Por que a Copa do Mundo mexe tanto com os nossos ânimos? E mexe do mesmo jeito com muita gente diferente. Parece que a Fifa colocou alguma coisa na nossa água que faz do ateu ao cristão entrar em transe coletivo à espera de um jogo de futebol.
Parece que não se fala em outra coisa. Parece que tudo pode esperar. Parece que nada é mais urgente do que acompanhar a seleção de futebol. E não importa se a seleção é ou não favorita, a gente quer viver isso com toda intensidade que a gente puder. A Copa é catarse pura.
Eu me lembro da primeira vez que eu fui a um estádio de futebol na minha vida. Foi em 2005 para um jogo da Copa do Brasil entre o Paulista de Jundiaí e o Internacional de Porto Alegre. Eu não torço para nenhum dos times, mas naquele jogo eu experimentei a catarse pela primeira vez.
O Paulista ganhou nos pênaltis e eu me lembro de abraçar enlouquecidamente o meu padrinho, que também não torcia para o time de Jundiaí. Nós dois felizes e eu com os olhos cheios de lágrimas vendo todo o Jaime Cintra comemorar a inédita vaga para a semi-final daquele campeonato que seria vencido pelo time jundiaiense. Um dia antes, eu nem sabia que Jundiaí tinha um time de futebol.
Pense na catarse como uma forma de colocar sentimentos para fora a partir de um gatilho.
Talvez isso soe como psicologia de garagem, mas acho que sei o que aconteceu. O gatilho foi a atmosfera do estádio de Jundiaí e os sentimentos que estavam presos eram relacionados a minha vontade de ver um jogo ao vivo. Eu sempre amei futebol, mas até aquele momento eu nunca tinha ido a um estádio. Se Walter Benjamin estivesse na arquibancada comigo, ele diria que o que eu estava vendo ali, era a aura do futebol.
E o futebol é uma experiência coletiva. Assistir um jogo sozinho é quase que melancólico se comparado com dividir uma mesa de bar com um amigo para acompanhar a mesma partida. Imagina dividir um estádio com milhares de pessoas vivendo e compartilhando sentimentos muito parecidos...
O professor Miguel Nicolelis, palmeirense doente, não cansa de dizer em suas entrevistas (as quais eu não perco uma sequer) sobre as Brainets, ou Redes Cerebrais. Ele acredita que podemos ter uma conexão direta entre múltiplos cérebros para formar um "supracérebro" coletivo. Nessa rede, a atividade elétrica de diferentes cérebros é sincronizada para executar tarefas ou atingir um objetivo comum.
Penso que uma torcida de futebol funcione exatamente assim. Isaac Asimov apresentou um conceito parecido em seus livros de ficção científica. Ele falava de consciência coletiva que apareceu como tema principal do último livro do Dan Brown que eu acabei de ler.
Eu sinto que a Copa cria um clima diferente. Mesmo quem não gosta de futebol acaba entrando nesse clima, acaba se conectando mentalmente com todo mundo.
Quando você menos esperar, você vai estar vestido de verde, amarelo e azul em algum churrasco fazendo comentários sobre a escalação da seleção e sentindo aquele frio na barriga habitual antes de um jogo. Daí para a catarse é um pulo! Aceita! Abrace a Copa. Você vai, quase de maneira inconsciente, vibrar a cada gol e sofrer quando e se a derrota do Brasil vier assim como todo mundo.
Bom... todo mundo mais ou menos. Acho que agora você vai se decepcionar muito comigo.
Eu amo a Copa do Mundo. Quando eu vejo ela se aproximando, eu abro os braços e deixo o efeito manada me arrastar para qualquer lugar que tenha cheiro de futebol. Mas eu não torço para a Seleção Brasileira. Eu torço para a Alemanha. E sim, eu comemorei cada um daqueles sete gols.
Mas isso é papo para outro texto... Por hora: haja coração, amigo. Ou melhor: haja cérebros conectados. Viva a catarse do futebol! Conhecimento é conquista!
Felipe Schadt é jornalista, professor e cientista da comunicação