OPINIÃO

Privatização fora dos trilhos


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Peço licença pelo trocadilho, mas ele é inevitável: a privatização da Linha 7–Rubi está, literalmente, saindo dos trilhos. O projeto, que inclui a construção e a operação do Trem Intercidades entre São Paulo e Campinas, com uma parada em Jundiaí, além do serviço parador entre Jundiaí e Campinas, começa a revelar, já no seu início, falhas graves de concepção, planejamento e responsabilidade pública.

Quase dois anos depois do leilão que declarou vencedora a concessionária TIC Trens, a própria empresa reconhece o óbvio que o governo fingiu não ver: o projeto, da forma como foi vendido, não para em pé. Segundo a concessionária, será indispensável a construção de uma via exclusiva para o trem expresso, totalmente segregada do tráfego da operação convencional. Em outras palavras, o projeto não foi corretamente dimensionado antes de ser entregue à iniciativa privada.

Convenhamos: sempre foi difícil, para não dizer impossível, imaginar dois trens com velocidades tão distintas compartilhando o mesmo trilho de maneira eficiente e segura. Mesmo com a melhor engenharia operacional, os atrasos seriam inevitáveis. A pergunta que precisa ser feita é simples: se a necessidade de uma via adicional já era conhecida ou prevista como possibilidade contratual, por que esse custo não foi explicitado, calculado e precificado desde o início?

A resposta leva direto ao ponto central do problema: agora, quem vai pagar essa conta é o Governo Tarcísio de Freitas e, por consequência, cada um de nós, contribuintes paulistas. A TIC Trens ainda está fazendo os cálculos, mas a estimativa é de algo em torno de R$ 2,5 bilhões. Não se trata de um mero ajuste técnico. É uma barbeiragem monumental, que pode resultar em um aditivo de quase 20% no valor total do contrato.

Se esse custo estivesse explícito desde o início, o leilão teria atraído mais concorrentes? Com mais empresas disputando, o Estado não teria conseguido condições mais vantajosas? São perguntas legítimas, mas que jamais serão respondidas enquanto o governo insistir em corrigir contratos mal feitos de privatização ao invés de reavaliá-los. Apenas uma nova licitação poderia trazer essas respostas com transparência.

Há outras perguntas em torno desta licitação que ainda demandam respostas, como o fim do Serviço 710. Por ele, era possível fazer uma viagem direta entre Jundiaí e Rio Grande da Serra, sem trocar de trem. Com a privatização, a Estação da Barra Funda virou parada obrigatória, aumentando o tempo do trajeto, superlotando a plataforma usada para a baldeação, e penalizando milhares de passageiros diariamente.

Outro ponto em aberto é o detalhamento de custos, prazos e impactos das demais obras que estão previstas em contrato, como a necessidade de construção de pontes, passarelas, viadutos e novas estações em áreas urbanas densamente consolidadas. Há ainda o túnel histórico do Botujuru, uma obra do século XIX, entre as estações Francisco Morato e Botujuru, que precisará ser reconfigurado.

Esse caso não é um desvio de rota isolado. É o retrato fiel do modelo de privatização adotado pelo Governo Tarcísio de Freitas, com contratos mal calibrados, riscos empurrados para o setor público e lucros blindados para a iniciativa privada. Não se trata de ser contra investimentos privados, mas de exigir planejamento, transparência e defesa do interesse público.

Mário Maurici de Lima Morais é jornalista, ex-vereador e ex-prefeito de Franco da Rocha

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