EM JUNDIAÍ 

Violência contra a mulher está em todas as classes sociais

Por Nathália Souza |
| Tempo de leitura: 5 min
Divulgação
Caso da professora serve de alerta para todas as mulheres 
Caso da professora serve de alerta para todas as mulheres 

A violência contra mulheres não tem preferência por classe social, escolaridade ou endereço. A professora Karina Maciel Tomazini, de 45 anos, viveu o ciclo da violência de forma muito rápida. No começo, o homem era educado e carinhoso. “Em nenhum momento, durante todo o tempo em que estivemos juntos, desde agosto, houve qualquer sinal de agressividade. Pelo contrário, ele era muito parceiro no dia a dia, participativo em casa e, fora o horário de trabalho, estava sempre ao meu lado.”

Ela já conhecia familiares dele e, por isso, sentia confiança até que a violência ocorreu. “O episódio aconteceu na madrugada de segunda-feira, após a Páscoa. Eu acordei durante a noite com insônia. Como sempre tivemos a senha do celular um do outro e o meu estava com a tela quebrada há dois dias, peguei o celular dele, que estava ao lado da cama, apenas para fazer uma consulta no Google.”

Ao desbloquear o aparelho, o WhatsApp estava aberto em conversas.  “Ao ler as mensagens, descobri que se tratavam de conversas com amantes. Havia relatos de encontros frequentes durante o horário comercial, e o que mais me marcou foi perceber que essas mulheres sabiam da minha existência — e, ainda assim, ele me difamava, dizendo que permanecia comigo apenas por causa da filha”, relata.

Ao perceber a infidelidade, ela resolveu questionar o então namorado, mas a reação dele foi negativa. “Ele se levantou imediatamente, muito alterado, com um olhar de fúria, e começou a tirar roupas do armário, sem dizer nada. Eu tentei intervir, segurando os cabides e pedindo que ele fosse embora e que eu enviaria os pertences depois. Nesse momento, ele passou a jogar cabides em mim, alguns chegaram a atingir até meus cachorros. Eu pedi que parasse e insisti para que saísse do apartamento — que sempre foi meu, mesmo antes do relacionamento. Foi então que a agressão física começou”, relembra ela.

Karina descreve o momento: “Ele me empurrou, aplicou um golpe (chave de braço) que me fez perder o ar, me jogou na cama e me imobilizou, pressionando meu pescoço com uma das mãos enquanto segurava meu corpo com a outra. Em seguida, ele se trancou no banheiro por alguns minutos. Quando saiu, estava com um cabo enrolado no pescoço, simulando um enforcamento. Tentei impedir, pedindo que parasse, mas sem sucesso. Ao sair do banheiro, ele me atingiu com o cabo com força no rosto e voltou ao quarto como se nada tivesse acontecido”.

Karina usou um iPad para pedir ajuda ao pai, mas teve o aparelho tomado pelo homem, que começou a acusá-la, dizendo que “encontraria algo” contra ela. Neste momento, ela sofreu uma agressão mais grave. Ao acordar, ainda atordoada e com tontura, a vítima pediu para ir ao hospital, mas o agressor se recusou, dizendo que a culpa pela agressão era dela por ter mexido no celular dele, mostrando um comportamento relativamente comum em casos de agressão, quando o agressor tenta culpar a vítima. Ainda assim, Karina conseguiu contato com o pai e pediu ajuda, mas, neste momento, o ex-companheiro se dispôs a levá-la ao hospital. Ela recusou e o homem saiu do apartamento com uma mala, mas minutos depois voltou, chorando, pedindo perdão e, surpreendentemente, também pedindo que Karina cuidasse da filha dele. A vítima pediu que ele fosse embora e conseguiu encontrar o genitor para buscar atendimento médico.

“A primeira grande dificuldade foi, ainda na emergência, conseguir dizer pela primeira vez que eu havia sido agredida. É um momento de extrema vulnerabilidade e exposição. Inicialmente, eu disse que tinha caído, mas, pelas marcas no meu corpo, a enfermeira percebeu rapidamente que se tratava de agressão.”

Cerca de 12 horas depois do ocorrido, foi o momento do registro da denúncia na delegacia. “Passei aproximadamente três horas entre a delegacia e o IML, revivendo a situação enquanto precisava relatar os fatos. Em alguns momentos, cheguei a me culpar e a duvidar de mim mesma como mulher por ter passado por aquilo. É muito diferente quando você lê notícias sobre violência — parece algo distante da nossa realidade.”

Karina relata que foi muito bem atendida em todos os espaços por onde precisou passar, como o hospital e a delegacia. O suporte foi fundamental para que ela conseguisse prosseguir com a denúncia. Além disso, teve uma rede de apoio. Estar rodeada de incentivo, para Karina, foi importante para conseguir a quebra do ciclo de violência. “Até hoje, sigo cercada de apoio — de pessoas próximas e até de outras que se aproximaram ao saber da situação, movidas pela indignação e pela solidariedade.”

“Uma das coisas mais marcantes para mim foi perceber o quanto as mulheres se unem diante dessa causa. Existe uma força coletiva muito grande, onde a dor de uma passa a ser sentida pela outra. Esse apoio tem sido essencial para que eu consiga recomeçar e, principalmente, para que essa experiência não me defina”, conta.

Hoje, se recuperando dos momentos de angústia, Karina percebe que a violência doméstica pode estar em qualquer residência. “O que mais me impacta é perceber que isso partiu de alguém com uma vida aparentemente estruturada — um homem com privilégios, família presente, bom nível de instrução, círculo social saudável e que convive com pessoas inspiradoras no dia a dia. Ainda assim, foi capaz de manter traições recorrentes e reagir com uma agressão brutal ao ser confrontado. Isso reforça, para mim, que caráter não está ligado à classe social, à formação ou ao contexto familiar.”

“Inclusive, é importante dizer que a família dele não compactua com o que aconteceu e, em alguns momentos, também me ofereceu suporte. Isso evidencia ainda mais que escolhas individuais não podem ser justificadas pelo meio”, conclui.

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