OPINIÃO

Dá licença?


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Toda família tem suas histórias, que nascem no convívio do cotidiano e, por terem repercussões e desdobramentos divertidos, passam a integrar o “folclore” familiar. Em geral são histórias divertidas, envolvendo festas, viagens ou outros eventos.

Uma “personagem” deste meu léxico familiar é a tia Marilda.  Casada com um irmão da minha mãe, ela mora em outro estado e, na época em que eu era bem criança, nos visitava muito ocasionalmente, dado a distância de mais de mil quilômetros entre nós.

No entanto, o casal era apaixonado por mim, especialmente ela. Super carinhosa e atenciosa, me agradava e me trazia presentes, me achando a criança “mais fofa do mundo”. O engraçado que iniciou a história é que a tia Marilda era uma mulher alta e bem forte fisicamente, que se empolgava com o excesso de “fofura” da minha pessoa quando me abraçava: eu me sentia aprisionado por um faixa preta de jiu-jitsu!

O resultado foi uma reclamação para minha mãe que achou a queixa mais divertida do que problemática. Ela chegou a comentar com a minha tia, claro, mas o efeito durava uns dez minutos e depois o padrão retornava. Enfim, eu “que lutasse” com os segundos eternos do abraço que me impedia de respirar, quiçá mexer os braços ou balbuciar um “– Oi, titia...”.

A partir daí, o abraço de “amor sufocante” da tia Marilda se tornou antológico na minha casa, especialmente nas conversas com a minha mãe. Gosto muito dos meus tios, deixo claro aqui, mas quero aproveitar a lembrança para colocar algo importante sobre a nossa biologia e suas repercussões na saúde física e mental.

Somos animais sociais e baseamos nossa capacidade de sobrevivência no pertencimento a um grupo forte. No fim das contas, a nossa segurança passa sempre pela integridade “do bando” em se sustentar diante dos desafios do ambiente e por isso o chamado “pertencimento” é um dos atributos biológicos de maior importância.

Contudo, do lado “de dentro” do grupo, cada indivíduo se comporta com seu grau de liberdade e expressão, guardando uma “certa distância” das expectativas do coletivo sobre você, através da divergência de opiniões e as aspirações pessoais, por exemplo.

Na natureza mais primitiva esta “expressão de individualidade” se manifesta como ... espaço. Enquanto grandeza física no mundo natural, o espaço e a distância permitem que cada um exerça a própria vontade sem a interferência de outro indivíduo exercendo o próprio grau de liberdade.

Simbolicamente, a distância que mantemos de indivíduos do nosso convívio reflete o grau de abertura, empatia e intimidade com o qual nos sentimos confortáveis em conviver com eles, mostrando a nossa tolerância com o diferente e, claro, fazendo parte da nossa habilidade social.

No entanto, quando nos encontramos impedidos de alegar a sensação de invasão, às vezes até porque circunstâncias culturais acabam por “normalizar” a atitude, é comum que o corpo se manifeste para deixar claro a necessidade: dores no aparelho locomotor, as famosas tendinites e bursites, em particular na região dos cotovelos podem ter uma raiz psíquica em um pedido inconsciente por movimentos de afastamento e busca de mais espaço. 

Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura, com formação em medicina tradicional chinesa, osteopatia e inteligência sistêmica.

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