A batalha feminina e a conquista de espaço no cenário rock’n roll


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Não é segredo que, desde o seu surgimento, há mais de meio século, o rock and roll sempre foi tido como um gênero de protesto, questionamentos e rebeldia, muitas vezes associado a movimentos sociais, cujas reivindicações e ideias eram transmitidas através da música.

Ainda que, por algum tempo após seu surgimento, as mulheres tenham existido de maneira tímida e reclusa nesses espaços, demorando para terem a devida e merecida relevância dentro do gênero, não demorou para que muitas rompessem barreiras e ascendessem como grandes nomes nesse cenário, construindo trabalhos que traziam experiências femininas, a misoginia, o machismo e as discrepâncias de gênero dentro e fora da indústria musical.

Suas canções foram responsáveis por dar voz a conflitos e angústias, transmitir sentimentos e sensações muito íntimas, e servir como inspiração e exemplo de transgressão. Em diferentes épocas e contextos, essas mulheres influenciaram gerações e tornaram-se ícones para jovens mulheres, que encontraram força, compreensão e estímulo em suas letras e melodias.

O pontapé inicial do rock no Brasil foi Nora Ney (conhecida cantora de samba-canção) quando gravou o considerado primeiro rock, “Rock Around the Clock”, de Bill Haley & His Comets (trilha do filme Sementes da Violência), em outubro de 1955, para a versão brasileira do filme. Em uma semana, a canção já estava no topo das paradas (mas Nora Ney nunca mais gravou nada no gênero, tirando a irônica “Cansei do Rock”, em 1961).

Em dezembro, a mesma canção recebia versão em português, “Ronda das Horas” (por Heleninha Ferreira) e outra gravada pelo acordeonista Frontera, não tão bem-sucedidas quanto a “original”. Em janeiro do ano seguinte, a canção ganhou uma versão por Marisa Gata Mansa.

Considerada a rainha do rock brasileiro, Rita Lee teve grande relevância do estilo desde os tempos que integrava a banda “Os Mutantes”, no final dos anos 60 e início dos anos 70. Seja com o grupo ou em carreira solo, Rita Lee sempre influenciou músicos brasileiros, com seu humor ácido e, até hoje, se reinventa e prova que sua excelência não sai de moda.

Juliana Kosso
Membro do Velhas Virgens, uma das bandas mais irreverentes e divertidas do rock and roll brasileiro, a vocalista Juliana Kosso conta um pouco de sua trajetória até se tornar um dos símbolos do poder feminino dentro da música a nível nacional. “Na verdade, isso nem foi totalmente uma escolha minha, posso dizer que foi algo que caiu do universo para o meu colo. Eu era autodidata, tinha o dom de cantar, mas não entendia nada de música e nem imaginava que podia viver disso. Então eu abracei essa chance logo na adolescência, pois era uma ‘pivete’ sem muitas oportunidades para trabalhar na época”, comenta.

Após uma infância difícil, Juliana diz que viu no meio artístico a oportunidade que estava esperando. “Minha mãe sustentava a casa sozinha e os quatro filhos, sem muitas condições financeiras para todos, mas a gente se virava com o que dava. Eu, cheia de sonhos, um belo dia entrei para a música, no grupo infantil ‘A Patotinha’, gravei um CD em 1995 pela gravadora RGE e fui me desenvolvendo na área artística, fazendo shows, gravando programas de televisão e indo paras as rádios”, lembra.

Em relação às dificuldades e ao preconceito ao logo da carreira, a cantora diz que já houve muito mais do que há hoje, mas ainda existem casos, e com ela não foi diferente, principalmente mais no começo de sua trajetória. “Em 1999, quando eu ingressava nessa do rock and roll, passei por muitos constrangimentos e tive que ser resiliente em vários momentos. Mas abrir a boca e cantar era sempre uma prova de que eu podia estar ali junto dos meninos. Nessa época, eram poucas mulheres representando o rock, Rita Lee que o diga. Já hoje, acredito que seja tão difícil, tem muita mulher arrasando nos palcos, cantando muito, compondo suas próprias músicas etc”, afirma.

Juliana recorda um dia em que se apresentou no festival Lollapalooza, com o Velhas Virgens, e foi esquecida pela cobertura da imprensa. “Saiu uma matéria dizendo que a Pitty foi a única mulher do line up da 1ª edição desse evento que rolou em São Paulo, mas isso não foi verdade. Eu estava lá também, em carne, osso e alma, sou mulher também, cantora também, rockeira também e fui tratada como invisível a matéria feita. E o pior disso tudo é que ela foi escrita por uma mulher jornalista. É esse tipo de coisa pode contribuir para as meninas do rock desistirem”, lamenta.

Sobre as tentativas de assédio por parte dos fãs, Juliana diz ser algo que faz parte da profissão e que sempre tentou lidar de forma positiva. “Sempre procurei atender as pessoas e lidar com as mensagens numa boa, sempre tive conexão com aqueles que gostam de mim como artista, mas os assédios mais agressivos eu simplesmente ignoro. As mulheres da história do rock foram desconstruindo a mentalidade conservadora patriarcal de ser a ‘princesinha barbie’ e demostraram rebeldia e coragem através de sua voz, por suas letras, atitude e por impor a igualdade sempre”, finaliza.

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