“É a úrtima semana do meis/ primeiro semestre acabano,/no penúrtimo dia de junho/ São Pedro vamo festejano// Acordei de madrugada/ fui varrê a Conceição/ Encontrei Nossa Senhora/ com dois livrinho na mão// Eu pedi um para ela/ ela me disse que não/ Eu tornei a lhe pedi/ ela me deu um cordão// Numa ponta tinha São Pedro/ na outra tinha São João/No meio tinha um letreiro/ da Virgem da Conceição.” Este é um acalanto registrado em festa junina na cidade de Cunha, famoso ponto turístico de nosso Estado.
Sabemos muito de Santo Antônio, pouco de São João, quase nada de São Pedro. De seus dados biográficos apenas a profissão de pescador. Dos familiares, a menção a sua mãe, que não devia ser uma flor de pessoa, posto a coletânea de histórias que a perfilam como sovina e solitária. Mas ele era bom filho e quando se tornou chaveiro do céu tentou ajudá-la numa passagem onde a mesquinharia perdeu de vez a alma da mulher. Isso é só folclore, claro, talvez com fugidio traço de verdade aqui e ali.
Mas que Pedro, ou melhor, Simão, este seu nome verdadeiro, estava pescando às margens do lago de Genezareth quando Cristo o fisgou é fato narrado num dos Evangelhos. Se bem me recordo do que li, Jesus caminhava com outros discípulos quando o viu e o convidou a ser pescador de homens e não apenas de peixes. Grande metáfora, ave! O pescador não só seguiu o Rabi como foi encarregado de fundar a Igreja Católica, tendo sido seu primeiro Papa: “Pedro, tu és pedra e sobre essa pedra edificarei a minha Igreja”. Parece que foi assim que Jesus conferiu poder fundador a ele. Entre umas coisas e outras ao redor de uma ceia, Pedro negou seu Mestre três vezes e ainda esperou o galo cantar. Era humano, demasiadamente humano. Arrependeu-se, fez seu mea culpa, deve ter sido absolvido depois de chorar muito aos pés da cruz. Dada a sua profissão, as comunidades ribeirinhas costumam festejá-lo junto às águas, pedindo abastança de peixes.
Das três festas juninas, a de arromba é mesmo a de São João. Santo Antônio tem muitos devotos e sua celebração é mais religiosa, com distribuição de pãezinhos bentos nas paróquias. São Pedro fica mais como coadjuvante das outras, entrando em músicas que homenageiam seus dois colegas. A mesa de São Pedro também não é lá de abafar. Mas tem suas guloseimas, da qual destaco o bolo de amendoim.
Alimento popular em todas as regiões do Brasil, o amendoim faz parte da cultura brasileira; é ingrediente principal de muitas receitas tradicionais. O nome é tupi: o radical mani, o mesmo de mandioca, significa “enterrado”. Mas especialistas acreditam que ele tenha origem remota a leste dos Andes, onde era muito consumido pelos povos da região. Sua difusão para o mundo europeu se deu no século 16, quando os espanhóis chegaram à América e se encarregaram de levar a novidade para Europa, Ásia e África. Nas costas africanas prosperou nas colônias portuguesas e dali deu meia volta pelas mãos de africanos escravizados por ingleses e franceses que levaram sementes para o sul dos EUA. É por conta disso que por muito tempo o amendoim foi um emblema da Geórgia.
Em nosso país tem consumo garantido no mês de junho, já que não se concebe mesa de festa caipira sem sua presença. É ingrediente da paçoca, palavra também de origem tupi que significa “esmigalhar”. Quem já fez paçoca entende a descrição etimológica. Muito popular no estado de São Paulo, principalmente na região do Vale do Paraíba, a paçoca (ou paçoquinha) tem freguesia garantida o ano todo.
O pé-de-moleque é outro doce de amendoim bastante conhecido dos brasileiros e comum às celebrações de junho. Surgiu com a chegada da cana-de-açúcar, e se tornou deveras apreciado em Minas. O nome pitoresco tem duas explicações. Uma poética: sua aparência lembra os pés dos garotos que andam descalços pelas ruas de terra das gerais. A outra é lúdica: os meninos ficavam olhando com olhos pidões o doce que as cozinheiras preparavam nos largos tachos, ao que elas diziam rindo: ” -Pede, moleque ”. De qualquer forma, o uso da palavra moleque sugere que o doce nasceu em mãos africanas.
O bolo de amendoim é gostoso. E hiperfácil de preparar. Bastam os ingredientes, a batedeira e o forno. Comece untando uma forma com óleo e polvilhando farinha. Depois, ligue o forno, que deve estar quente quando você acabar de bater a massa. Coloque na batedeira o açúcar, as gemas e a margarina. Bata até obter uma mistura bem cremosa. Sem parar de bater, acrescente alternadamente a farinha, o amido de milho, o amendoim e o leite. Retire da batedeira e misture delicadamente o fermento e as claras em neve. Coloque na forma reservada e leve ao forno por 35 minutos ou até que um palito espetado na massa saia limpo. Retire do forno e prepare a cobertura. Numa tigela misture açúcar, leite e amendoim. Mexa e despeje no bolo ainda quente. Espere esfriar para servir.
INGREDIENTES
1 xícara (chá) de açúcar
3 gemas
3 claras
1 xícara (chá) de margarina cremosa
2 xícaras (chá) de farinha de trigo
½ xícara (chá) de amido de milho (Maizena)
1 xícara (chá) de amendoim torrado, sem pele, moído
½ xícara (chá) de leite
1 colher (sopa) de fermento em pó
Cobertura
1 xícara (chá) de açúcar de confeiteiro
1 colher (sopa) de leite
½ xícara (chá) de amendoim torrado, sem pele, quebrado grosseiramente
porção: 10
dificuldade: fácil
preço: econômico