OPINIÃO

Não nos deixeis cair em tentação


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É incrível como a oração do Pai-Nosso permanece surpreendentemente atual e presente em nossa vida cotidiana. De forma especial, me debruço numa reflexão acerca de seu final: "não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal". Mais que uma súplica, trata-se de um pedido realista, nascido da consciência de que a liberdade humana é grande, mas também vulnerável.

Uma das tentações mais recorrentes é a idolatria. Não se limita a imagens antigas nem a ritos ultrapassados. Idolatria acontece quando algo criado ocupa o centro que pertence somente a Deus. Poder, dinheiro, reconhecimento, ideologias, projetos pessoais e até boas causas podem assumir lugar absoluto. Sempre que uma realidade penúltima se torna definitiva, o Criador é silenciosamente afastado. Pergunto-me com frequência, e proponho ao leitor o mesmo exame: que espaço Deus ocupa em minhas decisões? O que realmente orienta meus desejos e prioridades?

Outra tentação persistente é o orgulho. No Livro do Gênesis, a serpente sugere que o ser humano pode tornar-se como Deus. A promessa seduz porque oferece autonomia total. O orgulho consiste precisamente em estabelecer sozinho o critério do bem e do mal, dispensando qualquer referência superior. Tal postura infiltra-se nas relações familiares, no ambiente profissional, na política e até na vivência religiosa.  Por outro lado, a humildade, ao contrário do que muitos imaginam, não diminui ninguém; devolve-nos à verdade de criaturas que recebem a vida como dom e missão.

A fuga da cruz constitui, talvez, a marca mais evidente de nossos tempos. Muitas vezes caímos na tentação de um cristianismo sem cruz, que é o sinal, por excelência, do amor de Deus por nós.

Quem ama, dá a vida: o Senhor ensina no Evangelho segundo São Mateus que quem deseja segui-lo precisa tomar a própria cruz. A Primeira Epístola aos Coríntios recorda que a mensagem da cruz parece loucura para muitos, mas revela a força de Deus para os que creem. A experiência pastoral confirma que o amadurecimento humano e espiritual passa pela capacidade de atravessar provações com esperança e fidelidade.

No deserto, Cristo respondeu ao tentador com firmeza. Mais tarde, dirigiu palavras semelhantes a São Pedro quando este tentou afastá-lo do caminho da paixão. Recusar a cruz pode parecer prudência, mas termina por enfraquecer o amor que salva. Sempre que buscamos um Evangelho sem exigência (um cristianismo sem cruz), corremos o risco de esvaziar sua força transformadora.

Comunidades marcadas por desafios sociais, familiares e espirituais, como tantas no mundo, no Brasil, ou mesmo aqui em nossa cidade, necessitam redescobrir fundamentos sólidos. Violência, desigualdade, crises de sentido e rupturas não se superam apenas com soluções técnicas. Exigem conversão do coração, responsabilidade ética e abertura sincera a Deus.

Nesse contexto, a tradição espiritual da Igreja oferece palavras que sintetizam esse combate interior. A invocação ligada a São Bento recorda que a vida cristã não é ingenuidade, mas vigilância iluminada pela cruz. Ao proclamá-la, reafirmamos que nossa luz não vem do orgulho nem de falsas promessas, mas do Cristo crucificado. Por isso, rezamos:

A Cruz sagrada seja minha luz,
não seja o dragão meu guia.
Retira-te, Satanás.
Nunca me aconselhes coisas vãs.
É mau o que me ofereces;
bebe tu mesmo do teu veneno.

Tal oração expressa, de forma firme e serena, o desejo de permanecer no caminho do bem. Ao repetirmos o Pai-Nosso com consciência renovada, pedimos com confiança: livrai-nos do mal.

Dom Arnaldo Carvalheiro Neto é bispo diocesano de Jundiaí

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