Eu gostaria sinceramente de escrever neste Dia das Mulheres sobre os avanços que temos, em nossa sociedade brasileira, em relação à equidade de gênero. Mas, diante dos feminicídios que avançaram 5% em todo o país e 6,7% em todo o estado de São Paulo, é difícil começar esse texto sem um profundo lamento pelas mortes de mães, companheiras, filhas, assassinadas brutalmente por seus companheiros ou ex-companheiros, em sua maioria. Rezo diariamente pelos filhos destas mulheres assassinadas, que crescerão sem um colo de mãe, à mercê de uma sociedade misógina.
A desigualdade não está só na violência, está nas faltas de condições culturais e profissionais, pois embora a participação feminina avance em todos os setores, ainda enfrenta uma desigualdade salarial e de oportunidades infinda. Meninas são ceifadas precocemente de seus interesses por Matemática, Medicina e Ciências. Culturalmente, a família brasileira ainda converge em padrões em que meninas deveriam também se condicionar a realizar tarefas domésticas, na mais tenra idade.
Quanto mais vulnerabilidade social, menos tempo para estudos. Ou então, estabelecem-se diretrizes profissionais em que as meninas podem se contentar com carreiras menos competitivas. A rigidez em que as meninas são educadas em nosso país se contrapõe aos meninos, em que a liberdade, a falta de responsabilidade e maturidade são defendidas com unhas e dentes, até mesmo por seus próprios familiares. Fato é que as meninas já estudam mais que os meninos e são a maioria nas graduações do país. E elas também são mais responsáveis e comprometidas com seu trabalho.
O que a sociedade brasileira não percebeu é que não estamos educando os meninos adequadamente. A maioria dos jovens homens não teve letramento sobre direitos fundamentais. Desconhecem como suas futuras companheiras merecem ser tratadas. Pouco sabem sobre divisão de tarefas e maturidade emocional. Portanto, quando são desafiados pelo fim do relacionamento, entram em um tormento tremendo que somente a morte do seu objeto de prazer parece dar fim ao problema. As mães e pais atuais estão educando seu filho homem para quê? Para ser um agressor, fadado a anos de cárcere ou ser morto e espancado nas prisões?
Não vejo outra saída a não ser implementar nas escolas educação emocional, com equidade de gênero. As meninas - ainda mais em nosso país - precisam entender que não merecem ser tratadas como objeto sexual e que seu empoderamento passa pela educação e ensino profissional. Os meninos precisam investir em uma educação formal mais sólida, um total conhecimento sobre direitos das mulheres, inclusive a Lei Maria da Penha, e como seu comportamento precisa ser respeitoso em relação ao gênero.
Tenho consciência de que a jornada será longa e árdua. Mas me lembro que, quando jovem, pouco se falava em assédio sexual. Hoje, jovens da idade da minha filha tornam o comportamento inaceitável, com medidas punitivas exemplares, que passam pela denúncia à Justiça e prisão do abusador.
Mães e pais, a agressão começa nos maus-tratos animais, depois num tapa na namorada, até chegar ao espancamento dos próprios genitores, idosos ou não. É preciso dar um basta definitivo na aceitação da violência dentro de casa.
E, para não dizer que não falei em flores, meu profundo respeito. Por esta mulher trabalhadora, que levanta às 5h para cozinhar para os filhos, enfrenta o caos no transporte público, trabalha 8h por dia, treina na academia, faz lição de casa, arruma a casa e ainda tem tempo para tentar ser feliz. É essa mulher que me representa e representa meu país.
Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ