Papo de adulto na coluna hoje, pode ser? Quando falo para as pessoas que vivemos em uma sociedade de traumatizados e que muitos dos sintomas das tão frequentes doenças são agravados (ou causados) por essa condição, muitos me acham um exagerado.
Eu entendo. Quando falamos de trauma, é comum visualizarmos um evento brutal e inesperado que o causa, como um acidente, uma violência física, um abuso moral ou sexual contra uma pessoa vulnerável, cujo sistema nervoso é incapaz de reagir de forma elaborada, como é típico da infância.
Sinceramente? Bem que gostaria de ser só “um exagerado” e que esses eventos fossem exceção à regra, mas infelizmente o que se verifica no meu cotidiano de atendimento médico é justo o contrário: vários adultos vivendo dores de um passado que ainda “se faz presente” na mente e, principalmente, no corpo que adoece.
Hoje, contudo, vou falar de outro mecanismo de trauma, talvez mais frequente que o anterior. Trata-se de algo sutil e, por isso mesmo, é muito negligenciado: quando o trauma não acontece todo de uma vez, mas pouco a pouco, nas pequenas violências cotidianas, negligências tidas erroneamente como “normais”. Foram normalizadas, isso sim.
Pensamentos como: “A vida é dura, uma batalha onde somente os vencedores sobrevivem” podem causar a sensação de reconhecimento em muitos, pois já os ouviram, ditos claramente ou implícitos em outras falas e ações. Dentro dos cérebros infantis, é fácil concluir que somente através de muito esforço é que se pode “conquistar” o direito de bem viver, que ele não é para todos (afinal, se alguém “ganha”, outros “perdem”) e que sofrimento faz parte do processo, tornando-o até mais nobre, pois, claro, a ideia também normaliza o seu reverso: “sem sacrifício, não há valor”.
Para aqueles que argumentam que, com a idade, vem automaticamente o juízo para criticar esse tipo de cenário de “jogos mortais”, eu entrego a fala de um influenciador de saúde e bem-estar na própria rede social: “(...) é uma luta diária para controlar hormônios, ganhar músculos, perder peso, dormir bem, pagar as contas, lembrar de tudo e não endoidar” – bem, endoidar é um risco real. Isso me parece opressão disfarçada de bem-estar.
Vítimas maiores são (novamente) as mulheres enfrentando uma sociedade de desempenho e cobrança militares que não compreende o feminino, exigindo que elas passem a vida em “jornada dupla”: ótimas executivas e boas mães; sucesso no empreendedorismo financeiro ao mesmo tempo de acolhimento familiar incondicional; a maioria não consegue desempenhar o suficiente em todas as áreas e é comum um sentimento de culpa e ansiedade entre elas, mas, vejam, estes critérios podem ser ainda mais cruéis com aquelas que “conseguem” comutar tudo ao mesmo tempo.
Quando chegam próximo à menopausa, começa a diminuir a força do feminino que durante uma vida inteira foi condicionado para caber nos padrões de sucesso, beleza e até mesmo maternidade que são mais adequados ao seu tempo e sociedade do que ao seu desejo mais natural. Seus corpos, então, exigem serem genuinamente ouvidos pela primeira vez, através de calores, insônias, inflamações, queda de cabelo e libido, já que lhes falta voz que possa dizer “será que agora eu posso ser eu?”
Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura, medicina tradicional chinesa, osteopatia e criador do método de medicina psicobiológica