Se a gente cresce com os golpes duros da vida, também pode crescer com os toques suaves na alma.
Cora Coralina (1889-1985)
porção: 10
dificuldade: fácil
preço: econômico
ingredientes
1 xícara (chá) de milharina
3 ovos grandes
½ xícara (chá) de óleo de soja
2 xícaras (chá) de leite
1 xícara (chá) de parmesão ralado
1 xícara (chá) de açúcar
1 colher (sopa) de fermento
Quinta-feira foi dia de Santo Antônio, o padroeiro dos namorados. Abriram-se assim as festas juninas, ainda de muito agrado do nosso povo. Elas só terminam no dia 29, dedicado a São Pedro, o que guarda as chaves do céu. Entre uma e outra, temos São João, no próximo 24. Este santo inspirou o escritor Luiz Cruz de Oliveira a escrever crônica para o caderno “Nossas Letras” do último domingo. A mensagem de “Batista, o João” é pouco sacra, nada profana, muito filosófica e tocou o coração dos leitores.
São João é o mais festejado dos santos de junho. Nos fundamentos de nossa colonização, a celebração trazida de Portugal foi adaptada aos trópicos. Se na terrinha o grão ao redor do qual toda a cozinha se movia era o trigo, aqui o eleito foi o milho, nativo e vário, cumpridor da missão de alimentar humanos e animais.
E quando falo em milho, é impossível não me lembrar de Cora Coralina, goiana fantástica cuja “casa velha da ponte”, como ela a chamava, visitei há alguns anos, em Goiás Velho. Como tudo que diz respeito à memória em nosso país, o museu em que a casa foi transformada andava naquela época em estado bem precário. Mas havia a estrutura, a fonte minando no quintal, a cozinha ancestral, e o riacho lá fora com sua ponte. Eram os eixos poéticos de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, o nome oficial de Cora Coralina. Embora tenha começado a escrever na adolescência, só publicou seu primeiro livro aos 76 anos: Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais. Nele se destaca “Oração do Milho”, e não “Oração ao Milho”, como se lê às vezes na internet. É um poema onde se podem recolher pela evocação imagens bucólicas e ao mesmo tempo ásperas do interior do Brasil, como a difícil lida nos campos, os costumes do povo, a inabalável fé religiosa, a imprescindível esperança, o jeito, enfim, de viver junto à natureza. Com palavras bem escolhidas, num ritmo absolutamente singular onde a poesia pode virar prosa e a prosa se transformar em poesia, Cora Coralina expressa o cotidiano singelo. A “Oração do Milho” mostra o ritual do plantio e da colheita do cereal, experimentado pelo povo da roça. Mas não só. Muitas vezes avança, aliando à simplicidade narrativa uma experiência existencial profunda onde questões sociais, como a do uso da terra, são tratadas com sutileza.
Em artigo que tem por título “A gratidão do humilde: uma análise do poema ‘Oração do Milho”, o professor Jildonei Lazzaretti diz que “os versos de Cora Coralina permitem uma leitura do milho (enquanto sujeito que ora) como representação de determinados indivíduos ou grupos sociais cujo valor não é reconhecido na sociedade, mesmo sendo indispensáveis para o desenvolvimento da mesma”. A pensar:
“Fui o angu pesado e constante do escravo na exaustão do eito./Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante./Sou a farinha econômica do proletário./Sou a polenta do imigrante e a miga dos que começam a vida em terra estranha./Alimento de porcos e do triste mu de carga./O que me planta não levanta comércio, nem avantaja dinheiro./Sou apenas a fartura generosa e despreocupada dos paióis./Sou o cocho abastecido donde rumina o gado./Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece./Sou o cacarejo alegre das poedeiras à volta dos seus ninhos./Sou a pobreza vegetal agradecida a Vós, Senhor,/que me fizestes necessário e humilde./Sou o milho.”
Agora, vamos saltar da literatura para a cozinha. Uma receita pode ser uma espécie de poema que se faz com ingredientes. No caso de hoje, até o nome do bolo é romântico: “Flor de Milho”. De preparo muito rápido, é até difícil acreditar que fique bom. Mas fica, viu? Gostoso, fofo, rendado por conta do queijo, bonito por causa da cor, perfumado em razão do cravo e da canela. Nada mais adequado para colocar na mesa da festa de São João.
Ligue o forno em primeiro lugar: 180 graus. Unte com óleo e polvilhe com farinha uma forma redonda de buraco no meio. Com os ingredientes à vista e o liquidificador ao lado, respeite a ordem de entrada e o tempo a bater. Primeiro coloque no copo o óleo (bolos com óleo ficam mais leves), os ovos, o leite, o açúcar, o queijo ralado. Bata por três minutos. Em seguida adicione a milharina e bata por 15 segundos. O fermento vai por último- cinco segundos, só para misturar. Atente para o tamanho das xícaras, que devem estar bem cheias. Batida a massa, despeje na forma untada e enfarinhada e leve ao forno por trinta minutos ou até dourar. Teste com o palito para ver se está assado. Desenforme morno e cubra com misturinha de açúcar e canela.
Passo a passo
1 - Reúna os ingredientes: leite, ovos, óleo, milharina, queijo ralado, açúcar, fermento; mistura de açúcar e canela
2 - No copo coloque óleo, ovos, leite, açúcar, queijo e bata por três minutos.
3 - Junte a milharina; bata por quinze segundos; e o fermento, mais cinco segundos.
4 - Coloque na forma untada e enfarinhada; leve ao forno por meia hora aproximadamente
5 - Desenforme morno, cubra com açúcar e canela, sirva frio.