OPINIÃO

Velório em vida


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O velório é um costume que arrefeceu muito no período da pandemia. O medo da contaminação, a urgência no sepultamento, tudo fez com que a cerimônia das despedidas fosse abreviada e o luto praticamente desaparecesse como hábito arraigado nas famílias brasileiras, herdado da colonização europeia.

 Todavia, nunca houve dúvida de que velório, ou vigília, ou exéquias, coisa diferente do funeral ou enterro, só ocorre diante de uma morte. Mas o impossível às vezes acontece. Houve um brasileiro, Tiago Pitthan, que quis fazer seu velório ainda vivo.

Ele foi diagnosticado com câncer e viu essa maldita doença progredir rapidamente. O advogado e turismólogo de 46 anos se submeteu a várias cirurgias, porém não obteve cura. Constatou-se metástase.

Resolveu, então, aproveitar o que lhe restasse de vida e fazer um velório prévio. Ideia muito original e que poucos devem achar seja de bom gosto. Partiu de uma filosofia pessoal de Tiago, que pensou: “...passei a lidar com a consciência de que iria morrer de câncer. Foi um choque no início. Mas desde que eu me recompus, entendi que vou morrer uma vez só. E, até isso acontecer, eu vou viver, vou viver bem e vou ser feliz. É o que venho fazendo”.

A doença progrediu e passou a limitar concretamente sua vida: “Até então, em fazia quimioterapia a cada 15 dias, mas trabalhava, estudava, treinava, sou muito ligado à atividade física. Quando o câncer atingiu os pulmões, eu já não conseguia mais respirar direito. Em dois meses e meio, perdi vinte e dois quilos. Já não tenho mais fôlego, fiquei fraco. O câncer e a morte se tornaram reais”.

Ao perder seu pai, Alan Pitthan, percebeu que o velório poderia ser mais leve, bonito e até alegre. “Foi uma coisa linda, conversando com os amigos dele, com os meus, contando histórias. O tempo todo eu pensava que só faltava meu pai ali. Então eu decidi que não ia faltar ao meu velório. Eu quero estar lá, subir no palco, fazer surpresas”.

Resolveu realizar um velório em vida, uma celebração da vida. Ele encarou a ideia com muita leveza. “Peço para os amigos não respeitarem o câncer: a gente faz piada dele”.

É preciso fazer com que a “inimiga das gentes”, a “ceifadeira”, a “semeadora do pranto e das desgraças” não seja concebida como pavor, mas considerada uma fase necessária, pela qual todos passaremos, mais dia, menos dia. Tiago tem uma concepção bem lúcida e instigante: “A morte é um detalhe. O importante é a vida que eu levo, a vida que eu vou levar até o dia em que eu não puder mais. Eu tive e tenho uma vida boa. Sou um cara feliz. Tenho câncer, mas o câncer não me tem”.

Uma ideia interessante, mais uma que surgiu depois da morte assistida de Antonio Cícero, que foi à Suíça para morrer, ao perceber que iria perder os movimentos e, em seguida, sua capacidade cognitiva. Viajou, ficou alguns dias naquela nação civilizada, onde todas as pessoas podem, se quiserem, tomar substâncias que lhe abreviem o sofrimento. Para Antonio Cícero, os dias que antecederam a ingestão do veneno “foram os dias mais felizes” da sua vida.

Não tinha, até então, notícia de velório em vida. Já tive um episódio real de pessoa que compareceu à própria missa de sétimo dia. Publicou-se um anúncio de seu falecimento, mas era falsa. Ele continuava a existir. O convite para a missa contou com sua presença. Ele depois comentava: - “Foi interessante verificar quem iria à missa por intenção de minh’alma”.

Pense-se ou não na morte, queira-se ou não, ela continua a ser a mais democrática das ocorrências na vida de qualquer pessoa. Ninguém a ela escapa. Portanto, vivamos melhor. Reconciliemo-nos. Preparemo-nos. Ela está à nossa espreita.

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo

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