OPINIÃO

Eles poderiam ser meus alunos


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Bruno, Victor, Matheus e João. Esses quatro nomes ganharam o país nas últimas semanas. Nomes de quatro jovens com idade entre 17 e 19 anos que praticaram o estupro coletivo de uma jovem de 17 anos em um apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro. Jovens que têm idade para serem alunos meus do Ensino Médio ou da Universidade. E se fossem?

Quando eu vi a imagem que circulou nas redes sociais e em todos os noticiários do país divulgando os rostos dos rapazes que cometeram o estupro, eu olhei bem para cada um deles e percebi o quanto eles são jovens comuns. Essa constatação é assustadora por dois motivos.

O primeiro é justamente por eles serem rostos comuns. Quero dizer, qual é o rosto de um estuprador? Pois é. Já que a pseudo-ciência de Cesare Lombroso não está mais na moda - ainda bem -, a criminalidade e o desvio de caráter não têm traços físicos. Essa pessoa que parece ser comum, mas que esconde o que há de pior em um ser humano, pode estar frequentando os mesmos lugares que você e talvez você nunca saiba disso.

O segundo ponto diz respeito a como identificar, portanto, que um jovem aparentemene comum tem a tendência para cometer um crime de estupro coletivo premeditado e arquitetado? E no caso desses jovens específicos, que acabaram de sair do Ensino Médio, é possível levantar a questão sobre o papel da própria escola na educação e prevenção desses casos?

Esses quatro criminosos não foram e nem são meus alunos. Mas poderiam ser. Isso me fez pensar um bocado de coisa a respeito do meu trabalho como professor. Será que estamos falando muito pouco sobre violência contra a mulher na escola? Será que estamos fazendo vista grossa para as piadinhas machistas na sala de aula? Será que não estamos sabendo acolher esses rapazes para que eles se sintam seguros em reconhecer sua misoginia?

Isso porque eu nem falei do suporte e apoio a parte mais importante dessa história: a vítima. O que a escola faz para proteger as meninas vítimas de violência (em todos os âmbitos possíveis)? Onde estão as redes de apoio a essas garotas e suas famílias nas unidades escolares? Estamos dando espaço para que as alunas se posicionem nas aulas para falarem o que sentem sobre esse tema?

Muitas perguntas. E adianto que as respostas que eu tenho comigo não são nada animadoras. Eu sei que se eu fosse professor desses rapazes, eu me sentiria fracassado como educador. Pior, se eu fosse professor da vítima, eu me sentiria impotente. Eu até vi um vídeo de um dos professores de um dos estupradores nesse caso. Foi devastador ver o semblante de derrota do professor.

Há quase duas semanas, eu estava preparando o material que seria exibido na aula de Geopolítica e Atualidades enquanto a turma da 2ª Série do Ensino Médio se ajeitava em seus lugares na sala de aula. Seria uma aula sobre o conflito entre EUA e Israel contra o Irã que está prestes a escalar em um guerra de proporções mundiais que irá afetar, logo menos, o combustível do mundo todo. Mas aí, eu ouvi uma conversa que me chamou atenção.

Os meninos estavam falando de um amigo deles de outro colégio que se envolveu em um problema por causa de mensagens que trocou com uma menina. Ambos eram menores. Rapidamente a conversa começou a ganhar contornos de preocupação por parte dos meus alunos que temiam pelo o que poderia acontecer com o seu amigo. Eles estavam com medo, pois mesmo sabendo que o colega não tinha feito nada de errado, sabiam das piadas machistas que ele sempre fazia.

Eu pedi a palavra. Comecei pedindo desculpas, pois a aula do dia não seria a planejada aula sobre a guerra no Oriente Médio. "Hoje, vamos falar sobre machismo, moçada", anunciei. Expliquei o que havia acontecido no apartamento em Copacabana e o crime cometido lá. Falei sobre os tipos de violência que uma mulher pode sofrer, sobretudo a violência que é tratada como piada por muitos adolescentes. A sala ficou em silêncio. Os meninos ressentidos de olhos bem abertos. As meninas acenando positivamente com a cabeça.

Quis ouví-los. Enquanto as meninas falavam de suas angústias, os meninos concordavam que estavam cercados de machismo e que isso era péssimo. O sinal interrompeu o bate-papo, mas antes eu dei o recado final: "Sabe o que nós (homens) podemos fazer? Repreender quando alguém pratica machismo, principalmente se for um amigo nosso. E se ele mesmo assim não se tocar, parar de tratá-lo como amigo".

Enquanto eu arrumava minhas coisas para ir embora, os meninos chamaram uma das meninas no canto da sala e ficaram ali conversando com ela alguns minutos. Assim que eles saíram, pedi para que ela ficasse um momento para ter um aparte comigo. Perguntei se a aula havia feito sentido. "Fez tanto sentido, professor, que os meninos vieram me perguntar agora se uma coisa que um deles falou para uma menina era uma fala machista. Eles queriam saber a minha opinião".

Pedi para eles trazerem, para a próxima aula, reportagens sobre violência contra a mulher. Vamos (e precisamos) debater mais sobre isso na escola. Conhecimento é conquista.

Felipe Schadt é jornalista, professor e cientista da comunicação

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