INVESTIGAÇÃO

Perícia descarta queda e confirma agressões no caso Henry Borel

da Folhapress
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Brunno Dantas/TJ-RJ
O ex-vereador Dr. Jairinho em interrogatório no Tribunal de Justiça do RJ
O ex-vereador Dr. Jairinho em interrogatório no Tribunal de Justiça do RJ

O laudo sobre a morte do menino Henry Borel aponta que as lesões encontradas no corpo do menino de 4 anos são incompatíveis com qualquer tipo de queda e afasta a tese de morte por acidente doméstico. Uma reprodução simulada do caso foi incluída no documento e confirma que ele sofreu agressões múltiplas.

Ministério Público do Rio de Janeiro juntou reprodução simulada ao processo hoje. O novo laudo, com a reconstituição do crime, foi elaborado pela Divisão de Evidências Digitais e Tecnologia. A perícia utilizou modelagem em 3D e técnicos concluíram que a morte do menino não foi um acidente.

A investigação descartou totalmente a versão de que Henry teria caído da cama. Segundo o documento, a disposição dos móveis e a altura dos objetos não seriam capazes de causar a quantidade e a gravidade dos ferimentos identificados. A perícia demonstrou que, mesmo em quedas de diferentes alturas simuladas, o corpo não apresentaria os traumas verificados.

O laudo detalha que o menino foi vítima de uma sucessão de ações agressivas. A violência teria provocado hemorragia interna. Mãe e padrasto do menino são réus pela morte.

Defesa de Jairo Souza Santos Junior, padrasto de Henry, disse que a acusação usa "elementos técnicos parciais e incompletos". Sem como, o advogado Rodrigo Faucz disse ainda que foram criadas "imagens apelativas" e ignoradas "as provas técnicas que desmontam essa versão".

A defesa de Monique Medeiros, mãe do menino, foi procurada, mas não respondeu. O texto será atualizado em caso de retorno.

"Apesar de tudo, continuamos confiando no judiciário para garantir um julgamento justo e imparcial", diz Faucz.

Julgamento marcado para março

A Justiça do Rio de Janeiro negou na semana passada um pedido de suspensão urgente do processo. Com isso, manteve o julgamento de Jairinho e Monique pela morte de Henry para 23 de março.

Defesa de Jairinho queriam a suspensão cautelar do processo devido a "ilegalidades". A defesa argumentou que precisava de investigação complementar a respeito de provas periciais e digitais que baseiam a acusação.

"A submissão do paciente a um julgamento popular, na esfera do Tribunal do Júri com base em provas manifestamente ilegais e contaminadas, configura um dano irreparável e iminente à sua liberdade e dignidade", disseram os advogados na solicitação, à qual a reportagem teve acesso.

O advogado Rodrigo Faucz contesta a perícia realizada no corpo de Henry após a morte. Ele argumenta que o exame de necropsia durou apenas 44 minutos, tempo que considera cientificamente insuficiente para ter rigor em uma conclusão. Além disso, o perito médico-legista não teria estado no IML quando assinou o segundo e o terceiro laudos complementares, e em férias quando produziu outros documentos importantes.

Segundo a defesa de Jairinho, as fotos do corpo da criança também teriam origem suspeita. Faucz alega que as imagens apareceram no processo mais de 40 dias após o óbito, com ausência de metadados -o que impede a verificação da autenticidade-, e sem autoria, já que o perito teria afirmado não saber quem as tirou.

A Justiça entendeu que não seria necessária a suspensão apesar de entender que as contestações devem ser analisadas. O desembargador Joaquim Domingos de Almeida Neto, da 7ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça da capital, entendeu que há tempo suficiente para uma análise profunda dos pontos levantados antes da data do Júri, dispensando "urgência extrema".

Relembre o caso

Henry Borel morreu em 8 de março de 2021. Segundo a polícia, a criança sofreu 23 lesões por "ação violenta". A causa da morte foi hemorragia interna e laceração hepática causada por uma ação contundente, afirma o laudo.

No dia da morte, o menino foi levado pela mãe Monique Medeiros e Jairinho ao hospital. Ambos alegaram que ele havia sofrido um acidente doméstico. Segundo o MP, porém, Henry foi morto por motivo torpe, já que Jairinho acreditava que o menino atrapalhava a relação do casal.

Jairinho está proibido de exercer a medicina desde junho de 2021. Em março de 2023, o Cremerj (Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro), por decisão unânime, cassou o registro profissional dele, mas sua defesa recorreu ao CFM. Agora, com a decisão do Conselho Federal, que confirmou a posição do Cremerj, Jairinho não pode mais recorrer junto ao órgão que regula o exercício da profissão.

Justiça também cassou o mandato de Jairinho. O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro negou, por unanimidade, recurso do ex-vereador para retomar seu mandato na Câmara fluminense. Ele foi cassado em 2021 por "quebra de decoro parlamentar" ao ser acusado pela morte do enteado.

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