Ingredientes
4 ovos
1 pote de iogurte integral
2 xícaras (chá) de açúcar refinado
2 xícaras (chá) de farinha de trigo
2/3 de copo (o mesmo do iogurte) de óleo
1 colher (sopa) de Pó Royal
5 rodelas de abacaxi
5 ameixas pretas hidratadas
½ xícara de açúcar cristal
Manteiga para untar a forma
Andava atrás de uma textura de bolo que havia experimentado em priscas eras. Lembro-me de ter pedido a receita à dona da pequena padaria onde o tinha saboreado- uma última fatia que restara na vitrine, sinal de que era o mais vendido, pois outros ainda se mantinham pela metade na prateleira. A moça, solícita, rabiscou num papelzinho os ingredientes e por alto me ensinou o passo-a- passo. Olhei a lista, procurei reter na memória o jeito de fazer, dobrei o papel, guardei na bolsa e acabei perdendo. Quando quis reproduzi-lo, tempos depois, não o encontrei. Voltei à padaria de bairro, na expectativa de que um pedaço daquele bolo único estivesse lá. Mas nem bolo, nem moça, nem vitrine, nem prateleira, nem nada. No lugar funcionava então uma sorveteria. Fiquei frustrada.
Toda vez que encontrava um bolo parecido buscava o sabor do outro, sua massa fofa mas não seca, a superfície dourada e não pálida, o perfume sutil das comidas da infância, o gosto de coisas que se comem pela primeira vez com deleite e depois não recuperamos mais. Ou elas já não existem ou é nosso paladar que se alterou. Enfim, Proust de lado, não desisti. E fiz bem na minha jornada de esperança em busca do bolo perdido. Dia desses, ao entrar no salão da Márcia, ali na Major Nicácio, meu olhar foi logo atraído por uma boleira que ostentava conteúdo caseiro e bonito, ao lado de uma bandeja com garrafa térmica e xícaras de café. Era finalzinho de tarde e eu estava com uma fome danada. Cortei uma fatia, dei a primeira mordida e eureka!- tinha encontrado o bolo! Sentei-me num dos sofás da entrada e em clima de bem-aventurança degustei um, dois, três pedaços, intercalando-os com o café que parecia ter sido passado naquela hora. Os antigos diriam que eu tinha “matado a vontade.”
Assim, antes de falar à Márcia como queria cortar meu cabelo, perguntei-lhe de onde saíra aquele bolo, onde ela o comprara, ao que me respondeu a bela e competente coiffeuse: ‘ Foi minha mãe quem fez.’ Perguntei se ela me daria a receita e Márcia falou que sim, sem problemas. Eu já buscava uma caneta e um caderninho que sempre levo na bolsa para anotar quando a Rose Ferreira, primeira-cabeleireira, me falou: ‘A dona Beatriz está aqui!’ Ah, ela estava bem ao meu lado, secando o cabelo que a filha havia cortado. Então falei: ‘Beatriz, seu bolo está delicioso, faz tempo que procuro um assim, você me passa a receita?’ Daí uns minutos, quando ela já estava pronta, recebi de suas mãos um papelzinho com a lista dos ingredientes e o modo de fazer. Agradeci pensando que chegaria em casa e iria testar a receita. Mas eis que a Beatriz voltou para me dizer que era possível incrementar aquele bolo de várias formas. ‘Às vezes eu misturo leite de coco com um pouquinho de açúcar, rego o bolo e cubro com coco ralado; fica bom. Ou misturo leite condensado, raspinhas de limão, uma colher de suco- coloco por cima- fica bom também’, Tem gente que revela no jeito de falar a relação carinhosa que mantém com a cozinha, os alimentos, o prazer de produzir algo essencial à vida que é a comida que nos nutre. A Beatriz é assim; com poucas palavras desvelou o quanto de carinho coloca no que faz.
Por isso mesmo investi no seu bolo. Fiz a receita básica, recebida com aplausos por todos que a experimentaram. Reproduzi a de cobertura de coco e a de limão, ambas também elogiadas. Por fim, me lembrando de outra Beatriz, resgatei o bolo que já não vejo com a assiduidade com que reinou nos anos 80. Falo daquele bolo de abacaxi invertido, onde as ameixas entram com seu sabor mas também para efeito estético, pois fazem as vezes de miolo de flor. Prepará-lo para a edição deste domingo me trouxe grande prazer. Espero que os leitores também aproveitem a massa básica da Beatriz, que tem no iogurte seu diferencial. Simples já é muito bom. Mas como todo clássico, permite muitas interpretações, além dessas citadas aqui.
Para quem vai fazer o da ilustração, seguem as instruções. Unte com manteiga uma forma redonda e polvilhe açúcar cristal. Descasque o abacaxi, corte em rodelas, retire o miolo e disponha no fundo. No espaço do miolo de abacaxi acomode uma ameixa sem caroço previamente hidratada. Agora passe à massa. No copo do liquidificador coloque 4 ovos, 1 pote de iogurte integral, 2 xícaras de açúcar refinado, 2 xícaras de farinha de trigo, 2/3 de óleo (use o mesmo pote de iogurte para medir). Bata por 5 minutos. Depois despeje a mistura numa tigela e junte 1 colher (sopa) de fermento químico (Pó Royal). Mexa bem para que o fermento permeie toda a massa. Despeje sobre a forma preparada com as rodelas de abacaxi, dê umas batidinhas contra o mármore da pia para que possíveis bolhas de ar não atrapalhem o crescimento e leve ao forno já aquecido a 180 graus por 40 minutos aproximadamente. Faça o teste do palito para ter certeza de que a massa está bem assada. Desenforme morno sobre sua boleira ou prato de ir à mesa. Sirva com chantilly, conforme mostra a foto.