O congelamento de óvulos tem se tornado uma alternativa cada vez mais procurada por mulheres que desejam adiar a maternidade, seja por questões profissionais, pessoais ou de saúde. Segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o número de ciclos de congelamento aumentou 98% entre 2020 e 2023 no Brasil, especialmente entre mulheres com menos de 35 anos.
Apesar da popularização do procedimento e dos avanços da medicina reprodutiva, dúvidas sobre segurança, riscos e chances reais de sucesso ainda geram debate entre especialistas e pacientes. O tema voltou a ganhar destaque este ano com a morte da juíza Mariana Francisco Ferreira, de 34 anos, no início deste mês, e da terapeuta Gabriele Martins, de 31 anos, em fevereiro, ambas após a realização do procedimento.
Mesmo com esses casos, a medicina moderna considera o congelamento de óvulo um procedimento seguro. De acordo com Rogério Bonassi Machado (61), médico ginecologista, professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí e diretor científico da Associação Brasileira de Climatério, seguro não significa isento de riscos. “O procedimento, quando realizado em centros habilitados, por equipes experientes, com avaliação clínica adequada e protocolos bem estabelecidos é seguro, mas casos graves, apesar de raros, podem ocorrer, sobretudo relacionados a complicações da punção ovariana, sangramentos, infecções, eventos anestésicos ou síndrome de hiperestimulação ovariana”.
Entretanto, o doutor afirma que a maioria dos efeitos colaterais é leve e transitório, como distensão abdominal, desconforto pélvico, sensação de inchaço, náuseas, dor no local das injeções, alterações de humor e sensibilidade mamária.
Outra questão que se sobressai na discussão sobre congelamento de óvulos é a garantia de que a fertilização futura será bem-sucedida. O professor ressalta que as chances de sucesso dependem de diversos fatores, como número de óvulos maduros congelados, qualidade laboratorial, resposta individual ao tratamento e, principalmente, idade da mulher no momento do congelamento.
“O congelamento preserva os óvulos com a idade biológica que eles tinham no momento da coleta. Portanto, com o avanço da idade, há redução do número de óvulos disponíveis e aumento da proporção de óvulos com alterações cromossômicas”, afirma Rogério. Para a medicina, as chances de gravidez futura e de nascimento saudável são maiores quando o procedimento é realizado em idade mais jovem, especialmente antes dos 35 anos.
A falta de informações confiáveis, porém, gera muitas dúvidas nas pacientes. O doutor explica que há muita desinformação sobre o assunto, que vende o método como um “seguro maternidade” ou assusta ao apresentar o procedimento como extremamente perigoso.
Para Lígia Crispim Favoretto, jornalista e produtora de conteúdo de 42 anos, o problema foi a falta de informação. Lígia atua com produção de conteúdo para a área da saúde e foi por meio de eventos da indústria farmacêutica que conheceu a técnica. Na época, com 35 anos e sem um parceiro para iniciar uma família, optou por realizar o congelamento de óvulos.

Lígia Crispim Favoretto relata a importância de receber informações claras antes do procedimento
A jornalista relata que, após encontrar uma clínica de fertilidade com boa recomendação, deu início ao tratamento, que se seguiu sem nenhum efeito colateral. Além do ultrassom transvaginal e exames de sangue, Lígia realizou 23 injeções hormonais, em um período de quatro semanas, o que resultou na coleta de 17 óvulos, 13 maduros para o congelamento.
“Não tive medo ou insegurança sobre o procedimento e foi super tranquilo. No geral, foi uma boa experiência. Mas, depois de seis anos, descongelei os óvulos e tentei a FIV. Nessa etapa, a expectativa não foi correspondida e tive muitas frustrações, dúvidas e arrependimentos”, explica Lígia.
Segundo ela, mesmo sabendo que o procedimento não tinha 100% de garantia de gravidez, sentiu falta de alguns esclarecimentos antes de dar início ao processo. “Senti falta de informações sobre as medicações que estava tomando, e achei arriscado e complexo ter que manipular os injetáveis sozinha em casa.”
Além disso, Lígia descobriu posteriormente que a realização da FIV é mais garantida antes dos 40, algo que o médico não a informou. “As taxas de eficácia de uma FIV são pequenas e, normalmente, só dão certo após três tentativas. Apenas três óvulos fecundaram, então fiz uma transferência embrionária de um óvulo, em outubro de 2025, que não deu certo.”
Depois, em dezembro do mesmo ano, Lígia realizou uma nova transferência, dessa vez dos dois óvulos restantes. Apesar de ter engravidado de gêmeos, Lígia perdeu os bebês com apenas oito semanas. “Soube de outro médico, depois, que o índice de aborto espontâneo com transferência de dois embriões é altíssimo. Faltou informação sobre as taxas de sucesso da FIV e os riscos. Agora, com 42 anos, tenho que começar do zero, sem óvulos ou embriões.”
Hoje, Lígia ainda vive o luto pelas perdas, no caminho para ressignificar a ausência. Mesmo assim, o sonho de ser mãe ainda persiste, paralisado apenas temporariamente pelas dúvidas dos próximos passos.
Apesar de segura, a decisão sobre o congelamento de óvulos exige muita reflexão e pesquisa. Para o doutor Rogério, é necessário entendimento pleno e preparo emocional. “A mulher precisa entender que o óvulo congelado é uma oportunidade, não uma garantia. No futuro, será necessário descongelar os óvulos, fertilizá-los em laboratório, formar embriões, transferi-los para o útero e aguardar a implantação. É um procedimento seguro, útil e bem estabelecido, mas envolve custo, desgaste emocional, uso de medicações, coleta invasiva, riscos raros e resultados que não são garantidos.”