Promessas não morrem se não saírem de dentro do possível


| Tempo de leitura: 4 min

O início de todo ano é marcado pela esperança de que as coisas mudem sempre para melhor. O poeta Carlos Drummond de Andrade já escreveu sobre o corte do tempo, 'a que se deu o nome de ano', medida necessária para que a esperança possa ser renovada assim que a exaustão chegar ao limite.

E, embora o futuro não seja previsível, determinar uma mudança positiva é sempre palpável a muitas pessoas. Ai entram em cena as famosas promessas de Ano Novo, mas um estudo feito pela Universidade de Scranton, nos EUA, aponta que somente 8% das pessoas que fazem promessas de Ano Novo conseguem, de fato, cumprí-las.

Os motivos para este número não muito motivador podem ser diversos, mas para fazer parte destes 8%, há algumas coisas que podem ser feitas além da promessa. O próprio lema positivista do Brasil versa que é preciso ordem para que haja progresso.

Para a psiquiatra Erica Vick Fernandes Gomes, a taxa de sucesso de promessas realizadas é baixa porque é dificultoso cumpri-las sem planejamento, e muitas pessoas não o fazem. "É muito difícil mudar um hábito e ter um comportamento diferente, mas é fácil voltar à rotina. A possibilidade de não conseguir é imensa, por isso é preciso fazer o planejamento do ano."

Sobre a escolha de muitas pessoas pelo início do ano para a mudança, Erica explica que se trata de um momento simbólico para renovar expectativas ou definir o que deve ser diferente. "É considerado um marco. Você pode mudar a qualquer momento, mas nessa data geralmente as pessoas estão de férias ou de folga, então conseguem parar, fazer um balanço de como a vida está e o que pode ser mudado."

Por conta disto, alguns planos podem ser empolgantes, mas é preciso saber o que é possível. "Além de planos muito ousados, as pessoas não se comprometem a atingir a meta e acabam se perdendo na rotina e nos compromissos. A pessoa precisa ter a meta muito clara, planejar, organizar o caminho e colocar em ação. As metas devem ser reais para a pessoa não se decepcionar. Objetivos grandes geralmente não são cumpridos. Metas pequenas e a curto prazo ajudam as pessoas a manter a disciplina", reforça ela.

MUDANÇA

Psicanalista, Thiago Gomes Marques diz que, pensando no reinício, a nossa sociedade cria questões de continuidade no Ano Novo e em outras datas, como o aniversário, que podem ser um reset para replanejar o futuro ideal, mas a promessa tem a ideia de barganha, já o planejamento é quando a pessoa tem mais consciência do que pode fazer. Promessas que não são cumpridas, geralmente são feitas sem uma consciência real da motivação que leva a elas".

Segundo explica, quem quer parar de fumar, por exemplo, para ter saúde e ver os filhos crescerem, é uma motivação diferente de economizar. "A pessoa pode passar de novo pelo momento de dificuldade que a leva a fumar e vai considerar o objetivo", explica ele.

A promessa geralmente é projetada para o futuro, mas é preciso que haja um incentivo para manter a ação. O psicanalista lista algumas perguntas que as pessoas precisam fazer para si mesmas para alcançar alguma meta. "O ponto central para a pessoa conseguir ou desistir é o quanto ela está consciente do que deseja. Para traçar as metas, a pessoa pode fazer algumas perguntas como o que eu quero?; para que eu quero?; por que eu quero?; onde pretendo chegar? e; qual é o prazo?", orienta.

A promessa é difícil de ser suportada por muito tempo e quando a gente coloca prazo, é possível fazer uma retrospectiva do que se conseguiu, mas quando não tem um tempo, tudo fica incerto. "É mais fácil, por exemplo, parar de fumar por três meses do que por um ano, mas depois é possível renovar a promessa por mais três meses", conta Thiago sobre nos motivarmos sempre.

PRÁTICA

A estudante Nicolli Freitas costuma fazer planejamentos para o ano, mas ela prefere que sejam metas ao invés de promessas. "Já na primeira semana eu separo um tempo e um caderno para definir minhas metas do ano. Eu procuro definir para o ano todo. Normalmente, divido as metas em curto, médio e longo prazo. Em curto prazo são metas mensais, em médio são metas trimestrais e em longo seriam metas mais semestrais ou para o decorrer do ano."

Para ela, as metas de 2021 já foram definidas mesmo antes do fim do ano. "As metas são referentes ao lado profissional e à saúde do corpo e da mente. São pontos que separo tempo para aprimorar todos os anos. Por enquanto tenho como meta de curto prazo melhorar a minha escrita acadêmica. A de médio prazo é finalizar meu curso de francês e as de longo prazo são terminar minha faculdade, desapegar de alguns itens pessoais, como livros e roupas, e intensificar minhas práticas de ioga."

Ela diz que costuma cobrar bastante de si para que os objetivos sejam alcançados dentro do período estipulado. "Dependendo da meta, se ela for muito ampla, por exemplo, subdivido-a para facilitar e também me motivar com as pequenas conquistas. Começo considerando as áreas pessoais que quero mudar, por exemplo, profissional, acadêmico, saúde, etc. Depois vêm as possibilidades e os meios disponíveis ou que poderiam ser criados para realizá-las e, por fim, o tempo que seria possível para realizá-las", diz ela sobre a dedicação, que começa no planejamento.

Comentários

Comentários