OPINIÃO

O que o futebol faz


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Preciso começar com uma confissão. Não entendo absolutamente nada de futebol. Nunca gostei do jogo, nunca gostei de jogar, e a verdade é que nunca gostei de jogo nenhum. Sou daquelas pessoas que ficam nervosas diante de qualquer disputa. Quando estou ganhando, transformo-me num jogador arrogante e prepotente, convencido da vitória, subestimando companheiros e adversários. Quando estou perdendo, recuso que façam comigo aquilo mesmo que eu faria sem pestanejar. Por isso decidi, faz tempo, que não jogaria mais. Nem cacheta, nem buraco, nem uno, nada. Não sou um jogador e me reconheço assim, com tranquilidade.

Também não costumo assistir. Cheguei a cultivar, em algum momento da vida, uma predileção pelo tênis, que me parece um esporte de rara beleza. Fora isso, sou alguém que vê os jogos de longe. As copas do mundo sempre foram, para mim, ocasiões sociais, encontros em que reúno os amigos, faço uma festinha, como algo diferente, bebo algo diferente, e rio muito. Era esse o sentido que elas guardavam.

Hoje, e por isso escrevo, duas coisas diferentes aconteceram. Fui ver o jogo na casa de amigos queridos e me emocionei. Foi uma partida difícil a da nossa seleção contra o Japão, e a virada no fim me devolveu, de surpresa, o torcedor apaixonado que eu insistia em dizer que não era. Pouco depois, com emoção ainda maior, vi a vitória do Paraguai. Comoveu-me ver os paraguaios nas imagens da transmissão, um povo de um país tão sofrido, que atravessou tantas e tantas dificuldades ao longo de sua história.

Não pretendo discutir aqui as dores do Paraguai e tampouco as questões históricas que as explicam. O que me ocupa é outra coisa, mais simples e mais funda. É o que o futebol faz.

Continuo não sendo um apaixonado pelo esporte, e nem desejo sê-lo. Ao mesmo tempo, há algo que preciso dizer e deixar claro. O futebol é muito mais que um jogo.

Ele é muito mais porque mexe com as emoções das pessoas. Lida com o sentimento de pertencer a um grupo, com a ansiedade e a espera, com a tristeza que aperta e a alegria que transborda, com a glória e também com a derrota. Lida com tudo aquilo que somos. Num mesmo lance se concentram a esperança de uma torcida inteira, a memória de um povo, a vontade de existir e de ser reconhecido diante do mundo. É por isso que um gol no fim faz chorar gente que jurava indiferença, e eu fui, hoje, uma dessas pessoas.

Termino como comecei: com honestidade. Não gosto de futebol e não entendo as suas regras. Reconheço, e digo isso com sinceridade, que se trata de um esporte eminentemente humano, e por isso mesmo maravilhoso. Há esportes que são apenas jogos. E há este com uma bola no pé, que se tornou um modo de o coração humano se dizer por inteiro.

Samuel Vidilli é cientista social 

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