OPINIÃO

A pestilência burocrática


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Algo que macula a vida pública brasileira, como se fora peste ou castigo, é a burocracia. É uma doença inextirpável. Ela se entranhou na consciência do pequeno servidor, daquele que não gosta de mudança, pois toda a mudança é traumática, e que não quer mais trabalho do que a sua rotina insossa e inservível para melhorar a vida do povo.

A burocracia é uma espécie de corrupção. Sim. Quem ganha do povo para servi-lo, tem de atuar de forma inteligente, inovadora, criativa e entusiasta. Se não acha que ganha o suficiente, deixe o cargo para outrem e vá para a iniciativa privada. Se permanecer na administração pública, seja ela qual for, tem de dar o sangue.

O vício burocrático inibe todas as propostas inovadoras. Tolhe o empreendedorismo. Trava o progresso. E ele persiste. Aquele que integra a administração pública em caráter efetivo, sabe que o comissionado, mesmo o eleito, tem prazo de validade. Logo deixará a administração pública para os novos escolhidos. E estes, como regra, reinventarão a roda. Tudo aquilo que se propôs na gestão passada é abandonada. Para não prestigiar o vencido.

Isso não é de hoje. Quem consegue enxergar essa doença acaba ficando doente. De outra enfermidade: a indignação, por verificar que boas obras não se fazem, exclusivamente pelo boicote da cabecinha medíocre incapaz de encarar com boa vontade uma novidade. Pessimista, alardeia o insucesso. Desacredita de qualquer projeto. “Não vai dar certo! É perda de tempo!”.

Prepondera a mesmice, a inércia, a falta de vontade de imprimir eficiência à máquina emperrada, anacrônica e incapaz de bem servir.

Sempre foi assim? Infelizmente, parece que sim. Quando se lê a vida de André Rebouças e de seu irmão Antonio, hoje ambos esquecidos, constata-se que no final do império a gestão estatal era um cemitério de excelentes ideias. Quem viajava se admirava do estágio civilizado adiantado e crescente na Europa e Estados Unidos. O Brasil continuava ser a pátria do desmazelo, da insuficiência de capacidade na gestão da coisa pública. Antiquado, sujo e conformado com sua miséria.

André Rebouças era inconformado com a situação da higiene pública na capital imperial. O Rio de Janeiro era imundo. Ele se propôs cuidar das águas, de organizar o porto, de sanear a capital imperial. Nada conseguiu.

Num desabafo, ele escreveu: “Não é o momento oportuno para fazer a autópsia da centralização e do governamentalismo. Mas devemos proclamar bem alto que o estado nauseabundo, pestilento e hediondo, em que se acha a capital do Império, não é devido à falta de iniciativa, de estudos, de projetos, de planos e de esforços de toda a sorte, da Engenharia Brasileira. Mas sim à rotina burocrática, à inveja e à malevolência. Ao espírito infernal de oposição a todas as ideias de progresso. Os quais constituem o dogma fundamental do conservadorismo escravocrata”.

Tal conservadorismo, já não escravocrata – ao menos em sentido estrito, pois há outras espécies de escravidão contemporânea – prepondera em todas as esferas da Administração Pública do Brasil. O atraso vencendo a coragem. A mesmice dando o tom. A inércia travando iniciativas. A inveja impedindo que protagonismos façam a diferença.

Basta olhar o que o Brasil ainda tem de analfabetos, de seres humanos desprovidos de água potável e de tratamento de esgoto. Da excessiva e vexaminosa produção de lixo, que embora hoje chamado “resíduo sólido”, vai diretamente para aterros sanitários. Uma forma de domesticação dos lixões, mas que não passam de imensas montanhas de imundície, a gerar chorume e a ocupar áreas que deveriam ser ocupadas por florestas, parques, jardins e piscinas.

Algum dia ficaremos livres da pestilência burocrática? Depende desta geração que nasce com chip e algorítmica, que deve expulsar a necrose de qualquer fatia de governo e assumir as rédeas da condução do País a um futuro que nunca chega.

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo

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