OPINIÃO

Mais atividade, menos autonomia


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Observando a vida das famílias hoje, existe uma coisa que me incomoda muito: o excesso de atividades programadas a que a maioria das crianças estão submetidas. Além do horário escolar, em muitos casos, em período integral, seguem-se aulas de inglês, esportes, música, balé, além dos deveres de casa e eventualmente das aulas de reforço. Todo tempo está preenchido.

A justificativa é conhecida: é preciso preparar os filhos para um futuro cada vez mais competitivo, oferecendo oportunidades, ampliando repertórios e garantindo vantagens. E,  junto com as atividades, crescem também o peso das expectativas. Não basta ir bem na escola; espera-se fluência em idiomas, excelência esportiva, habilidades artísticas e desempenho acima da média em todas as áreas.

O problema não está nas atividades em si, mas na soma delas e no sentido que assumem. Quando a formação se transforma em corrida, a aprendizagem deixa de ser descoberta e passa a ser obrigação. O resultado geralmente é o oposto do desejado: crianças ansiosas, dependentes da supervisão constante e com pouca autonomia para organizar o próprio tempo. Preparar para o futuro não deveria significar encurtar a infância.

Paradoxalmente, enquanto as escolas discutem cada vez mais a importância das competências socioemocionais — equilíbrio, empatia, resiliência, autorregulação —, muitas rotinas familiares caminham na direção contrária. Pesquisas nas áreas da psicologia e da neurociência vêm demonstrando que o descanso, o tempo livre e o brincar não estruturado são fundamentais para o desenvolvimento cognitivo e emocional.

Outro fenômeno merece atenção: diante da sobrecarga, muitas crianças encontram nas telas o único espaço de escape. O uso excessivo de dispositivos digitais, frequentemente apontado como vilão, pode ser também sintoma de agendas sufocantes.

Neste contexto, li recentemente, com prazer, a notícia de que países asiáticos, conhecidos pelo alto desempenho nas avaliações internacionais estão revendo a lógica da hiper competitividade e adotando medidas para restringir as atividades extra curriculares. Estão limitando os estudos fora do período regular numa tentativa de proteger o bem-estar das crianças. É significativo que nações que figuram entre as melhores do mundo em desempenho educacional estejam revendo essa lógica e colocando o pé no freio.

O Brasil poderia observar com cuidado essas medidas. Ao invés de ampliar indefinidamente a carga de atividades, talvez devêssemos perguntar: que geração queremos formar? Crianças exaustas e altamente treinadas ou jovens capazes de pensar por si mesmos, lidar com frustrações e encontrar sentido no que fazem?

Francisco Carbonari é ex-secretário de Educação 

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