‘Se Deus me dissesse para escolher a comida que eu iria comer no céu, por toda a eternidade, eu não teria um segundo de hesitação: escolheria sopa. Camarão, picanha maturada, salmão à Dali, os pratos mais refinados: tudo me seria insuportável após umas poucas repetições. Mas não é assim com as sopas. Posso tomar sopa por toda a eternidade, sem me cansar.
Minha relação com as sopas é mais que gastronômica: é uma relação de ternura. Elas me reconduzem à cozinha de minha casa de menino, ao fogão de lenha, às tardes de inverno. A janta (janta, mesmo; jantar é coisa de rico) era servida às 5 da tarde. Ah! Uma sopa quente que se toma numa tarde fria é uma lareira que se acende no estômago. O calor, aos poucos, se espalha pelo corpo. Com umas gotinhas de pimenta, então, ele se transforma em suor, e se a gente não usa o guardanapo a tempo, as gotas de suor na testa acabam por cair no prato da sopa (...)
Gosto das sopas, ainda, por serem elas entidades do mundo dos magos, bruxas e feiticeiros. No mundo mágico não se usa churrasco. Magos, bruxas e feiticeiros fazem suas poções em enormes caldeirões de sopa, como é o caso de Panoramix, druida do Asterix e do Obelix, que prepara sua beberagem de força imbatível num caldeirão de sopa fervente.
Prefiro as sopas rústicas - e fazê-las me dá um grande prazer. A sopa de fubá em suas múltiplas versões, o caldo verde, a canja com hortelã, a multicolorida sopa de legumes: sopas são sempre uma alegria. As sopas rústicas dão permissão para se jogar nelas o pão picado. Haverá coisa mais feliz que isso?(...)
Uma última informação: sopas são remédios maravilhosos contra depressão. Quando a sopa quente, cheirosa, colorida e apimentada, bate no estômago, a tristeza se vai e a alegria volta. Não há melancolia que resista à magia de um prato de sopa...”
Estes cinco parágrafos são metade da crônica Concerto para corpo e alma _ do saudoso Rubem Alves, falecido no dia 19 de junho de 2014, um dos maiores pensadores do Brasil, nome de reconhecida grandeza nas letras, na psicanálise, na teologia, na educação em nosso país. Que falta ele faz neste Brasil caótico e desgovernado. Sua palavra precisa e amorosa poderia nos dar um norte, ser um consolo, desvelar a necessária resistência até que se faça de novo a luz, pois tudo é cíclico.
Li toda a obra de Rubem Alves e por anos assinei o jornal Correio Popular, de Campinas, apenas por conta de suas crônicas ali publicadas. Seu léxico, sua sintaxe, seus provérbios populares, aquela sabedoria mineira tão peculiar e especialmente suas referências à terra natal, Dores de Boa Esperança, traziam para pertinho de mim a minha mãe, nascida em Conceição Aparecida, antiga Barro Preto, lugares citados pelo escritor quando ele resgatava seus primeiros anos de vida. Um dia, ao ler o que havia escrito sobre a Serra da Boa Esperança, chorei copiosamente, pois era como se escutasse minha mãe descrevendo aquele imenso bloco verde que a impressionara em sua mocidade e inspirara outro artista, Lamartine Babo, autor de lindos versos: “Serra da Boa Esperança/ esperança que encerra/ No coração do Brasil um punhado de terra/ No coração de quem vai/ No coração de quem vem/ Serra da Boa Esperança/ meu último bem// Parto levando saudades/ Saudades deixando/ Murchas, caídas na serra/ Bem perto de Deus/ Oh, minha serra/
Eis a hora do adeus/ Vou-me embora/ Deixo a luz do olhar/ No teu luar/ Adeus!// Levo na minha cantiga/ A imagem da serra/ Sei que Jesus não castiga/ Um poeta que erra/ Nós os poetas erramos/ Porque rimamos também/ Os nossos olhos nos olhos/ De alguém que não vem// Serra da Boa Esperança/ Não tenhas receio/ Hei de guardar tua imagem/ Com a graça de Deus!/ Oh! Minha serra,/ Eis a hora do adeus/ Vou-me embora/ Deixo a luz do olhar/ No teu luar/ Adeus!”
A sopa de feijão é para dias outonais, quando a temperatura cai e o corpo pede um prato bem quente. Em Minas, é servida com linguiça e brotos de cambuquira em cumbucas de barro. Fiz uma adaptação e usei o pão italiano para acomodar o caldo. Salpiquei clara cozida e cebolinha cortada milimetricamente pela Elza, que faz isso como ninguém.
Cozinhe o feijão com uma folha de louro. Não salgue, pois a linguiça e o bacon a serem acrescidos já contêm sal. Reserve. Numa panela coloque o óleo e o bacon, deixando fritar sem torrar. Acrescente a linguiça cortada bem fininha e mexa. Agregue cebola, alho, tomates e cubra com o molho de tomates. Deixe levantar fervura e cozinhe em fogo baixo por 15 minutos. Retire a folha de louro e bata o feijão no liquidificador com seu próprio caldo. Despeje o caldo na panela de refogados e deixe ferver. Enquanto isso prepare os pães. Retire uma tampa e escave retirando o máximo de miolo. Passe com as costas de uma colher manteiga ou margarina nas laterais e no fundo dos pães. Leve ao forno preaquecido para firmar- mas não deixe queimar! Coloque cada pão sobre um prato e despeje com concha o caldo de feijão. Em cima do caldo, salpique clara de ovo e cebolinha bem picadinhas, mais uns pedacinhos da pimenta dedo de moça que você previamente preparou. Sirva com alegria.
Ingredientes
500 gramas de feijão
1 folha de louro
4 colheres (sopa) de óleo
100 gramas de bacon
200 gramas de linguiça calabresa
1 cebola roxa
4 dentes de alho
4 tomates maduros e pequenos
1 xícara (chá) de molho de tomate
½ pimenta dedo-de-moça sem sementes
4 colheres (sopa) de cebolinha
Passo a passo
1 - Retire uma tampa do pão, escave, unte as laterais e o fundo
2 - Leve ao forno para firmar apenas; cuidado para não queimar
3 - Frite bacon e linguiça; junte cebola, alho, tomates, água
4 - Bata o feijão cozido e junte o caldo ao refogado de linguiça
5 - Despeje no pão e decore com claras cozidas, cebolinha, pimenta- tudo bem picadinho.