OPINIÃO

A Copa e o espelho argentino


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A Copa do Mundo, para além das jogadas em campo, funciona sempre como uma lente que amplia comportamentos e revela o que os países preferem manter guardado. Foi assim que o mundo assistiu, através das câmeras e dos microfones abertos da torcida e de comentaristas argentinos, a algo que muitos latino-americanos já sabiam e que agora ganhou visibilidade internacional: a Argentina carrega um racismo profundo e, ao mesmo tempo, cultiva a fantasia de não pertencer à América Latina.

Falas soltas na televisão, cânticos ofensivos nas arquibancadas e comentários que tentavam separar a Argentina do restante do continente expuseram uma autoimagem que muitos argentinos cultivam há gerações: a de um país europeu transplantado, mais próximo da Itália ou da Espanha do que do Brasil, do Peru ou da Bolívia. Essa narrativa, sustentada por décadas de política de branqueamento e por um imaginário que idealiza a ascendência europeia em detrimento das raízes indígenas e afrodescendentes, finalmente apareceu com nitidez diante do público global.

E aqui cabe uma reflexão que talvez incomode mais do que a própria crítica à Argentina: esse racismo não deveria nos surpreender, porque o Brasil convive com o mesmo mal, entranhado nas mesmas estruturas históricas. A diferença essencial está na exposição. O racismo argentino apareceu porque as câmeras estavam ligadas e o contexto da Copa amplificou vozes que normalmente circulam apenas internamente. O racismo brasileiro, por sua vez, segue operando de forma mais silenciosa, disfarçado em piadas, em desigualdades naturalizadas e em um mito de democracia racial que ainda seduz parte da sociedade.

Reconhecer o racismo argentino sem admitir o nosso seria hipocrisia e, ao mesmo tempo, perder a oportunidade de olhar para dentro. Os dois países compartilham heranças coloniais parecidas, processos de embranquecimento incentivados pelo Estado e uma dificuldade histórica de lidar com suas populações indígenas e negras. A Argentina apenas escancarou, diante do mundo, algo que a América Latina inteira precisa enfrentar com honestidade.

O episódio, portanto, vale menos como acusação e mais como convite: usar esse momento de exposição alheia para olhar também para nossas próprias contradições raciais, antes que precisemos de uma Copa do Mundo para nos forçar a fazer o mesmo exercício de autocrítica.

Samuel Vidilli é cientista social

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