Ingredientes
2 xícaras (chá) de lentilhas
1 cebola média em cubinhos
4 dentes de alho bem amassados e picados
300 gramas de linguiça calabresa defumada
4 tomates cortados em cubinhos
2 folhas de louro
6 xícaras (chá) de caldo de carne
4 colheres (sopa) de azeite
Sal e pimenta-do-reino a gosto
A Bíblia é um livro que desvela muitos mistérios da alma humana com admirável poder para caracterizar através de imagens aspectos positivos e negativos do ser humano. Grandeza e sordidez, generosidade e egoísmo, verdade e mentira, luz e escuridão, bondade e crueldade, céu e inferno da quase impenetrável alma está tudo lá, no livro mais lido do mundo.
Gosto dos relatos bíblicos que me autorizam a pensar que na sua essência o homem evoluiu pouco nos últimos cinco mil anos, a se considerar especialmente as narrativas do Velho Testamento, de que faz parte a protagonizada por Esaú e Jacó. Parte integrante do Gênesis, traz para o leitor a relação entre os gêmeos de Isaque e Rebeca. Segundo a tradição, o primogênito tinha direitos exclusivos sobre tudo, inclusive herança. Dos irmãos citados, o que nascera primeiro fora Esaú, mas a mãe tinha preferência pelo mais novo, Jacó, chegando a planejar junto deste uma encenação para enganar o pobre pai já velho e incapaz de enxergar direito. O fato criou inimizade terrível entre os gêmeos; no entanto, nos capítulos 32 e 33 do mesmo livro inicial, pode-se ler sobre a reconciliação deles, prova inconteste de que nada é impossível na face da Terra e as circunstâncias levam a mudanças de rumo inimagináveis.
A história dos gêmeos faz parte dos acontecimentos religiosos mais conhecidos dos leitores do mundo judaico-cristão e inspirou nosso grande Machado de Assis. Num de seus romances da última fase, Esaú e Jacó, publicado em 1904, portanto quatro anos antes de sua morte, o escritor relata a rivalidade (desde o ventre materno) entre Pedro e Paulo, tendo a mãe Natividade (e depois a jovem Flora) no centro da disputa. Recentemente, em 2000, Milton Hatoum, ficcionista que colocou no mapa da literatura brasileira a capital do Amazonas, sacudiu os leitores com a saga tensa de Yakub e Omar, protagonistas de Dois Irmãos. Em 2004, com O Gosto da Glosa: Esaú e Jacó na Tradição Judaica , a psicanalista Daype Wajnberg discute este que é um dos trechos mais interessantes da B íblia.
O que têm a ver essa história de gêmeos com uma página de culinária? Muito a ver, caro leitor. É que um prato de lentilhas, provavelmente bem parecido com o da foto, foi decisivo na vida dos personagens bíblicos. E tem sido motivo de incontáveis homilias e pregações, nas quais a metáfora alcança níveis que variam do sublime ao ridículo. Aliás, Napoleão Bonaparte dizia que entre uma sensação e outra a distância era mínima. Resumindo a ópera, Esaú voltava de uma caçada, muito cansado e sem caça nas mãos, quando sentiu o cheiro que vinha da tenda do irmão Jacó.
- Dá-me - pediu Esaú - um pouco dessa sopa de lentilhas, que estou caindo de fome.
- Eu dou - concordou Jacó - mas, em troca, terás de me ceder o direito de primogenitura.
A fome falou mais alto que tudo e, sem hesitar, Esaú aceitou a proposta do irmão. Comeu e bebeu, nem imaginou que havia cedido, por uma insignificância (para quem está saciado...), um dos seus mais preciosos direitos.
E aí entram as metáforas de que falei, com o prato de sopa associado àquilo que no momento esteja fazendo parte das preocupações mais prementes das pessoas, instadas a escolher entre o feijão e o sonho, entre o alimento para o corpo e os valores considerados essenciais, como a primogenitura era na época. “Qual o preço da sopa de lentilhas?”- Perguntam-se os pregadores contemporâneos. E respondem! Um deles afirma: “Trocamos o respeito mútuo, a educação, a civilidade, a ciência, a educação, o companheirismo, o altruísmo, a paz, a conciliação, a família, o contato com a natureza, a preservação da vida, por simples pratos de lentilhas.” A boa retórica ainda faz sucesso em tempo de twitter.
Estilos à parte, a questão é mais profunda. Só quem já sentiu fome sabe o que isso significa. Eu acho horrível o fato de Jacó ter-se aproveitado da fragilidade física do irmão e ter-lhe feito a proposta indecente. Jacó deveria ter convidado Esaú para sentar-se à sua mesa e tomarem juntos a sopa de lentilhas, que é revigorante, substanciosa e capaz de garantir bem estar por algumas horas ao organismo debilitado. Vamos prepará-la?
Deixe a lentilha de molho na véspera. No dia seguinte escorra, lave em água corrente, reserve. Corte a linguiça em rodelas de 1 cm e cada rodela em quatro. Numa panela grande, deite duas colheres de azeite e refogue as cebolas até que fiquem transparentes. Junte o alho. Acrescente a linguiça. Deixe fritar de leve, sem tostar. Coloque os tomates, misture, espere murchar, acrescente as folhas de louro. Agregue as lentilhas a este refogado. Misture e despeje o caldo de carne. Deixe cozinhar com a panela semitampada por 20 minutos, ou até que os grãos estejam al dente. Não deixe que desmanchem. Prove o sal, corrija se for necessário, use pimenta se gostar, corra sobre a superfície a outra metade do azeite. Sirva bem quente, sinta o perfume, dê razão ao faminto Esaú.