VENEZUELA

Quem é Hector Flores, chefe do 'CV venezuelano' acusado nos EUA

da Folhapress
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Héctor Rusthenford Guerrero Flores, conhecido como 'Niño Guerrero', é apontado como o principal líder do cartel venezuelano Tren de Aragua
Héctor Rusthenford Guerrero Flores, conhecido como 'Niño Guerrero', é apontado como o principal líder do cartel venezuelano Tren de Aragua

Héctor Rusthenford Guerrero Flores, conhecido como "Niño Guerrero", é apontado como o principal líder do cartel venezuelano Tren de Aragua e figura central nas denúncias dos Estados Unidos contra o governo de Nicolás Maduro.

Flores é considerado o chefe máximo do Tren de Aragua, organização criminosa surgida nas prisões da Venezuela e que se espalhou pela América Latina. Seu nome está incluído entre os acusados pelo governo dos EUA de envolvimento em crimes de narcoterrorismo, tráfico internacional de drogas e lavagem de dinheiro.

Ele começou sua trajetória como líder da penitenciária de Tocorón, onde consolidou seu poder e expandiu a influência do grupo. Ele transformou a prisão em base de operações e estruturou o cartel com hierarquia rígida, armas de guerra e controle sobre negócios ilícitos.

O Tren de Aragua diversificou atividades, atuando em tráfico de drogas, armas, pessoas, extorsão e exploração sexual. O cartel montou alianças com outros grupos criminosos, como o PCC do Brasil, e opera em países como Colômbia, Peru, Chile e Bolívia.

O cartel trabalha com alianças com organizações menores. Segundo Roberto Briceño León, diretor do OVV (Observatório Venezuelano da Violência), o Tren de Aragua tem uma organização "vertical". "Eles trabalham em alianças, como franquias: usam o emblema, o nome, o terror que inspiram e recrutam pessoas localmente", enquanto recebem "apoio logístico" da Venezuela.

"É um modelo que eles copiam de algumas facções no Brasil, como o Comando Vermelho. Garantem fidelidade, apoio e ao mesmo tempo recebem tributos", afirma León.

A atuação internacional do cartel levou Flores e seus aliados a serem procurados pela Interpol e autoridades de vários países. O irmão de Flores, Jason Robert Guerrero Flores, também figura entre os chefes do grupo e foi preso na Espanha por crimes de terrorismo, tráfico e lavagem de dinheiro.

Flores ainda é procurado

Flores é descrito por autoridades como responsável por transformar o Tren de Aragua de uma gangue prisional em uma rede criminosa transnacional. Ele é acusado de chefiar operações violentas, controlar rotas de tráfico e utilizar armamento pesado para manter a influência do cartel.

Nos EUA, o nome de Flores aparece ao lado de políticos e militares ligados a Maduro, em denúncias de corrupção e tráfico de drogas. O Departamento de Justiça dos EUA afirma que Flores e outros líderes usaram a Venezuela como plataforma para enviar toneladas de cocaína aos país. A acusação envolve também suposta colaboração com as FARC e outros grupos armados da região.

Apesar de operações policiais, Flores segue foragido. O governo dos Estados Unidos oferece recompensa de até US$ 5 milhões por informações que levem à captura do venezuelano e declarou o Tren de Aragua uma organização terrorista global. As sanções também incluem bloqueio de bens e restrição de circulação.

Tren de Aragua seria 'braço armado' de Maduro no exterior

A HRF (Human Rights Foundation) acusa Maduro de usar o Tren de Aragua para perseguir e eliminar dissidentes fora da Venezuela. Segundo a entidade, evidências da Promotoria do Chile indicaram que o sequestro e assassinato do ex-tenente venezuelano Ronald Ojeda, em fevereiro de 2024, foi um crime político ordenado por Caracas e executado por membros do grupo criminoso.

Ojeda, asilado político no Chile desde 2023, foi sequestrado em Santiago por homens que se passaram por policiais. Ele teve o corpo encontrado dias depois, esquartejado, dentro de uma mala envolta em concreto. As autoridades chilenas prenderam ao menos 19 suspeitos em diferentes países e classificaram o caso como um assassinato político ordenado pelo Estado venezuelano, apontando que não havia indícios de crime comum. O caso foi comunicado ao TPI (Tribunal Penal Internacional).

A HRF afirma que o Tren de Aragua atua há anos com a conivência do regime venezuelano e que o grupo teria sido cooptado como instrumento de repressão política. Segundo a entidade, o grupo inclusive contra opositores no exterior. A organização elogiou a investigação chilena e defende maior coordenação internacional para proteger dissidentes e responsabilizar autoridades venezuelanas envolvidas em crimes de repressão transnacional.

Acusação ao lado de Maduro

Procurador dos EUA apresentou quatro acusações formais para indiciar Maduro, Flores e outros quatro por crimes ligados ao "narcoterrorismo". Além do presidente venezuelano e do chefe do cartel, foram indiciados na mesma ação a esposa e o filho de Maduro, Cilia Flores e "Nicolasito"; o Ministro do Interior, Justiça e Paz da Venezuela, Diosdado Cabello; e o ex-ministro Ramón Rodríguez Chacín, da mesma pasta.

Eles são indiciados por suposta conspiração que usaria a Venezuela como plataforma para o tráfico de drogas internacional. "Por mais de 25 anos, os líderes da Venezuela abusaram de seus cargos de confiança pública e corromperam instituições antes legítimas para importar toneladas de cocaína para os Estados Unidos", diz a ação assinada pelo procurador Jay Clayton e divulgada pelo Departamento de Justiça norte-americano, sem data especificada.

Documento não apresenta provas ou indícios dos crimes alegados. A ação registra apenas acusações que relacionam Maduro, seus familiares, aliados e "Niño Guerrero" à uma "conspiração narcoterrorista" internacional que supostamente beneficiava a família do líder venezuelano e grupos criminosos ligados ao tráfico de drogas.

Nicolás Maduro Moros, o réu, está na vanguarda dessa corrupção. (...) Desde seus primeiros dias no governo venezuelano, Maduro manchou todos os cargos públicos que ocupou (...), permitindo que a corrupção alimentada pela cocaína florescesse para seu próprio benefício, para o benefício de membros de seu regime governante e para o benefício de seus familiares. Trecho do indiciamento

Quais são as acusações formais contra o grupo?

1. "Conspiração narcoterrorista". O indiciamento aponta que Maduro, junto ao ministro Diosdado Cabello e o ex-ministro Ramón Rodríguez Chacín, "combinaram, conspiraram e confederaram" para traficar grandes quantidades de cocaína para os Estados Unidos em conchavo com organizações criminosas internacionais como as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o Tren de Aragua.

2. "Conspiração de importação de Cocaína". A segunda acusação é voltada aos seis integrantes do grupo, incluindo a esposa e o filho de Maduro. Nela, o procurador afirma que os indiciados planejaram e participaram de um esquema internacional para produzir, transportar e enviar cocaína ilegalmente aos Estados Unidos, tendo a Venezuela sido usada como plataforma de trânsito e proteção para essas remessas.

3. "Posse de metralhadoras e dispositivos destrutivos". O procurador também acusa o grupo de utilizar ou portar armas de fogo, além de "auxiliar e instigar" o uso, porte ou posse de armamentos para garantir o funcionamento do suposto esquema criminoso que envolvia o tráfico de drogas aos EUA.

4. "Conspiração para posse de metralhadoras e dispositivos destrutivos". Por fim, a acusação alega que os indiciados conspiraram para possuir "metralhadoras capazes de disparar automaticamente mais de um tiro" e outros dispositivos destrutivos, usados em prol do suposta esquema de tráfico internacional de cocaína descrita nas demais acusações.

Se condenados, réus deverão entregar aos EUA bens ligados, direta ou indiretamente, aos crimes praticados. Ainda conforme o indiciamento, eles deverão entregar ao governo dos norte-americano qualquer propriedade ou bens destinados a cometer, facilitar ou viabilizar os crimes descritos nas acusações.

"Em breve, eles enfrentarão toda a severidade da justiça americana em solo americano, em tribunais americanos", divulgou procuradora-geral americana. Pam Bondi, porém, não deu detalhes sobre quando o julgamento aconteceria e tampouco apresentou provas da relação do líder da Venezuela com os crimes citados.

Mais cedo, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, acusou Maduro de "levar drogas aos EUA". Também sem apresentar evidências, ele afirma que o líder venezuelano é "chefe do Cartel de Los Soles, uma organização narco-terrorista que tomou posse de um país" - o que Maduro nega.

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