OPINIÃO

Heranças e Fardos


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A frase "antes de curar alguém, pergunta-lhe se está disposto a desistir das coisas que o fizeram adoecer", atribuída a Hipócrates nunca fez tanto sentido quanto nos dias de hoje. Não existe comprovação histórica de que o “pai” da medicina falou ou escreveu algo semelhante a isso, mas a expressão reflete um problema tão antigo quanto ele e que sempre esteve presente no nosso trabalho de cura e alívio do sofrimento humano.

Hoje existe muito suporte científico para a influência da percepção na gênese mais íntima do adoecimento. A epigenética trouxe consigo a explicação de que mesmo a fisiologia mais básica de um indivíduo pode se organizar em torno de uma “presença” ou uma “persona”, um mecanismo inicialmente psicológico para lidar com uma realidade difícil na própria vida.

Colocado desta maneira parece algo complicado e muito acadêmico, saído de teorias filosóficas complexas de serem entendidas, mas é justamente o contrário. Vejamos como pequenas ações, aparentemente inocentes e até mesmo úteis na nossa vida podem tomar forma dentro da nossa mente e constituírem em um fator contribuinte para a doença.

Quem já não ouviu, quando criança, que é um “pecado” se sobrar comida no prato? Eu sou o primeiro da fila com a mão levantada. Ouvi muito. Para uma criança, o peso desta frase está muito além do que é para um adulto, sendo que já é bem pesada, mesmo para ele; envolvendo religiosidade e mesmo sentimento de culpa, pois “tem gente que nem tem o que comer e você que tem essa oportunidade, está desprezando por não comer tudo que é possível”.

A criança, naturalmente, evita o sentimento de culpa implícito na afirmação, mas também aciona o “mecanismo de recompensa” cerebral quando percebe que, comendo absolutamente tudo, está fazendo exatamente o que os pais esperam dela e que, por isso, está garantindo seu lugar entre os cuidados deles.

Vendo de onde eu e você estamos agora, em uma posição “adulta”, sabemos perfeitamente que não é esse tipo de ação que vai ser o determinante para que os pais tenham (ou não) os devidos cuidados e atenção com a criança, contudo, para ela, assim se processa, sentindo-se engajada e com as emoções de sucesso e acolhimento associados à “devorar sem dó” toda a comida que lhe é oferecida.

De forma um tanto bizarra, esta expressão, muito frequente entre imigrantes europeus do pós-guerra e que resistiu por ao menos duas ou três gerações, tinha sua utilidade nesta época em que, de fato, o risco de passar fome era muito maior pela escassez do abastecimento e distribuição de alimentos, aliado ao baixo poder aquisitivo destas famílias.

Essa situação não se repete nos dias de hoje, ocorrendo o risco reverso: a obesidade e suas consequências são a realidade e comer o tanto que é possível não é mais interessante. Contrariar uma cultura de família, contudo, continua sendo arriscado, gerando uma situação em que uma lealdade é enfatizada, ainda que colabore para a deterioração da saúde do indivíduo

Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura e com formação em medicina chinesa e osteopatia

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