
"A descoberta de um novo prato faz mais pela felicidade do homem do que a descoberta de uma estrela"
Jean Brillat-Savarin, escritor francês
O cronista gastronômico Júlio Bernardo, o Jotabê, tão verdadeiro quanto ácido em suas resenhas, costuma dizer que existe comida “de passagem”, gostosa, boa, reconfortante, mas que só vale a pena se você estiver perto do restaurante. Algumas outras, por razões afetivas ou pela extrema qualidade, muito mais raras, são experiências que “valem a viagem”. São restaurantes ou bares especiais, não necessariamente luxuosos ou caros, que para aqueles que valorizam uma boa mesa, num ambiente autêntico, são destinos em si mesmo. Para conhecê-los, vale a pena se programar e até empreender uma viagem.
Nos últimos anos, tenho rodado muito pelo interior de São Paulo por conta de minhas atividades como CEO da rede Sampi de Portais. Conheci incontáveis lugares interessantes, e não faltam boas opções para se comer bem em qualquer cidade paulista, das menores às maiores. Mas há alguns restaurantes que alcançam notas maiores e proporcionam experiências únicas, capazes de emocionar – e de fazer valer a pena pegar o carro e enfrentar a estrada para “descobrir”
Pretendo, neste texto, listar alguns lugares que você normalmente não pensaria em ir, a não se que já conhecesse, ou que fosse convidado por alguém que conhece, mas que justificam plenamente a jornada.
Comecemos com a Choppi, casa improvável comandada por um chef improvável num lugar mais improvável ainda. Fica na pequenina Santa Branca, cidade de pouco mais de 13 mil habitantes no Vale do Paraíba, a 40 km de São José dos Campos. Engenheiro de formação, Mauricio Felippi, o chef e dono, é gourmand que sempre valorizou a boa mesa. Aposentado, resolveu converter-se em gourmet e abrir em Santa Branca um restaurante para chamar de seu. Ignorou os conselhos de quem o advertiu de que a cidade era muito pequena, o acesso nem de longe dos mais fáceis, e meteu marcha no seu sonho. Abriu ali a Choppi. Usou seus conhecimentos de engenheiro para uma missão ousada. Oferecer o melhor chope do Brasil. Podem acreditar, conseguiu.
Mauricião, como é chamado pelos amigos, fez modificações e ajustes na chopeira, pesquisou jeitos de garantir o resfriamento perfeito, comprou copos (calderetas, na verdade) de cristal e serve um chope tão cremoso, tão perfeito, que a simples tentativa de descrevê-lo é pecado mortal. Alcançou um nível de excelência tão grande que, após conquistar por anos sucessivos o prêmio de “melhor do Brasil” conferido pela Real Academia do Chope da Ambev, foi gentilmente convidado a não participar mais da disputa. Não precisa. Quem conhece sabe que, títulos à parte, o que sai das torneiras da Choppi é mesmo o melhor do Brasil. Impossível não tomar pelo menos meia dúzia.
Além do chope, Mauricião inventou um parmegiana assado, feito no forno a lenha, que é um espetáculo. Acompanhado por arroz branco (e batatas fritas impecáveis, que precisam ser pedidas à parte), mais do que justifica a ida a Santa Branca. Tem ainda boas pizzas e petiscos. Para completar, figura simpaticíssima que fica todo o tempo no salão com sua mulher, Rosana, o Mauricião ainda é louco por basquete e fã de Hélio Rubens e Fausto Gianecchini. Fui lá levado por um dos seus grandes amigos, Fernando Salerno, do portal OVALE e também diretor da Sampi. Com o Fernando, aprendi dois segredos que valem ouro. O primeiro, tente conseguir a mesa do deck, que garante uma brisa fresca e vista para serra. O segundo, com muito jeitinho, peça para ele abrir um pouquinho antes do horário para você. Acredite, são razoáveis as chances de o Mauricião concordar. E assim, você terá a companhia dele e da mulher, ouvirá muitas histórias e ainda terá o prazer de tomar o melhor chope da sua vida de um jeito único.
De lá, hora de seguir para Campinas. Metrópole, Campinas tem de tudo. Se você quiser provar comida tailandesa, tem. Vietnamita, também. Churrasco coreano? Fácil. Árabe, francesa, chinesa, japonesa, mexicana, peruana... Não importa o que te dê vontade, é fácil encontrar em Campinas. Mas comidas capazes de emocionar, é outra história.
Quem consegue despertar isso é Jurandir Meirelles, chef e dono do restaurante Único, na rua Coronel Quirino, coração do Cambuí. Autodidata, começou cedo na cozinha, aos 13 anos, mas seus grandes anos de formação foram na brigada do Fasano e do Gero, icônicas casas de Rogério Fasano na Capital. Ali aprendeu muito, apurou o paladar e as técnicas e entendeu o valor de um serviço de excelência. Também foram fundamentais os dois anos que passou na Itália. No Único, que inaugurou em 2019, Jurandir oferece uma cozinha italiana autêntica, sem invencionices, com respeito absoluto ao ingrediente e às técnicas tradicionais. As massas, fresquíssimas, sempre, são produzidas no próprio restaurante, todos os dias.
O Fettucine alla Diávola é um clássico absoluto. Massa perfeita, molho de tomate rústico com linguiça apimentada, traz um conforto na alma que só Deus explica. O ravioli de ricota cremosa, idem, com a vantagem de te fazer sentir também no paulistano Gero sem pagar um rim por isso. Igualmente impecácel, a costela assada lentamente no forno à lenha, servida com batatas rústicas, é puro deleite. E, se você gosta de ousar, vale perguntar para o garçom se eles têm vôngole. Não é sempre, mas às vezes você dá sorte. Se a resposta for positiva, peça o linguine alle vôngole para você comer como se estivesse em Veneza.
Não importa o que tenha pedido de prato principal. Ignore todas as tentações das sobremesas para se concentrar numa única opção para fechar a experiência com chave de ouro: o soufflé de chocolate. É absolutamente fantástico, perfeito, uma leve crosta que esconde o recheio levíssimo e cremoso. Acredite em mim: vale a pena cada caloria. Se você quiser gastar menos, troque o jantar pelo almoço, onde há sempre opções de pratos executivos com preços atrativos. Se o bolso não for problema, prefira o jantar e invista na adega, que é ótima, com excelentes rótulos e preços nem tão excelentes assim.
Também em Campinas, há os excepcionais Osti, com uma incrível oferta de frutos do mar fresquíssimos, inclusive ostras, servidas in natura ou gratinadas, e um polvo grelhado espetacular, e o recém inaugurado Gavio, italiano moderno, lindo. Ali, vale muito a pena a entrada de fritada de frutos do mar (camarões, lula, peixe, servidos como se fossem um tempurá) e as massas, todas, impecáveis, apesar de porções excessivamente comedidas.
Ainda na Capital do Interior, há dois bares com propostas totalmente diferentes, mas que valem muito a sua visita. O primeiro, Seo Rosa Gramado, um dos mais bonitos que já vi – no mundo. Grande, é dividido em várias áreas, o que garante um ambiente acolhedor e razoavelmente intimista, apesar do tamanho. Se conseguir e não for alérgico à fumaça de charutos, sempre presentes, fique nas mesas da área externa, onde vai se sentir num filme passado em Nova Iorque. Não deixe de pedir um drink clássico, como o Negroni, impecável, ou bons Mojitos e Old Fashions. Da cozinha, sai um cheeseburguer delicioso. E as pizzas, de borda fina e cortadas em formato aperitivo, são rápidas e ótimas para compartilhar.
O outro bar é o Facca, botecão tradicional, localizado em plena rua Conceição, no Centro, que não erra – em nada. Para começar, tem mesas na calçada, de madeira. Plástico não entra ali, para sorte de quem não pesa 60 kg nem sofre de mau gosto agudo. O chope é excelente, servido a seu gosto (mais colarinho, menos, normal, black). Os petiscos, maravilhosos. Vale muito a pena provar a porção de pastéis mistos e o bolinho de bacalhau. Imperdíveis os lanches, servidos todos à moda campineira, numa espécie de mini baguete semicortada em pedaços perfeitos para mordiscar e dividir. Os melhores são o boxixo (rosbife, provolone, azeitonas pretas, tomate e rúcula) e o Facca (pernil, aliche e queijo prato). Em qualquer coisa que pedir, acrescente umas gotinhas da pimenta da casa, saborosíssima. Vá sem pressa, aproveite a vista do Centro e sinta-se transportado para o Rio de Janeiro... dos anos 50.
De volta à estrada, se não conhece, é hora de suprir esta lacuna agora e fazer uma parada no km 183 da rodovia Anhanguera, em Leme, pertinho também de Limeira e Pirassununga. Fica ali o Rancho Empyreo, um restaurante suíço no meio do nada que serve o melhor croquete do mundo. Fundado nos anos 60, é tocado até hoje pela mesma família, os Goetachi. Quem dá as cartas é a neta, Cristina, muito simpática. Os croquetes, feitos de acém e fritos um a um, na hora, derretem na boca. Há dias que tenho vontade de pegar a estrada só para ir lá comer croquete. Também há bons filés, salsichas (servidas com mostarda, claro) e um churrasquinho no pão francês, com queijo, que vai tocar seu coração. No final, ainda vale a pena pedir um strudel (tradicional torta de maça alemã) e levar para casa um pacotinho de bricelets (bolachas fininhas, amanteigadas, deliciosas).
Em Bauru, cidade que deu origem ao nome do lanche que foi criado, na verdade, no Ponto Chic, em São Paulo, há muitas casas que oferecem o “verdadeiro”. São boas, mas nem se comparam ao original. Ali, o negócio mesmo é bater ponto no Bar do Português. Recomenda-se ânimo, porque são muito grandes as chances de topar com o lugar lotado. Não desista. A espera não é longa, as mesas giram rápido e o serviço é excelente, como me mostrou o amigo Marco Oliveira, do portal JCNET e também diretor da Sampi.
Se a casa tem origem portuguesa, vá no óbvio, sempre infalível. Peça uma porção de bolinhos de bacalhau, perfeitos, suculentos e sequinhos, o que não é fácil, e acompanhe com cremosíssimo chope (lembram da Choppi, eleito o melhor do Brasil? O Bar do Português ganhou depois o mesmo prêmio, merecidíssimo). Você vai ficar feliz, vai comer bem e não vai se sentir enganado por nenhum “bauru” genérico.
Para terminar, lugares de Franca, minha terra, que quem não é daqui precisa encarar a Anhanguera e a Cândido Portinari para conhecer, com urgência. O primeiro, o Nonno Grill, churrascaria do tipo rodízio comandada pelo carismático e competente Guidão. Podem falar o que quiser, mas não há carne assada melhor do que a dele no Brasil. Gaúcho, dedicado, e dono de um padrão de qualidade em que a satisfação do cliente vem antes do lucro, Guidão garante níveis de excelência no que faz.
As carnes são impecáveis. Picanha, no ponto que você quiser. Fraldinha, a minha preferida, assada de um jeito que nunca encontrei nem parecida. O cupim, perfeito. Prime Rib e chorizo, irresistíveis. O coração de frango, também, de longe, o melhor que já provei. Há ainda as tradicionais pistas frias (com toda sorte de queijos, embutidos e conservas que se possa imaginar) e até sushis e sashimis (nunca entendi direito quem vai numa churrascaria para saborear comida japonesa, mas conheço muita gente que gosta).
O chope é muito bom, bem tirado, as caipirinhas deliciosas, mas tudo isso fica ainda melhor com a atmosfera conferida pelas mãos firmes de Guidão, Alcir e a brigada do salão e da cozinha. Olhe para o lado, e chegam pasteizinhos fritos na hora. Para o outro, brota a polenta com queijo na sua mesa. Acenou, e vem o carpaccio e a salada. O serviço é a grande alma do Nonno Grill.
Vale lembrar que até o governador Tarcísio de Freitas, acostumado às melhores mesas de São Paulo e Brasília, fez rasgados elogios ao Nonno Grill e, na última vez que esteve na cidade, pediu ao Guidão que abrisse o restaurante um pouquinho mais cedo para que ele pudesse comer antes de voltar à São Paulo.
O outro endereço de Franca que vale a viagem é o Azul Culinária Brasileira, das irmãs Adriana e Lelê Mendonça. A primeira, dona, a segunda, talentosíssima e habilidosa chef com passagem pelo Átimo, na capital paulista, quando a casa era comandada pelo premiadíssimo Jefferson Rueda, da Casa do Porco.
Apesar do aposto do Azul evocar uma cozinha tipicamente brasileira, não é exatamente isso que sai das panelas. Tem mais a ver com uma cozinha contemporânea, muitíssimo bem feita, inspirada, mas que bebe na fonte dos clássicos da culinária italiana. Assim, o ravioli de banana da terra é imperdível, bem como o gnocchi de rabada. Nos últimos tempos, ganhou meu coração o linguado empanado (peixe enrolado no catupiry e depois frito com uma massa delicada), servido numa cama de risoto, que pode parecer uma afronta aos mais puristas, mas vale cada garfada de tão bom. Vale muito a pena também o sfiglioli recheado com galinha caipira. Arrisque sem medo. Qualquer coisa que você pedir do menu, será bom e te fará feliz.
E, não importa o tamanho da fome, jamais cometa a crime de lesa-pátria de dispensar o couvert – pães fofinhos e uma fatia de pizza que lembra aquelas que avós costumavam fazer para netos, deliciosa. Quanto à sobremesa, comande enquanto estiver comendo o prato principal o soufflé de goiabada, de “comer rezando”, como se dizia antigamente.
Como seu assumidamente bairrista, recomendo também em Franca o chope do Gasparini, no Centro, que passou por uma recente reforma que melhorou tudo, sem corromper a alma, e a coxinha da Tenda Árabe, dos queridos Michel e Renata. Lá, vale encomendar a tripa recheada, iguaria que o faz o Mauricião sair de Santa Branca e vir até Franca só para comer, e provar sempre que disponível a esfiha aberta folheada de carne, invenção da Renata que funciona muito bem. Não dá para ignorar a conserva de berinjela, saborosíssima.
Claro, haverá polêmicas, com leitores criticando eventuais omissões ou desmerecendo alguma coisa que incluí. Faz parte, mas lembro que esta é uma lista personalíssima, baseada nos meus gostos e memórias, no que experimentei e vivi, e nem de longe se encerra em si mesma nem tem qualquer pretensão de ser um “ranking”.
Não listei, por exemplo, nenhum restaurante do litoral, porque são mais conhecidos e prováveis. É apenas um tributo que presto a empresários, chefs, cozinheiros, garçons, manobristas e ajudantes que trabalham duro, o ano inteiro, para que convivas como nós tenham bons lugares para passar horas agradáveis. E, destes que listei, você sempre sairá feliz, satisfeito, e com lindas memórias para levar pela vida.
Corrêa Neves Jr é jornalista, diretor do portal GCN, da rádio Difusora de Franca e CEO da rede Sampi de Portais de Notícias.
Comentários
1 Comentários
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Tony José 10/03/2025Parabens,pelo menos tem bom gosto pra comer,mas nunca comeu em Piracicaba. Depois de fazer o L e se arrepender amargamente,é melhor falar de comida mesmo. Vai comer em Piracicaba,vai.....