NA REGIÃO

Saúde e segurança vão pautar debate eleitoral

Por Alan Cavalieri | Jornal de Jundiaí
| Tempo de leitura: 5 min
Divulgação
Eleições 2026 serão marcadas pela cobrança de soluções práticas para problemas cotidianos
Eleições 2026 serão marcadas pela cobrança de soluções práticas para problemas cotidianos

Especialistas locais preveem saúde e segurança como os temas mais relevantes para os eleitores da Região Metropolitana de Jundiaí (RMJ). A eleição tende a ser menos ideológica e mais pragmática, já que o eleitorado busca respostas concretas para problemas cotidianos que afetam diretamente a qualidade de vida. O debate deve se concentrar mais na capacidade de gestão e na entrega de resultados do que em grandes embates políticos.

Esse pragmatismo amplia os desafios dos candidatos a deputado diante da polarização nacional. 
O cientista político e doutorando pela Unicamp, Fabiano Pereira, avalia que, embora saúde e segurança apareçam como prioridades da população, ainda existe forte influência da polarização política no comportamento do eleitor. Segundo ele, “eleitorado quer respostas rápidas a problemas do cotidiano, mas o cenário político nacionalizado acaba interferindo na percepção sobre quem é responsável por cada área”. Ele ressalta que a disputa entre grupos políticos que dominam o cenário nacional há anos pode confundir questões de competência federal, estadual e municipal.

A RMJ, formada por sete municípios e com população próxima de 800 mil habitantes, conta atualmente com apenas 726 leitos hospitalares vinculados ao SUS. O número está abaixo do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que orienta entre três e cinco leitos para cada mil habitantes. Na prática, a região teria necessidade de quase o triplo da estrutura disponível na rede pública.  Por isso, entre os temas mais discutidos entre a comunidade estão a criação de novos leitos hospitalares, redução das filas de exames e cirurgias, fortalecimento das UPAs e UBSs, contratação de médicos e especialistas, além da construção de hospitais regionais.

No quesito segurança, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025 mostra que, apesar da queda da violência letal no país, persistem fatores associados ao aumento da sensação de insegurança no cotidiano. Os dados registram, por exemplo, redução de 5,4% nas mortes violentas intencionais em 2024, mas aumento de 4,9% nos desaparecimentos. Na avaliação do especialista, isso acontece “porque a percepção de violência deixou de estar associada apenas aos crimes armados e aos homicídios”.

Em Jundiaí, o cenário não é diferente. Levantamento do JJ no painel estatístico da Segurança Pública de São Paulo mostra, nos dados mais recentes referentes ao mês de março, redução em crimes como furto de veículo (-24,1%), roubo de veículo (-8,1%) e tentativa de homicídio, que caiu de seis para três casos no comparativo  entre 2025 e 2026. Em contrapartida, os casos de roubo cresceram 6,25%, passando de 96 para 102 registros, enquanto o estupro de vulnerável praticamente dobrou, saltando de 15 para 28 ocorrências, sem contar os crimes digitais, mais comuns no dia a dia da população.

Pereira contextualiza afirmando que há hoje uma “territorialização da violência”, mais estruturada e menos visível, ligada ao domínio de espaços urbanos, ao avanço do crime organizado e à sensação permanente de vulnerabilidade social. Segundo ele, esse cenário ajuda a explicar por que o debate eleitoral tende a se concentrar mais na percepção de segurança da população do que apenas nos indicadores criminais.

Segundo análise de lideranças locais, as propostas mais prováveis envolvem aumento do efetivo das guardas municipais, ampliação do monitoramento por câmeras, implantação de muralhas digitais, integração regional entre cidades e ações de combate ao tráfico.

Jogo político será um desafio para candidatos

Para o cientista político, o cenário por cobranças pragmáticas, mas com “pano de fundo polarizado”, será  um desafio para governantes e candidatos, “que precisam equilibrar estratégia política e cobrança por resultados práticos, e um eleitorado que está atento às incoerências ideológicas” . Segundo ele, mesmo em eleições regionais como de deputado estadual e federal, o jogo político nacional influencia alianças, articulações partidárias e construção de candidaturas.

O debate chegou aos partidos locais. Segundo o presidente do Republicanos, Fernando de Souza, o partido pretende conduzir uma discussão “técnica, temática e com propósitos” nas eleições de 2026, distante da polarização ideológica. Ele defende que o diálogo político esteja centrado em projetos e propostas concretas, e não em disputas pessoais ou paixões ideológicas.

Na avaliação dele, “enquanto a polarização se concentra em pessoas, a discussão técnica deve priorizar projetos de Estado, com objetivos claros e resultados práticos”. Ele ainda afirmou que os futuros candidatos do partido precisam apresentar mensagens claras, racionais e voltadas para metas de curto, médio e longo prazo, defendendo a construção de um plano nacional com horizonte de 30 anos.

Já para a dirigente do PT, Rosaura Almeida, “não há uma separação entre uma resposta pragmática real e a ideologia partidária. Essa divisão simplesmente não existe”, afirmou. Segundo ela, quando um candidato se filia a um partido político, automaticamente se vincula ao plano ideológico daquela legenda.

Ela defende que as diferenças partidárias aparecem em pautas econômicas e sociais, como propostas que tramitam no Senado e na Câmara sobre a escala 6x1, a lei da anistia, entre outras. Ressalta que partidos de outras siglas muitas vezes tentam separar o discurso ideológico da prática política apenas quando enfrentam contradições entre posicionamentos. Enfatiza que “no Partido dos Trabalhadores, assumimos claramente o partido ao qual estamos vinculados”. Para ela, durante a campanha eleitoral, os candidatos acabarão demonstrando suas posições ideológicas por meio das próprias propostas apresentadas à população.

Para o cientista social, o fenômeno que se vê é que a polarização “sai da política e vai para as relações sociais”, criando um ambiente em que o eleitorado tende a consumir apenas conteúdos alinhados às próprias crenças. Na avaliação dele,” isso ajuda a explicar por que nomes como Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro seguem como principais referências eleitorais nacionais, ao mesmo tempo em que existe espaço para o surgimento de uma terceira via”, por exemplo.

O pesquisador afirma que os candidatos tendem a enfrentar um dilema entre reforçar o discurso ideológico ou apostar em uma imagem mais pragmática e técnica. Nesse contexto, o eleitor pode enxergar determinados nomes como “em cima do muro”, especialmente quando as promessas ultrapassam a capacidade real de execução dos governos.

Eleitorado é refém da polarização?

O cientista político avalia que o sistema político brasileiro ainda é fortemente estruturado em partidos e alianças nacionais, o que obriga candidaturas a equilibrar interesses partidários, demandas regionais e expectativas locais do eleitorado.

Segundo ele, “a permanência dos mesmos grupos no centro da disputa nacional ajuda a manter a polarização política”. O pesquisador também destaca que temas como segurança pública acabam nacionalizados no debate político, mesmo sendo atribuição constitucional dos estados, por exemplo, o que amplia a confusão da população sobre as responsabilidades de cada esfera de governo.

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