Caro leitor, existe uma linha tênue entre a impetuosidade da juventude e a ausência absoluta de caráter. Historicamente, fomos condicionados a perdoar os excessos da adolescência sob o manto dos hormônios em fúria ou da imaturidade neurológica. No entanto, episódios recentes de crueldade gratuita — como o bárbaro assassinato do cachorrinho Orelha por um grupo de jovens — nos obrigam a questionar: onde foi que o processo de humanização dessa geração falhou?
O caso do cão Orelha não é um incidente isolado de "mau comportamento". É um sintoma de uma patologia social profunda. Quando adolescentes se reúnem para torturar e tirar a vida de um ser indefeso, eles não estão testando limites; eles estão demonstrando um vazio ético que nenhuma fase de transição justifica. A violência contra animais é, frequentemente, o primeiro estágio de uma personalidade que não reconhece o "outro" como detentor de direitos ou de dor.
O que assusta não é apenas o ato em si, mas a possível espetacularização do horror. Vivemos em uma era onde o choque gera engajamento e a transgressão é moeda de troca nas redes sociais. Para muitos jovens, a realidade parece ter se tornado um videogame sem botão de reinício, onde o sofrimento alheio é apenas um conteúdo a ser consumido ou descartado.
Precisamos parar de tratar a perversidade como "falta de ocupação". A sociedade brasileira tem o hábito perigoso de infantilizar indivíduos que já possuem plena consciência do certo e do errado, mas que escolhem o erro pelo prazer do poder. A adolescência não pode ser um salvo-conduto para o sadismo. Quando o Estado e as famílias se omitem de punir ou de educar severamente diante de atos de barbárie, eles estão, na prática, chancelando o próximo crime.
A neurociência, citada à exaustão para explicar a impulsividade jovem, não justifica a falta de piedade. A empatia é uma construção social e familiar. Se um jovem chega aos 15 ou 16 anos capaz de ignorar o choro de um animal sob tortura, algo morreu dentro dele muito antes do cão Orelha.
Caro leitor, a responsabilidade, embora recaia sobre as mãos que seguraram a pedra ou o pau, também respinga na omissão dos tutores. Onde estão os valores de compaixão e respeito à vida que deveriam ser o alicerce de qualquer educação? O caso Orelha é um espelho que reflete uma sociedade que se tornou anestesiada. Estamos criando gerações tecnicamente conectadas, mas emocionalmente analfabetas.
Não se trata de punitivismo cego, mas de responsabilidade civil e moral. Se não houver uma resposta à altura — das leis e da comunidade — para crimes que ferem a nossa sensibilidade coletiva, estaremos admitindo que a vida, seja ela humana ou animal, tornou-se um item descartável na prateleira do tédio adolescente. A morte do Orelha não pode ser apenas uma nota de rodapé; precisa ser o marco onde decidimos que a barbárie não será mais aceita como "coisa de jovem". Pense nisso.
Micéia Lima Izidoro, Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e Institucional, Neuropsicopedagoga Clínica, pós-graduada em ABA e estudante de Neuropsicanálise