OPINIÃO

A vida é um Bolão da Copa


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Todo mundo  concorda que os jogos dessa copa estão acabando com o bolão de qualquer um, né? Mas vamos combinar que mesmo assim, participar de um bolão é legal demais.

Esse tipo  de brincadeira deixa a Copa muito mais interessante do que já é, porque cria em você um interesse por jogos que você provavelmente não daria a mínima. Eu por exemplo, fico acordado até tarde para assistir partidas que passariam longe do meu interesse.

Uma manhã  dessas, por exemplo, a primeira coisa que eu fiz quando acordei foi olhar o resultado do jogo da madrugada no meu celular só para ver quantos pontos eu tinha feito no Bolão.

Sem contar  o espírito de competitividade que nasce entre você e os outros palpiteiros. Tem bolão que vale dinheiro, tem bolão que só acontece pela zoação. Não importa, ganhar é bom até no par ou ímpar.

Mas ganhar  um bolão não é muito a minha praia. Nas últimas duas copas, eu e mais dois amigos fizemos um bolão e eu fiquei em terceiro lugar nas duas oportunidades. Uma prova da minha incapacidade em dar bons palpites futebolísticos.

Mas isso  não me desanimou nem um pouco quando eu descobri que em uma das escolas que dou aula, iria rolar um bolão institucional com premiação e tudo mais. Ignorei minha má sorte das últimas vezes e já fui dando meus primeiros palpites. Até o momento eu estou com 167  pontos e na incrível 37ª posição do ranking do Bolão entre 71 competidores.

Até agora,  eu só cravei dois resultados. O resto ou eu passei longe ou bati na trave com gosto. Ontem mesmo eu ia cravar meu terceiro jogo. Um 0x0 evidente. E eu assisti ao jogo torcendo para os goleiros e os atacantes não verem a cor da bola. Tudo estava dando certo.
Jogo ruim. Resultado ótimo para mim. Mas aí, aos 46 minutos do segundo tempo, no apagar das luzes do estádio, gol.

Eu tinha  tudo para ficar morrendo de raiva. Mas eu não fiquei. Sabe por quê? Eu me lembrei do Zenão. E eu não estou falando do integrante do meio campo da democracia corinthiana e seus belos bigodes. Estou falando do pai fundador dos estóicos, o Zenão de Cítio. Se esse  cara jogasse em um Bolão, ele provavelmente não se daria muito bem, a julgar pela sua falta de sorte.

Comerciante  de Chipre, viu seu barco naufragar com toda sua mercadoria após uma tempestade. Sem um puto no bolso, foi parar em Atenas e tentar reconstruir a vida por lá. Como era um estrangeiro, não tinha nenhum direito e não teve vida fácil. Zenão tinha tudo para ficar  chateado, jururú, borocoxo e sem vontade de cantar uma bela canção. Mas concluiu o óbvio: A verdadeira liberdade reside em aceitar o destino com serenidade e agir sempre com virtude e razão.

Pensa comigo:  Zenão tinha controle sobre a tempestade que naufragou seu barco? Não! Se ele ficasse bravo, isso faria seu barco voltar do fundo do oceano? Também não. Zenão tinha controle sobre a democracia Ateniense? Não. Se ele ficasse bravo, iria se transformar em um  cidadão de Atenas? Não também. Agora troca a tempestade e o barco, Atenas e suas leis pelo jogo da Copa e o Bolão.

A lógica  estóica é muito simples. Não podemos perder o controle se nunca tivemos o controle de fato. O que eu posso fazer se o time azarão faz um gol milagroso mudando um resultado que já parecia certo? O que posso fazer se o time favorito para ganhar o torneio não  consegue fazer um único gol na seleção estreante em Copas? O que eu posso fazer se o time que deveria ganhar perde e o que deveria perder ganha?

Nada. Eu  não posso fazer nada. Porque nada disso está sob o meu controle. Num bolão estoico, um palpite não tira o sono de ninguém.

Conhecimento  é conquista.

Felipe Schadt é jornalista, professor e cientista da comunicação 

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