OPINIÃO

O que Jundiaí perde


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A morte de meu amigo Claudemir Roque Tossato, há duas semanas, me fez querer escrever. A necessidade era registrar o que ele contribuiu para a história de Jundiaí, antes que o tempo apague.

Claudemir era professor doutor em Filosofia, docente da Unifesp. Uma pessoa de rara generosidade intelectual. Tive o prazer de compartilhar com ele muitas idas e vindas à USP, e guardo nisso uma gratidão que este texto tenta honrar.
Além do amigo, além das conversas, é fundamental falar do jundiaiense e de sua contribuição para a cidade.
Foi graças à visão metodológica, criteriosa e zelosa de Claudemir que existiu uma tentativa séria de preservar a memória de Jundiaí. Ele foi o grande arquiteto desse projeto. Nos anos 1990, ao lado de Maria Ângela Borges Salvadori, Paulo Vicentini, Walter Fagundes Morales e outros, delineou os procedimentos, as metodologias e os padrões de catalogação que transformaram o acervo histórico enfurnado no Solar do Barão em um conjunto de alto caráter científico. Era ele quem avaliava cada proposta, cada passo, cada decisão metodológica, e quem exigia que uma coleção estivesse completa antes que a próxima começasse. Esse rigor era respeito pela memória de quem ainda não havia sido visto.

Explico.

Havia uma prioridade mantida em tudo que faziam: tornar visíveis os africanos, os afro-brasileiros, os trabalhadores e os povos originários cuja presença em Jundiaí existia nos documentos, soterrada sob décadas de descaso. Entre 1992 e 2002, e depois entre 2018 e 2022, milhares de itens foram organizados com base nessa visão. Claudemir avaliou e desenvolveu o sistema SISMU, capaz de integrar acervos de origens diversas numa organização lógica e sustentável. Ajudou ainda a criar uma escola de formação de quadros pela Fundação Casa da Cultura, para tornar os acervos acessíveis à população em geral.
Entre 2017 e 2024, tudo o que era possível foi feito para retomar o patamar de 2002. A atual administração foi alertada sobre a importância desse esforço para a memória de africanos, afrodescendentes e povos originários da cidade.

Com a morte de Maria Ângela, em setembro de 2024, Claudemir não parou. Um acordo com o Centro de Memória da Unicamp havia permitido a digitalização de mais de 500 processos judiciários dos séculos XVIII e XIX envolvendo africanos em Jundiaí, sendo 368 realizados entre outubro e dezembro de 2024. A mudança de administração encerrou tudo. Claudemir elaborou ainda as bases de um fundo destinado a bolsas para a formação de pesquisadores na cidade, com metodologia científica e critérios rigorosos de avaliação. Tudo para honrar a querida Ângela e a memória da cidade.

A Prefeitura de Jundiaí não respondeu à proposta.

A indignação de Claudemir era proporcional ao que estava em jogo. Com o apoio de Paulo Vicentini, levou o fundo para Alagoas, onde encontrou interlocutores à altura do trabalho. Jundiaí perdeu o que ele havia construído aqui, e grande parte do catalogado entre 1992 e 2002 se perdeu junto, pela ausência de vontade política para tratar a memória como política de Estado.

Escrevo porque Claudemir dedicou a vida a tornar visível o que a história tentou esconder. Seria um desperdício deixar que o trabalho dele desaparecesse nesse mesmo silêncio.

No fim, Jundiai perdeu muito mais que Claudemir.

Samuel Vidilli é cientista social

Comentários

1 Comentários

  • Valdir Fossa 18/06/2026
    Longe dos olhos, perto do coração. Claudemir ainda vive e viverá por muitos e muitos anos em nossos corações. Sua humildade e caridade e muita, mas muita sabedoria em sua trajetória por este mundo deixará um legado que jamais será esquecido. Te amamos demais, Claudemir. Descanse em paz.