimento da legislação trouxe avanços importantes. “Veio dar um pouco mais de munição para que a polícia possa agir”, disse, lembrando que antes “era lavrado um boletim de ocorrência de lesão corporal e os dois voltavam para o mesmo lar”.
Diez Júnior defendeu a importância das medidas protetivas. “Eu defendo a medida protetiva porque ela foi um avanço”, afirmou, ressaltando que hoje há instrumentos para prisão imediata. “Se um juiz determina o afastamento do lar, determina que não se aproxime da vítima, e a pessoa tenta fazer esse ato, hoje, se fizer um ato desse, ele vai preso em flagrante”.
Para o delegado, no entanto, a prevenção exige um esforço mais amplo. “Eu acho que é um desafio para a sociedade”, disse. Ele apontou fatores como alcoolismo, drogas e saúde mental. “A saúde mental de muitas pessoas tem que ser analisada”, afirmou, defendendo ações na educação. “A gente tem que ter essas discussões nos bancos escolares. Eu acho que começa ali, na educação”.
Prisão, leis e debate sobre menores
Integração como método, não como discurso, defende o novo diretor (Divulgação/PMC)
Outro ponto central da entrevista foi a crítica ao modelo penal brasileiro e ao debate recorrente sobre impunidade. Diez Júnior afirmou que a discussão precisa ser feita de forma direta. “A legislação é suficiente para coibir esse tipo de crime? A sensação de segurança está ocorrendo na nossa população com essa legislação que nós temos?”, questionou.
Ele também rejeitou a ideia de conflito entre polícia e Judiciário. “A polícia prende conforme a lei e o judiciário solta conforme a lei”, disse. “O juiz também está dentro da sua discricionalidade”.
Ao abordar a responsabilização de adolescentes, o delegado foi direto. “Do jeito que está, está errado”, afirmou. Para ele, não há coerência no modelo atual. “Não tem cabimento um adolescente de 15, 16, 17, com todo o conhecimento que a grande maioria tem, não ser responsabilizado por crimes bárbaros, estupro, latrocínio, homicídio”.
Diez Júnior relatou uma experiência concreta vivida em Campinas, quando defendeu a apreensão de adolescentes envolvidos no tráfico. “Quando tinha adolescentes envolvidos na mercancia do tráfico, ele era apreendido, não era devolvido”, disse. Segundo ele, a mudança produziu efeito direto no território. “O gerente (do tráfico) começou a reclamar… ‘eu estou com dificuldade de contratar mão-de-obra’”, relatou, apontando impacto real sobre a dinâmica do crime.
Crime organizado e crime do cotidiano
Ao falar sobre segurança pública na região, o delegado afirmou que o combate ao crime organizado é inevitável. “O crime organizado tem que ser combatido. Isso inevitavelmente”, disse, citando ações que afetam milhares de pessoas ao mesmo tempo. “Tivemos recentemente roubos no shopping, onde uma ação apenas impactou ali milhares de pessoas”, afirmou. Em novembro do ano passado, um assalto a uma joalheria no Shopping Iguatemi de Campinas teve tiroteio, pânico, bandidos baleados e um suspeito morto..
Mas ele fez questão de destacar o peso do chamado crime do cotidiano. “Mas nós não podemos deixar também de lado o crime do cotidiano”, disse. Para Diez Júnior, a linguagem técnica muitas vezes ignora a realidade da população. “O que é um pequeno roubo para um especialista de segurança é o celular da vida do trabalhador”, afirmou.
O mesmo vale para o tráfico local. “O pequeno traficante… é o terror no bairro onde ele exerce aquela mercancia ilícita”, disse, citando situações em frente a residências e escolas. “A população não pode ficar à mercê daquele indivíduo que está lá vendendo droga na porta da casa do pai de família. Na frente de escola”.
Integração e combate ao roubo de carga

Delegado foca enfrentar tanto o crime organizado quanto o que chamou de “crime do cotidiano” (Divulgação/CPI-2)
Na sequência, Diez Júnior detalhou sua experiência à frente do Procarga, na Secretaria de Segurança Pública, e defendeu a integração como base dos resultados. “Eu sempre acreditei que uma polícia isolada, sozinha, ela não consegue resolver tamanho problema que é a segurança pública”, afirmou.
Ele explicou que o roubo de carga impacta diretamente o custo de vida. “Quando existe o aumento do roubo de carga, consequentemente aumenta o valor do seguro, consequentemente aumenta o valor do frete”, disse. “O alimento aumenta, o consumidor vê aquele aumento na gôndola”.
Segundo o delegado, a atuação conjunta permitiu identificar inclusive fraudes. “Detectamos algumas fraudes… a falsa comunicação de crime como se fosse um roubo”, afirmou. O trabalho de inteligência também permitiu entender o foco das quadrilhas. “Muitas vezes o objeto não era a carga, mas o caminhão. E a carga vinha como brinde daquela ação criminosa”.
O resultado, segundo ele, foi histórico. “Hoje nós temos o menor índice da história do estado de São Paulo no roubo de carga”, disse, reforçando que “não foi um ato isolado”, mas “uma união de forças com todas as forças de segurança”.
Os roubos de cargas atingiram o menor número desde 2001 no estado de São Paulo, com 3.470 casos registrados ao longo de doze meses. O índice representa uma queda de 26,3% em relação aos 4.711 casos contabilizados em 2024.
Tecnologia, déficit e prioridades
Diez Júnior reconheceu o déficit histórico de efetivo, mas destacou o papel da tecnologia. “O que veio ajudar bastante essa questão funcional foi a tecnologia”, afirmou, citando “DNA, reconhecimento facial, as câmeras” como ferramentas de padrão internacional.
Sobre reposição de pessoal, afirmou que o processo é lento. “A reposição não é rápida, ela não é fácil”, disse, mencionando concursos, formação e entraves jurídicos.
Ao encerrar, o delegado afirmou que o foco será amplo. “Desvendar os crimes bárbaros, mas também colocar as mãos nos pequenos traficantes, nos pequenos roubadores, nos pequenos furtadores”, disse. “Pequenos para alguns e um monstro para outros”.
Ele também destacou a cobrança cotidiana por ser de Campinas. “Eu sou daqui, eu vou na padaria, eu vou no clube, eu sou cobrado”, afirmou. “É todo dia, é todo dia”.
Por fim, reforçou a relação com a imprensa. “A imprensa tem que ser livre, a imprensa tem que ser transparente. Na democracia verdadeira, é assim que funciona”.
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