Sopa de abóbora para os dias frios é uma delícia


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Ingredientes
 ½ abóbora japonesa
 3 xícaras (chá) de água
 1 cebola média
 2 dentes de alho
 1 pedaço de gengibre (5cm)
 2 colheres (sopa) de azeite
Sal
 Pimenta-do-reino
 1 colher (sopa) de cheiro verde
 ½ copo de iogurte
 
Enganaram-se em algumas coisas os cronistas chegados no final do século XVI à nova terra descoberta por Cabral. Um dos equívocos diz respeito às mangueiras que vicejavam por toda parte e foram creditadas como nativas. Na verdade, caroços de manga vieram nos porões dos navios portugueses, trazidos pelos colonizadores que mantinham relações comerciais com a Ásia há muito tempo. Foi de lá, portanto, que a fruta veio para cá. 
 
Outra confusão coloca na berlinda o gengibre, que tinha até um nome indígena: mangarataia, palavra que em tupi significa “raiz que arde”. O célebre botânico Pison, que integrou a comitiva de Maurício de Nassau, registrou em livro publicado em 1648 que a planta era brasileira. Estava enganado. Os primeiros portugueses para cá enviados haviam trazido das Índias mudas que se adaptaram tão bem ao clima que se desenvolveram rapidamente, dando a impressão, décadas depois, de que faziam parte da flora brasileira. De sabor suculento, exótico e picante, o gengibre tem mil qualidades medicinais e muitas culinárias, caindo bem em bebidas, pratos doces e salgados. No Oriente é largamente usado no preparo de especiarias como o curry. No Japão é acompanhamento obrigatório nos pratos de sushi. Há ainda um vasto uso sob forma cristalizada na confeitaria do sudeste asiático. Europeus o valorizam para conferir aroma diferenciado a bolos, pães e bolachas. Norte-americanos tornaram famoso o “ginger bread”, um pãozinho de gengibre. 
 
Até meados do século passado restrito entre nós aos chás para curar resfriados e ao quentão das festas juninas, ganhou nos últimos anos novos usos com o boom dos programas e livros de gastronomia, que amplificaram suas qualidades. Pode ser consumido fresco, em pó, cristalizado ou em conserva. Faz toda a diferença na sopa de abóbora da foto. 
 
E por falar em abóbora, essa sim, é coisa nossa. Mas sua história é uma novela. Quando os primeiros navegadores portugueses desembarcaram em terras brasileiras, há cinco séculos, os indígenas cultivavam suas próprias variedades, às quais chamavam yurimum, nome que se perpetuou no nordeste sob a forma jerimum. Naquela época, era o terceiro alimento em ordem de importância para os indígenas, sendo suplantada apenas pela mandioca e pelo milho. As abóboras cultivadas pelos índios brasileiros foram levadas para a Europa pelos portugueses. Os espanhóis, que colonizaram outros países das Américas, entregaram variedades astecas, maias e incas aos seus reis. Todas surpreenderam e rapidamente ocuparam a mesa de diferentes países, chegando à Alemanha e à Itália ainda no século XVI. Quando os imigrantes alemães e italianos aportaram no Brasil, no século XIX, trouxeram consigo sementes de suas próprias seleções de abóboras. Queriam seguir cultivando na nova terra aquelas que já haviam sido incorporadas à sua cultura há três séculos.
 
Reverenciando a história, entendemos porque muitos agricultores mantêm orgulhosamente suas variedades de abóboras, promovendo seleção recorrente para os tipos que mais lhes agradam. Eles desempenham papel expressivo nessa dinâmica de conservação, atuando como guardiões das sementes que são passadas de geração a geração e se tornam objeto de trocas entre parentes e vizinhos. No ano passado o Globo Rural mostrou um agricultor paranaense que cultiva em seu sítio 150 variedades: crioula, cogumelo, coração-de-boi, gaúcha, de-pescoço, menina, moganga, brasileirinha... E a japonesa, também chamada cabotiá, cabotian, kabotchá, cabutchá, nomes que remetem a uma sonoridade oriental. Sua forma é arredondada, a casca dura e rugosa, a polpa alaranjada e enxuta. Ela é perfeita para uma sopa como esta da foto acima. 
 
O único senão é descascá-la. Jeito superprático de fazer isso é colocar uma metade dentro de panela grande, juntar três xícaras de água e levar ao fogo por dez minutos. Deixe amornar, retire para uma tábua e passe o descascador pela pele; ou retire a polpa com colher. Não dispense a água do cozimento, ela vai ser útil na receita. Pique a cebola, descasque os dentes de alho, corte em rodelas o gengibre- nem precisa descascar. Em outra panela, coloque duas colheres (sopa) de azeite, refogue a cebola e o alho, nessa ordem, agregue as rodelas de gengibre e a polpa de abóbora. Junte a água do cozimento, misture tudo e deixe cozinhar por vinte minutos em fogo baixo. Desligue. Com cuidado, e usando uma concha, despeje no copo do liquidificador. Dobre ao meio um pano de prato, coloque na boca do copo e tampe. Assim nada vai espirrar em você quando ligar o motor. Bata por dois minutos. Volte o creme à panela e só então salgue a gosto. Se gostar, é hora de colocar pimenta-do-reino. Quando levantar fervura, está no pont
o de servir. Coloque numa sopeira, decore com cheiro verde, faça um caracol com o iogurte. A combinação de sabores dessa sopa tem o condão de curar a mais profunda melancolia. Porque sopa é remédio para a alma!
 

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